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fevereiro 22, 2006
THIS SIDE UP
Foto: sharkinho
Se não passas de uma ilusão, a imagem da perfeição foi replicada e encontra-se espelhada no reflexo de ti ao alcance do meu olhar. Nesse engano que assumirei, de amar uma miragem, agarro a vantagem que me é concedida. A consciência adormecida, a ignorância bendita que me embala num sonho de que não quero despertar. Na desdita dos iluminados está o descuido no pormenor que faz toda a diferença, a escassa maleabilidade necessária para distinguir um mero golpe de vista de uma observação atenta.
Defeitos invertidos, virtudes aos olhos de quem usa o coração para filtrar as impurezas. Porque todas as certezas são produto da imaginação. Não passam de opiniões, de visões subjectivas a partir de um ângulo enviesado pela nossa percepção.
É difícil de perceber, assim à primeira vista. Pois é.
Mas também as palavras podem estar inquinadas com a mesma deturpação. Como imagens distorcidas pelo efeito da ondulação num lago sereno. Invertidas também, para salvaguardar a fantasia da vingança feroz da realidade como a vemos nesta vida apressada. Gente condenada a passar ao lado daquilo que interessa.
E a única pressa com justificação é a de abraçar essa ilusão que tu sejas e que tudo aquilo que desejas seja eu, mesmo de pernas para o ar. Como uma tartaruga, indefeso perante a tua perspectiva, vulnerável à tua decepção. Prisioneiro dos mesmos anseios, marinheiro de água doce no meio de uma borrasca de interrogações, preocupações sem sentido algum. Porque a vida faz-se mesmo assim, arriscada. É uma viagem sem rumo, ponto de partida aleatório e final da corrida sem hora marcada.
Navegamos à bolina e podemos abdicar do sentido de orientação.
Descobrir em cada porto de abrigo um oásis, em cada amor sentido uma marca tangível no mapa das nossas emoções passadas, presentes e futuras, sem medo de nos perdermos pelo caminho que nem sabemos para onde nos levará.
Por isso te absorvo com sofreguidão, realidade ou ilusão, feita no céu, perfeita como gosto de te ver.
E eu vejo-te assim.
Estás cartografada em mim.
Upside down.
Publicado por sharkinho às fevereiro 22, 2006 08:47 PM
Comentários
É o sal da vida... teu texto sempre intenso, Sharkinho..Já agora:Quando atualizei meu blog hoje, lembrei-me de vc...Bj para os dois !!!
Publicado por: agatha às fevereiro 22, 2006 10:11 PM
Obrigado pela lembrança, Agatha. Foi de prata, sem dúvida. ;)
Publicado por: sharkinho às fevereiro 22, 2006 11:23 PM
Nem sempre o que vemos é o que está ao alcance dos nossos olhos, sócio.
Ou melhor: muitas vezes, o que está mesmo ao alcance dos nossos olhos, está de tal forma perto, que aparece deformado pela proximidade. Se nos afastarmos um bocadinho e olharmos de novo, lá está. A imagem com total nitidez. :-)
Mas também é bom observar as coisas de uma perspectiva upside down, pensa só nos malabarismos que tens que fazer...
Publicado por: Mar às fevereiro 23, 2006 12:37 AM
Já não tenho elasticidade para malabarismos muito complicados, parceira. Daí, talvez seja prudente inverter a imagem em vez de me inverter propriamente dito... :)
E observar é sempre uma maravilha. Sobretudo quando conseguimos fazê-lo sob diferentes perspectivas.
Publicado por: sharkinho às fevereiro 23, 2006 09:04 AM