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março 16, 2006

A POSTA MALUQUINHA

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Foto: sharkinho

uma estranha forma de tristeza que se apodera aos poucos do quotidiano das pessoas como nós. Na maioria dos casos, embora não diagnosticada, essa tristeza traduz uma depressão clínica induzida pelas agressões sistemáticas de uma forma de vida essencialmente hostil. E manifesta-se de muitas formas, com especial incidência no individualismo exacerbado, na fuga aos “outros” que acaba por ser uma fuga de nós próprios, o caminho mais curto para a inevitável solidão.

O mundo que vivemos, repleto de maravilhas e de doces tentações, aprisiona a nossa consciência numa jaula infestada de papões. Como animais feridos, reagimos com medo, com agressividade ou com resignação a essa sensação incómoda de não darmos valor ao que interessa na vida, em qualquer vida, e de nos mergulharmos num tormento bizarro, num torpor que nos afasta de tudo quanto não seja simples e superficial. A apatia que nos converte em criaturas eternamente insatisfeitas com tudo o que nos é oferecido de bandeja e a maioria só pode sonhar.

Um contra senso, afinal, que se reflecte nesta realidade virtual onde cada um lida como pode com os seus fantasmas e com as consequências da exposição pública dos seus anseios e das suas limitações. Comunicamos a nossa perturbação sob as mais variadas capas, protectoras de uma fragilidade que quantas vezes pintamos com tons de arrogância e de uma superioridade moral que não acreditamos por não a sentir.
Denunciamos nas entrelinhas a dor que nos provoca a desadaptação ao ritmo alucinado que esta sociedade de merda nos impõe, nos intervalos da correria atrás das cenouras imaginárias que nos impingem como objectivo e que não passam de lenitivos materiais que não nos compensam do desgaste sofrido a porfiar pelo enriquecimento de alguém. Do nosso também, essa miragem da “vida melhor” que nos empurra em diante para o precipício da instabilidade emocional, da frustração de abdicar da felicidade genuína em prol de uma sucessão de dias iguais. Até a velhice chegar e com ela se constatar, em boa parte dos desfechos, que não valeu a pena.

A amizade pura e desinteressada, altruísta, não passa de uma ilusão na esmagadora maioria das relações. O sexo reduz-se ao essencial, converte-se aos poucos numa obrigação e existem os que o procuram com afinco como única alternativa para receber o carinho que nos falta como existem os que dele abdicam por falta de estímulo ou pela realidade crua da disfunção sexual. Outro preço a pagar pela trampa que nos enfiam pelo canal da sopa com uma alimentação envenenada e pela mona com um massacre de mensagens subliminares que nos obriga a sermos modelos fotográficos, ícones de perfeição, em detrimento dos cidadãos normais e sem merdas que nos ambicionamos mas os tais “outros” não estão preparados para tolerar.
E o amor também definha nesta enxurrada de distracções e de equívocos que nos afasta do essencial.

Fachada e nada mais. Casas luxuosas e carros a condizer, custeadas pela penosa constatação de não vermos os filhos a crescer. Ligações frágeis que se desfazem ao primeiro abanão. E depois a depressão, a falta de tesão, enfrentada a comprimidos mais ou menos azuis. Ou ignorada, pontapé prá frente e fé em deus, até à completa descaracterização dos valores e das fés que nos constituem de raiz. Até à amargura crónica que nos abraça num conflito interior que extravasa as fronteiras quando os “outros” se convertem em ameaças potenciais que urge combater, na nossa mente em guerra com um inimigo invisível que parece capaz de vencer todas as batalhas, o responsável anónimo pela nossa condição destabilizada e infeliz.

Isto não passa de uma generalização e não somos todos iguais na percepção do que nos rodeia, tal como são escassos os que se conseguem entender a si mesmos no meio da balbúrdia desta forma de vida estapafúrdia que nos desorienta as emoções.
O desequilíbrio é notório e faz-se sentir nas ruas como no interior de cada casa, de cada uma das carolas que se contabilizam em qualquer multidão.
Na minha, assumo-o sem receio de me expor ao escárnio dos que se acreditam diferentes para melhor ou têm a sorte de o poderem comprovar.

Vivemos endividados pelas prestações suaves das nossas opções condicionadas.
Pagamos com lágrimas por verter as consequências nefastas que nos fazem enlouquecer em existências madrastas. Palmadinhas nas costas, sucedâneos de amizade, de felicidade e de amor como compensação. Ou apenas as suas representações fugazes em momentos de euforia que se extinguem como fósforos à mercê do vendaval de agressões reais e imaginadas.

Perdemos a razão. E enquanto não o admitirmos será impossível recuperá-la.


Publicado por sharkinho às março 16, 2006 11:15 AM

Comentários

Eu cá acho que, mais do que a razão, nós perdemos é a ilusão...que afinal é o que move o mundo, a utopia, né?
No meio da vida alucinada que aqui descreves na perfeição, dos desencantos, da constatação da canalhice que nos rodeia, é difícil manter a pureza. E atrás desse facto e dessa perda, vem todo o resto.
Não achei nada uma posta maluquinha, pelo contrário, bem lúcida. Beijo.

Publicado por: Mar às março 16, 2006 03:25 PM

A razão também se escoa, Mar. Não reparaste ainda que anda tudo doido à tua volta? A sério: não te surpreendes a todo o instante com o discurso alucinado e as atitudes despropositadas dos tais "outros"?
Não sei se é um problema local, mas na minha terra anda tudo a bater mal...
Mando dois.

Publicado por: sharkinho às março 16, 2006 04:36 PM

Já reparei, já. O problema não é só na tua terra, acho que abrange o território nacional...
"Despropositadas" é mesmo a expressão certa, podes crer, às vezes fico parva a tentar perceber se o que estou a ler ou ouvir(conforme a coisa se passe no plano virtual ou no real) será mesmo o reflexo do que a pessoa que o expressou pensa...É que há cada uma mais hilariante que a outra, palavra!

Publicado por: Mar às março 16, 2006 07:02 PM

Eu tenho dias assim :)


Mas depois renova-se a esperança e a vontade, hoje ou um dia qualquer. Acho q o q vemos está mais no nosso olhar q na aparência das coisas.

Aquele poético e banal lugar-comum de St Éxupery de 'só se vê bem com o coração', é certeiro apesar de aparentem/ ingénuo. Há poucas pessoas em quem podemos confiar e nem precisamos de muitas, a bem dizer. Apenas as certas.

Mas há pessoas tão bonitas q o tempo e o modo nos desvendam q nos dizem sem palavras, pelos actos apenas, que debaixo do céu há mto azul também.

Até :)

Publicado por: vague às março 16, 2006 08:18 PM

Acho que ainda prefiro o traseiro da gaja...

Publicado por: claudia às março 16, 2006 09:26 PM

Ora bem, Sharkinho, a lúcidez é a tua maior riqueza. E, ao rítmo da tua prosa não tão elouquecida quanto isso, dizes as verdades que muitos não querem admitir! Mas viva a vida e vamos em frente adequando ao momento presente o que nos é oferecido e sentido. Sem medes, como alguém dizia... Um abraço.

Publicado por: soslayo às março 16, 2006 10:43 PM

Pelo contrário, Soslayo. A lucidez é a minha maior miséria, pois impede-me de ignorar estas merdas que depois partilho convosco e não são muito agradáveis de pensar...
Viva a vida o mais possível, amigo! E acredita que me tenho esforçado para desbundá-la e por merecer o privilégio que ela representa.
Cá chegou. Vai o meu a caminho.

Publicado por: sharkinho às março 16, 2006 11:56 PM

Eu também, Cláudia.

Publicado por: sharkinho às março 16, 2006 11:56 PM

Aplaudo de pé o teu comentário, Vague. E subscrevo cada letrinha.

Publicado por: sharkinho às março 16, 2006 11:58 PM

Fico mais descansado, sócia. Já estava a considerar a mudança de zona... :)
Mas a questão é mesmo essa. Eu acredito que as reacções inexplicáveis derivam apenas desse tal "não sei o quê" que nos mantém sob um permanente manto de neura.
Depois dá no que dá...

Publicado por: sharkinho às março 17, 2006 12:00 AM

Só para saudar o regresso da Vague Maria, quase quase perto da efeméride onde encontrámos as tasi pessoas que ela ali refere (ela inclusive)
Beijoca, gaja!

Publicado por: Mar às março 17, 2006 10:25 AM

Também é verdade que as bandas sonoras desenterradas dos anos 60 não ajudam nada contra a depressão ;)

Publicado por: Paulo Hasse Paixão às março 17, 2006 04:50 PM

Tinha que vir o apreciador de música pra chavalos apontar o dedo à banda sonora estilo jurassic park que tão bem define este blogue de cotas... :)
Mas admite que está bem escolhido, o tema, em função das postas. Vá, dá lá o braço a torcer ò manganão...

Publicado por: sharkinho às março 17, 2006 05:11 PM

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