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março 22, 2006
Eternidade e mais um dia
Quase desaprendemos o ofício da escrita alegre. Na corrida das manhãs de olhos pesados, duches rápidos, mochilas, lancheiras, sacos de ginática, raispartaaescolamaisosistema que nos transforma e aos putos em animais de carga, nas filas nervosas de minutos a escoar para o atraso da praxe, dedos tamborilantes no volante, mais os bons dias e a última hora dos recentes atentados num país algures lá longe...ainda.
E um dia destes, a morte.
Na chegada malhumorada ao local onde passamos metade das horas dos dias de vida que vamos queimando um a um, preciso de um café forte oxalá o chefe nem se lembre que existo, e o som do fax, telefone, a reunião às 10, 11 mais a das 14.30, por entre a cusquice sobre o último caso com a colega nova, que se diz que anda a passar por baixo da chefia intermédia e lá por dentro o bichinho a roer que a gaja é podre de boa, onde diabo irei hoje variar da fast food comida a correr, agora é que vai ser, uma salada, inscrevo-me no ginásio da esquina, vão ver, fico mil vezes melhor que ela, não passa de hoje, e as novidades da estação a cair perfeitas no manequim estilizado e os standes de automóveis, joalherias, sapatos, tentações mais a putaquepariu a conta-ordenado no limite e ainda falta uma semana.
E depois, a morte.
Quase esquecemos a escrita da pele, a que sabe o amor que um dia conhecemos, o marulhar de emoções que desperta o tom de voz que nos sussura ao ouvido, como és importante para mim. Apressados que estamos nos compromissos fiscais que nos obrigam, na prestação da luz, água, telefone, internet, tv que nos sufoca, no crédito à habitação que nos consome.
E a morte ali, ao virar da esquina.
Deprimimo-nos, desgastamo-nos, desperdiçamo-nos e choramos. Ou rimos, alucinamos e quase perdemos o tino, invejamos, odiamos, maldizemos, criticamos, não confiamos. Esgotamo-nos.
E, de repente, a morte. Não a nossa, a de outros, trágica, chocante porque inesperada, porque é fim e isso basta já que o simples conceito de fim é triste.
E é aí que nos apetece a vida e o infinito, mexer na terra com dedos de criança, embarcar no azul das sensações, construir um reino do outro lado do espelho, onde as ruas são feitas de bolacha e as casas chupa-chupas gigantes.
É nessa altura que queremos esticar o prazo que trazemos carimbado à nascença e pensar que a eternidade se pode guardar numa caixinha ali ao lado do coração.
Pomos o contador a zeros e esperamos redimir-nos, recomeçando a viver.
Mar
Publicado por sharkinho às março 22, 2006 07:56 PM
Comentários
É disto queu gosto. A correria das palavras e das emoções ao ritmo que os dedos permitem nas teclas do computador. Até se empurram... :)
Lembraste-me o teu Espelho, com esta posta.
Espero que o teu contador já tenha levado com o "reset" nas ventas, Mar.
Amanhã é sempre tarde demais.
Publicado por: sharkinho às março 22, 2006 08:18 PM
Xiça Mar!...
Até fiquei sem palavras
beijinho
Publicado por: sofia às março 22, 2006 08:54 PM
Agora é que é de inspirar, tomar fôlego e aproveitar, podes crer, Shark. Os que ficam a meio de uma estrada sem apelo nem agravo dariam tudo por poder fazê-lo.
A treta é que só nos damos conta disto nestas alturas...Beijo, sócio.
Publicado por: Mar às março 22, 2006 11:16 PM
Enche o peito de ar, sofia e ala que se faz tarde para viver a 100%! ;-))
É o que deveríamos fazer todos. Beijinho e obrigada pela presença.
Publicado por: Mar às março 22, 2006 11:18 PM
A menina, tá melhor?
Publicado por: sharkinho às março 22, 2006 11:19 PM
Bom dia Mar
Está muito bem escrito...tão bem quanto a tristeza que se apoderou de mim.
Quase consegui ler-te os pensamentos ao escreveres este texto...uma reflexão sobre a vida e a morte....numa altura em que a revolta toma conta de nós...
O pior é q todos sabemos como e o que devemos fazer.....mas ninguém o faz, ou pk não podemos, ou pk não nos deixam..sei lá....a vida é mesmo assim....resta-nos caminhar com quem quer caminhar e correr com quem quer correr....e esgotar assim o q nos resta até chegar o nosso dia....
Beijinho e vamos mudar de assunto....isto hoje tá mau.
Publicado por: sofia às março 23, 2006 09:58 AM
E quem consegue viver? Do que teremos que prescindir para o fazer?
Publicado por: Ricardo Garcia às março 23, 2006 12:11 PM
Claro que sim, sócio, obrigada por perguntares. Aliás, nem se pode dizer que tenha estado mal, só acho que somos uns tansos por não aproveitarmos o que temos. De bandeja. e só pensamos nisso quando somos confrontados com ainevitabilidade. Um dia deixaremos de ter. That´s all.
:-)
Publicado por: Mar às março 23, 2006 12:18 PM
Obrigada sofia. É mesmo isso, uma reflexão induzida pela revolta, por verificar num qualquer acidente na estrada a injustiça que cometemos connosco próprios enquanto fazemos de conta que somos eternos.
TEMOS que aproveitar, é essa a mensagem. Beijo e dias melhores.
Publicado por: Mar às março 23, 2006 12:21 PM
Ricardo, se calhar, temos que prescindir de muitas das coisas que ali descrevo em cima. Ou então do estado de espírito com que as vivemos. Porque não podemos deixar de as fazer, neste ritmo de vidinha moderna que levamos.
Viver mesmo, sem merdas, sem nos desgastarmos, acho que só aqueles que o fazem sem olhar a valores monetários, profissionais, etc.
O Nada e uma praia, eis a fórmula da felicidade. Se calhar.
Publicado por: Mar às março 23, 2006 12:23 PM
(Eu prefiro a versão o Tudo e uma praia...)
Publicado por: sharkinho às março 23, 2006 12:26 PM
(não fazes a coisa por menos, tu...LOL. A bem dizer, essa seria a versão ideal mas como os ideais não existem...)
Publicado por: Mar às março 23, 2006 02:32 PM
Essa dos compromissos fiscais como a água, a luz e o telefone conjugada com a dos contadores a zero soa-me a contestação às privatizações.
(Como sabes tenho como principio orientador brincar com tudo e com todos. Com a excepção da minha pessoa por ser demasiado obtuso para perceber as subtilezas do meu humor. Não obstante isso, espero que leias estas minhas tiradas como uma tentativa desajeitada de minorar as tristezas. E se possível invocar um raio de luz na escuridão. Desde que este não entre para a conta da electricidade, claro. Beijinho)
Publicado por: PN às março 23, 2006 06:01 PM
Sei pois PN. É essa característica que te torna tão particular. É impossível alguém zangar-se contigo, ou ficar a ruminar tristezas muito tempo, pá!
E contra as privatizações sempre, claro. Não há como garantir os serviços básicos se um tótó monopolista de repente se lembrar de nos fechar a torneira, né?
Publicado por: Mar às março 23, 2006 06:31 PM
