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fevereiro 26, 2006

SEGUNDA ESCOLHA

ao caminho.jpg

Aquele indivíduo metia dó. Via-se encurralado no caminho emocional das outras pessoas e sempre se descobria como uma segunda escolha, uma alternativa aos ideais românticos de quem o abraçava. Uma panaceia.
Aos poucos definhava nessa certeza que a vida lhe dava, de surpresa, nas mais variadas formas. E eu assistia à sua morte em vida, impotente, percebia a dimensão do seu desgosto e a progressiva perda da sua fé, mais em si do que nas outras pessoas.

Ele era um homem que passava a vida a perdoar, deixava-se enganar de propósito para merecer a caridade do amor de alguém. Alimentava ilusões que depois se desfaziam como flores secas e murchas na palma da sua mão. E ainda arranjava maneira de ficar mal visto com essa constatação. Nem lhe perdoavam as conclusões óbvias perante factos impossíveis de desmentir. Preferiam ferir a sua sensibilidade, insultando-lhe a inteligência.

E ele tinha consciência do seu papel de actor secundário na vida das protagonistas de cada filme em que contracenava como palhaço pobre, pobre coitado que apenas colmatava as lacunas como uma simples peça de substituição. Perdia a razão, ou tiravam-lha, sempre que se deixava convencer pelas evidências. Não lhe perdoavam um beliscão na realidade alternativa de cinema mudo que lhe cabia interpretar. Apenas lhe restava sonhar, enquanto aguardava que outros lhe assumissem a função. Metia dó.

Tentei deitar-lhe a mão, enchi-o de esperança. Mas de nada valeu. No seu horizonte adensava o breu e acumulavam-se os episódios que o humilhavam, as conclusões que lhe rejeitavam com base em desculpas sem nexo, esfarrapadas. Eram tantas as evidências que ele nem podia alimentar um sonho em condições, mesmo uma pequena ilusão, de se ver titular na equipa ganhadora em vez de mero suplente num jogo para empatar a solidão.
Nem conseguiam enganá-lo, ocultar-lhe os sinais.

Um dia ele desapareceu. Da minha vida como das de outras pessoas, nem sei se morreu. Por dentro, aposto que assim foi. Ouvi-lhe a amargura em tom de despedida, quando me confessou, cabisbaixo, a sua desistência dos caminhos do amor. O fim de uma carreira menor, por sua iniciativa, antes que ficassem preenchidos os lugares que ocupava de forma indevida. Sabia-se incapaz de competir com o estatuto e o comportamento ideal que outros, os eleitos, assumiam com a naturalidade dos verdadeiros ganhadores.

Ele acabou a perder, vexado.
E carregou para outro lado as mágoas que a vida lhe deu a provar.

Publicado por sharkinho às fevereiro 26, 2006 12:44 PM

Comentários

Se calhar essa pessoa tem apenas uma imagem de si próprio que não corresponde à verdadeira dimensão do que os outros veem nele. E desvaloriza o que tem tido ao longo da vida, apenas porque não quer entender que cada situação é única e incomparável. E tem o valor que lhe quisermos dar. Eu acho.

Publicado por: Mar às fevereiro 26, 2006 01:51 PM

Ter dó de alguém é o ponto de partida mais desastroso para a contemplação da realidade exterior porque logo à partida imprime uma desigualdade que não há critério objectivo que justifique, para além de que exerce uma influência destrutiva sobre a esfera intangível do outro, ainda que este último aspecto seja igualmente mais um elemento de fé, ou até mesmo de dogma, do que propriamente um relação causal que possa ser deduzida de forma inequívoca.

Para completar, ainda assim, a subjectividade da nota, acrescentar ainda que neste jogo cósmico de marionetas ninguém sabe, de facto o que é melhor para o outro. Por muito que queiramos florear a realidade com aprazíveis pleonasmos, estamos maioritariamente na viagem do EU e, por muito coração que invistamos na partilha, haverá algo que colmate a solidão de facto com que nos movemos neste nível de consciência? E mesmo que numa legítima rebeldia contra esta aparente injustiça queiramos aspirar ao NÒS ou até mesmo ao UNO, será que esta compartimentação do SER em unidades operacionais aparentemente isoladas não constitui, paradoxalmente, a expressão da mais suprema expansão? Pois para onde se expande um SER Unificado? A natureza é boa maestra neste míster, pois ensina-nos que a VIDA surge da polaridade e da mmm... fricção.

Claro que nem tudo é bom ou mau. Tanto quanto a memória, os afectos, a disponibilidade e os gostos nos permitem, podemos rechear a tortilla da vida com ingredientes mais ou menos suculentos e entregar-nos, quando podemos, à inquestionável magia da beleza, da solidão, dos encontros e dos reencontros, sem nunca esquecer que os gostos não se discutem e que neste curso de culinária, por artes e obras do MISTÉRIO, há finalistas que ainda têm cadeiras do primeiro ano em atraso e caloiros auto-didactas que estão muito à frente dos próprios professores, às vezes até mais por criatividade do que por esforço. Recordando as palavras do saudoso Gene Roddenberry (ai como fica bonito numa masturbação intelectual incluir uma citação culta no final, ohhh yeeeesssss mmmmm):

" PRIME DIRECTIVE

As the right of each sentient species to live in accordance with its normal cultural evolution is considered sacred, no Star Fleet personnel may interfere with the healthy development of alien life and culture. Such interference includes the introduction of superior knowledge, strength, or technology to a world whose society is incapable of handling such advantages wisely. Star Fleet personnel may not violate this Prime Directive, even to save their lives and/or their ship unless they are acting to right an earlier violation or an accidental contamination of said culture. This directive takes precedence over any and all other considerations, and carries with it the highest moral obligation."

Publicado por: Perseguidor às fevereiro 26, 2006 03:59 PM

Perseguidor, fixei-me na parte da mmm... fricção.
E há nessa minha fixação um NÓS implícito, não necessariamente um nós os dois mas enfim.
Eu não tenho dó de ninguém, irmão, excepto de mim próprio quando me deparo com as consequências de um mal em mim com que já sobejamente te confrontei.
Esta prosa é uma ficção baseada num caso real que não me envolve de forma directa, mas apenas por interposta pessoa.
Já te disse algures: não leves demasiado a sério o que lês nos blogues da malta... ;)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 26, 2006 04:31 PM

Ah, e achei galáctica a citação do grande Gene!

Publicado por: sharkinho às fevereiro 26, 2006 04:33 PM

Eu não sei, Mar, o que vai na alma das pessoas quando se colocam aos seus olhos e aos dos outros em circunstâncias que os minimizam. Pelo menos, ao nível de desgosto que a minha estória configura.
Claro que as coisas são o que são e têm o valor que se-lhes atribua. Por isso mesmo tudo é relativo e cada vez mais valorizo o agora em detrimento do ontem ou mesmo do amanhã.
Este texto foi escrito precisamente durante uma cogitação acerca do tema fascinante da dualidade humana, sobretudo em matéria emocional, por via do conflito entre o que se quer e o que se pode (ou deve) fazer.
The same old story... ;)

Publicado por: sharkinho às fevereiro 26, 2006 04:37 PM