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março 31, 2006

Haverá

bute bazar!.jpg
aqui

coisa melhor que fechar a porta à sexta-feira que já passou e antecipar um fim-de-semana inteirinho para fazer coisa nenhuma, que é o mesmo que dizer, tudo o que nos der na bolha?

Só mesmo a perspectiva de ir estar contigo!

(sem prejuízo de também desejar um Glorioso fim-de-semana para os leitores deste blog. O meu vai ser) :-)

Mar

Publicado por sharkinho às 06:03 PM | Comentários (8)

SÓ PARA...

peixe lua.JPG
Foto: sharkinho

...Vos desejar um excelente fim-de-semana.

Publicado por sharkinho às 04:15 PM | Comentários (4)

março 30, 2006

Escrita inócua

claro como água.gif
aqui


em que terra quer mesmo dizer terceiro planeta do sistema solar, ou o solo sobre que se anda, ou ainda povoação, território ou campo e nada mais do que isso e água significa rigorosamente líquido incolor e inodoro, composto de hidrogénio e oxigénio.
Nada de confundir substantivos comuns tais como homem, país, gato ou concretos como rapaz e árvore ou mesmo um mais abstracto tal como profundidade, por exemplo, com tentativas veladas de se dizer mais do que se parece querer fazer.
Se optarem por essa via de interpretação, incorrerão em grave risco de malentendidos e ofensas virtuais, com as consequentes e correspondentes medidas de retaliação patética e vagamente desesperada por parte da pretensa vítima.
Sugiro que, logo que se sintam levemente tentados a descortinar significados obscuros e ocultos nas entrelinhas de uma frase que diga algo como hoje está quase a chover mas ainda faz sol, tomem um ultralevure, agarrem num pau de incenso e se sentem de pernas cruzadas, embalando o corpo para a frente e para trás, num ângulo nunca superior a 90º, emitindo sempre um som cavo mais ou menos semelhante a hommmmmmm....
Costuma resultar. A leitura da obra completa em três tomos "Como ultrapassar a mania de perseguição antes que ela me apanhe" também pode ajudar.

Este aviso é dirigido à blogosfera em geral e aos leitores deste Charco em particular.
Aprendam que eu não vivo sempre. Não precisam de agradecer.

Mar

Publicado por sharkinho às 02:00 PM | Comentários (7)

A POSTA NOS ORIFÍCIOS

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Fotos: sharkinho

Publicado por sharkinho às 10:53 AM | Comentários (5)

março 29, 2006

Dia de Violetas

jardim de violetas.jpg
aqui


O dia, hoje, cheira-me a violetas. A sério.
Há um cheiro a violetas que nasce das pedras, se entranha na pele das minhas mãos e me embriaga os sentidos. Pareço um cachorro ou perfumista, a farejar o ar à procura da fonte do mistério.
Não sei se, durante a noite, um bando de gnomos mágicos munidos de baldes minúsculos e panos de limpeza, lavou as lajes e os troncos das árvores, sacudiu poeiras e rancores, arejou recantos esquecidos e perfumou de violetas o dia que nascia.
Não sei.
Mas aspiro com deleite o aroma e a alquimia com que amanheceu o meu dia.

Mar

eu tou cá desconfiada que, o culpado disto tudo é um sabonete líquido novo que comecei a usar mas não digam nada a ninguém...

Publicado por sharkinho às 09:01 AM | Comentários (15)

março 28, 2006

A POSTA ESPOLIADA

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A Polícia de Segurança Pública tinha avisado: o crime violento aumentou no nosso país. Sobretudo o assalto à mão armada.

Hoje, em pleno estádio da Luz, seis milhões de portugueses sentiram na pele essa realidade terrível quando um cidadão de origem britânica nos espoliou da glória dos vencedores. Só uma pena de prisão perpétua na penitenciária da Multiópticas serviria de castigo para esse cámóne pitosga, esse mister danger dos relvados, esse bife vilão.

O Glorioso vai ser campeão.
Mas hoje fomos todos escandalosamente roubados!

Publicado por sharkinho às 10:30 PM | Comentários (6)

Conta-me Histórias...

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aqui



...daquilo que eu não vi *


Que o poeta é um fingidor já toda a gente sabe. Agora, o que é admirável é observar quem, não sendo poeta, ou nem sabendo compor duas frases gramaticalmente correctas sequer, manipula a arte de fingir com tal mestria que quase poeta se diria. (ena, até eu já versejo)

A princípio, até dá para acreditar. A necessidade aguça o engenho, como se sabe, e a manha (que até rima com sanha) adquire um refinamento digno dos guiões de Fellini. Ele são odes à Família, Deus Pátria e afins e mais as declarações incendiadas de princípios e despudores ou então verdadeiros manifestos sobre a Vida e o Amor. Que mudam de protagonistas com a leveza de quem escreve uma rima, voláteis, como o carácter de quem os profere.

Depois, o excesso denuncia a verdadeira essência, a da carência. A contínua insistência em gritar ao mundo aquilo em que se quer acreditar, revela a real inexistência do que tanto se apregoa.
O que é genuíno é óbvio e não carece de afirmação contínua, repetida, a tresandar a falso, qual néon no meio da euforia que os inebria e tira a valia ao que tanto se esforçam por fazer crer. A si próprios, mais ainda do que aos outros.

É um processo com fases diversas, comuns a todos os artistas, apenas mais ou menos lento consoante o grau de empenho e fé.
Apreciadas e facilmente identificadas por quem assiste de camarote à performance. Do subtil e vagamente tímido palpar de terreno, passa para um crescendo de exercícios práticos nas várias potencialidades a explorar, atingindo por fim o êxtase do auto-convencimento.

É nesta fase que o seu amargo complexo crónico de inferioridade se transfigura em síndrome do espelho, espelho meu, haverá alguém mais bela do que eu.
Daqui para a frente, como num processo de adicção a uma viciante droga, é preciso mais e sempre mais.

São seres humanos sui generis, estes. E é um passatempo fascinante, observar-lhes o raciocínio tortuoso enquanto se pensam (e gabam de ser!) os maiores e mais espertos. Porque perdem a noção do ridículo que a sua actuação representa aos olhos dos "outros", nós, as pessoas que vivem vidas sem alarde, tão mais ricas que as suas e, por isso, sem necessitarem de publicidade.

Enquanto manobradores da difícil arte do embarrilamento, tiro-lhes o chapéu.
Despertam-me pena, enquanto meus semelhantes que nunca conheceram melhor vida que a do fazdeconta.

Mar

* do original dos Xutos e Pontapés

Publicado por sharkinho às 08:59 AM | Comentários (4)

março 27, 2006

A POSTALADA CAPITAL

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Primeiro dos dias úteis. Uma utilidade duvidosa, excepto para quem encara o trabalho como um prazer. Eu também encaro o trabalho dessa forma, pois sinto-me fodido sempre que se torna imperativo prestar esse tributo à sociedade para que esta me aceite e me reconheça como um igual.
Integro-me na cena porque não me assumo pária, presto serviços, prostituo a minha energia em troca de uma remuneração que me permitiria adquirir os símbolos do estatuto que merece quem melhor se governa neste jogo social.

Eu governo-me bem, como qualquer mercador numa terra de vendilhões (das próprias almas, até). Esforço-me por bulir de uma forma não mercenária, evito cegar pela ambição recusando a ilusão de me equiparar a um pequeno milionário por via de possuir meia dúzia de sinais exteriores que fazem um vistaço na figura de qualquer cidadão como eu, de classe média. Esturrico mais facilmente o pilim numas imperiais e numa bela sapateira do que num calçado finório na sapataria da moda. Sou assim, algo desenquadrado do meu meio. Sem classe alguma a defender.

A minha origem é mesmo o povão. Só o milagre de uma Revolução, acontecida na melhor altura para os putos de famílias sem cheta nessa época, me permitiu acompanhar o agregado familiar na sua escalada, na ascensão à etapa seguinte da degradação moral inerente à sede de enriquecimento que nos afasta do essencial. Porque a fuga às privações monetárias implica a concentração num objectivo incompatível com a manutenção de um contacto familiar (e não só) próximo e saudável. As repercussões desse caminho pela ambição acabam por se fazer sentir, quando tudo gira em torno da sede de trepar até ao ponto mais elevado possível da cadeia alimentar de uma economia canibal.
Por isso mesmo abdico do sucesso tal como o medem agora, recuso trabalhar fora de horas e, dizem, isso faz toda a diferença no percurso de um trepador social acelerado, de um vendedor.
Pois faz.

O trabalho por gosto, excepto para uma minoria de apreciadores, de lutadores, de sonhadores e acima de tudo de felizardos é um luxo. E eu não gosto do meu porque me impõe (como todos) uma carrada de sapos para engolir, uma espécie de vassalagem aos que (lá em cima) só acreditam na capacidade dos que abraçam determinado perfil. Fato e gravata. Na mona. Padronizado. Olhar frio e discurso consensual. Nenhuma rebeldia. Alinhamento perfeito com a postura que se entende ideal. Uma espécie de chefia à distância, por inerência, sobre quem renegou o conforto de um salário pago por patrões.
E eu sou alérgico à autoridade moral que o dinheiro lhes dá, ou seja a quem for, sufoca-me o poder que o dinheiro garante. Salvo raras excepções que resultam de uma improvável mas feliz conjugação, quando o vil metal se concentra nas melhores mãos. Sou um não alinhado e por isso me entendem como uma espécie de ameaça velada ou, no mínimo, como um mal necessário.
Porque sou “bem sucedido” apesar de refilão, capaz de circular por esta estrada que é afinal uma pista de competição, vencedor na minha corrida nos moldes que a sociedade definiu como bitola.

Porque hoje é segunda-feira apeteceu-me discorrer acerca da labuta (essa puta) que nos é imposta na mais generosa fatia de cada dia que nos compete viver num mundo pensado assim. E do bem material que a sustenta e nos move nesta jornada de luta em horário de expediente and behond. O discurso não soa optimista e até me permiti recorrer a um palavrão ou dois, mas acreditem que apenas resulta de uma visão pragmática de quem acaba de se despedir de mais um abençoado fim-de-semana. Um pequeno desabafo, para justificar a utilidade do blogue e vos dar mais umas dicas acerca do respectivo co-autor.

Agora é vergar a mola, na boa, de olhos postos no final do dia em que os objectivos são outros, bem melhores, e com a mente aguçada para me guiar o jogo de ancas necessário para porfiar nesta guerra sem quartel pelo lugar ao sol num espaço onde predominam as sombras. Sem apanhar com os estilhaços das deflagrações alheias, sem espalhar em meu redor o metal incandescente da minha própria rebentação.
Sem pressa nem aflição, ziguezagueando por entre os torpedos dirigidos à consciência, à irreverência, à capacidade de resistência às agressões do exterior.

E eu vagueio pela realidade alternativa que construo aos poucos, liberto uma parte de mim que passeia sem preocupações, alheia a este ritmo frenético que não passa de uma estupidez sem sustento.
Vou então para fora cá dentro. Blindado pelas convicções.

E desarmado pela lucidez.

Publicado por sharkinho às 04:03 PM | Comentários (4)

A posta antecipatória

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O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Fernando Pessoa

Mar

Publicado por sharkinho às 02:12 PM | Comentários (6)

março 26, 2006

Dias Assim

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foto Mar

Gosto de dias assim.
Soalheiros, de aragens frescas.
Uma nuvem de cabelos, esvoaçante, em torno de um pescoço desnudo.

Nas notas de um perfume que nos envolve, mora o registo do tempo que o imortalizou na nossa memória olfactiva.
Como um filme antigo, em câmara lenta, visionado em repeat mode.
Gosto de lembranças assim.

Mar

Publicado por sharkinho às 05:45 PM | Comentários (11)

A POSTA NAS FOTOS ESPREITADAS

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Fotos: sharkinho

Publicado por sharkinho às 04:49 PM | Comentários (8)

março 25, 2006

NA PELE DO TEMPO

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Foto: sharkinho

O tempo não voa quando marca a distância mais longa entre dois pontos que se querem unidos num só. A saudade é a unidade de medição e cresce na proporção inversa ao tempo que falta percorrer.
A distância que o tempo acrescenta enquanto se arrasta pela espera de um dia que virá, sempre demasiado tempo depois. O mesmo tempo que desgasta e assim afasta quem espera do seu caminho original.
Desespera, afinal.

E eu sinto na pele a falta de tudo o que a tua lhe dá.

Publicado por sharkinho às 11:06 AM | Comentários (3)

março 24, 2006

A POSTA NO CU BEM BOM

o fotografo tava la.jpg

Desde os primórdios do charco nunca escondi o meu fascínio por tudo quanto se relaciona com o feminino. Os corpos também, pois sou sensível às diferenças anatómicas que nos distinguem e desde puto (e apesar de ter adoptado os conselhos dos veteranos e olhar sempre “pela surra” para não intimidar ou incomodar alguém com o mirone descarado) nunca consegui reprimir uma observação discreta dessas figuras mágicas que embelezam as ruas deste país onde, sem contestação, residem as mais belas mulheres do planeta. Conteste quem quiser. Já fui a países suficientes e já vi imagens de mulheres de muitos sítios para poder retirar as minhas conclusões e defendê-las com toda a convicção.
E gostos não se discutem (excepto, talvez, com os congéneres do Brasil – mas mesmo aí existe o toque inconfundível da beleza lusitana como eterno legado dos Descobrimentos que nos orgulham).

Tudo isto a propósito do Cubembom, um blogue onde se faz o culto da parte do corpo que o nome indica. O cu é, sempre foi, uma referência para a libido masculina. Quando nos cruzamos com uma mulher jeitosa é quase irreprimível o impulso para voltar a cabeça e apreciar os contornos dessa zona tão apelativa que, de resto, encontra paralelo nas mulheres que, cada vez mais, assumem o seu interesse por esse componente do nosso físico.
E se as mamas, essa luz que orienta como um farol no meio do breu os olhares libidinosos de qualquer observador com pila, são explicadas no seu encanto pela teoria do desmamado precoce, o mesmo não acontece com o traseiro que ocupa um espaço incontestado no topo das preferências (referências?) da rapaziada que observa.

Por isso mesmo, é uma questão de justiça elementar que alguém blogue o culto nadeguista e ofereça aos(às) verdadeiros(as) apreciadores(as) um espaço estritamente vocacionado para a exposição das bonitas imagens que se encontram por aí.
É o que acontece no Cubembom e a Gotinha, sempre atenta ao pormenor, não deixou escapar o que será provavelmente o traseiro mais vistoso que o charco já publicou, na posta das fotografias que eu gostava de ter tirado (umas postas abaixo, que eu não tou com pachorra para a lincar e com esta descrição quem gostar destes assuntos vitais não se perde pelo caminho).

Eu sou um desmamado precoce assumido. No entanto, o rabiosque feminino disputa em igualdade de circunstâncias com os seios, os olhos e o cabelo a minha atenção à anatomia das mulheres. Isto porque constitui o mais poderoso agitador do meu badalo (do sino de alarme que todos possuímos para nos avisar dos estímulos de índole… hmmm… estética).
Claro que nesta altura, e para contrariar quem possa até este parágrafo ter concluído que não passo de mais um atesoado debochado e sem vergonha, poderia enveredar pela descrição elogiosa de tudo quanto há de destacável no conjunto deslumbrante de que qualquer mulher se faz. A sensibilidade, a inteligência emocional, uma porradona de argumentos que reúno para explicar a minha vincada tendência hetero, tudo isso faz parte do magnetismo que me atrai como um mosquito para a tal luminosidade que cada uma de vós representa no meu mundo às escuras na ausência do seu elemento principal. E não estou (só) a falar de seios, de vaginas, de rabos ou de qualquer outra delícia corporal que o criador (ou Criadora) desenhou para que o paraíso pudesse ser digno desse nome.
Porém, seria hipócrita fazer de conta que não se repara nesses detalhes de um conjunto inegavelmente harmonioso no todo e invariavelmente belo nas partes. Por isso não me abstenho de assumir, já quarentão, a mesma atracção da adolescência pelas imagens que o Cubembom disponibiliza para deleite de uma audiência adulta de todos os géneros e idades.

E porque vem a propósito e para terminar esta recomendação/elegia desse fantástico relevo que nos seduz, reproduzo na íntegra o Piropo do Dia que encontrei no Sociedade Anónima, assinado pela Cecília R.

Estava aqui a olhar para o teu rabo e lembrei-me que hoje é dia mundial da poesia.

Publicado por sharkinho às 11:49 AM | Comentários (19)

março 23, 2006

EU NÃO SEI SE OS MORTOS CONSEGUEM LER

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Pegando ainda na posta da minha sócia, que muito apreciei, e porque o tema me fascina, decidi gastar um pouco do nosso tempo a abordar essa complicada questão da felicidade, tal como a entendo, e em que medida é nossa a escolha nessa matéria.
Existe um ponto no qual (em teoria) eu e a Mar estamos de acordo: isto (a vida) esgota-se na pirisga e ainda temos os pianos de cauda imprevistos para nos darem cabo dos planos para os amanhãs que nada nos garante nascerem com o nosso testemunho. Daí, é obrigatório esmifrar cada oportunidade que nos surja e que se enquadre dentro do que definimos como limites da nossa gulodice pelo prazer que a vida nos dá.
E é decisivo atribuirmos o devido valor às coisas boas e relativizarmos tudo o que nos perturba hoje pelo peso que (não) terá amanhã.
Ou seja, temos que nos chatear menos e aproveitar muito mais. Temos que ser gratos pela existência livre de impedimentos a sério, quando esta se proporciona.

por mim era ja.jpg

Contudo, a Mar é um nadinha mais pessimista do que eu. Ela não acredita nas utopias, afirma-se realista e aceita o que a vida lhe der (o que considera ser possível a vida dar-lhe, aliás). Eu quero mais. E quando não tenho o que quero acredito que é possível obter. E só desisto quando não há mesmo mais nada a fazer, o que, quando o objectivo vale a pena, implica um porradão de desgostos e de desilusões em catadupa.
Mas também implica a esperança ao longo do caminho e eu, agnóstico, considero-me um homem com muita fé.

A felicidade não é eterna, não é permanente e é um conceito tão vago que dificilmente terá uma interpretação comum para dois seres humanos. Temos formas diferentes de sentir e atribuímos um significado distinto às incidências do percurso. Variamos na intensidade, na ambição, na reacção às cicatrizes que os momentos maus nos provocam. E ainda variamos no feitio, na disponibilidade para sorrir, numa data de merdas que transformam qualquer arquétipo de perfeição numa salada (muito) mista.
A felicidade pode ser instantânea e durar apenas alguns segundos ou uma vida inteira (que pode ser curta). E será sempre uma felicidade condicionada à nossa forma de a experimentar.
Por isso a fortuna não basta a alguns e a miséria não retira a alegria a muitos mais.

Certo é que ser feliz implica (até prova cabal em contrário) estar vivo e capaz de usufruir das imensas benesses ao dispor. Mas por capaz entendo ter condições físicas e anímicas que nos permitem atacar as melhores fatias do bolo. E sonhar com a forma de melhorar a receita, para as sobremesas saberem cada vez melhor. Não é utópico para mim forçar a barra da felicidade, mesmo quando reúno no meu perímetro as condições mínimas para satisfazer os requisitos “universais” do tal conceito. Demais é um termo que não se conjuga com a felicidade como a entendo.
Porque uma parte dessa euforia que até pode derivar de um conjunto de pressupostos ilusórios, subjectivos, reside precisamente no estrebuchar sem sossego para alcançar o próximo patamar da escadaria, o nível seguinte deste jogo onde as vidas não se podem comprar quando se extinguem, como a Mar salienta na sua posta.

brincadeiras serias.gif

A piada disto tudo, na óptica de um idealista, consiste em enfrentar esses desafios que os outros consideram impossíveis de abraçar, surrealistas, patéticos até. Um gajo espalha-se e levanta-se logo a seguir e reformula a abordagem e espalha-se outra vez e acumula memórias, experiências, concretiza fantasias e finta a morte com uma vida a valer.
Depois do fim logo se verá como se dá a volta à cena, se existirem outros palcos depois do pano cair. Aí, ninguém nos julgará pelo que fizemos ou pelo que deixámos por fazer e duvido que quaisquer julgamentos nos cheguem aos ouvidos ou nos dêem comichões no espírito depois de nos soterrarem sob uma lápide qualquer.

É esse o principal fundamento do primado da desbunda, esse direito inalienável dos que a têm como alternativa por entre desgraças como o nascer e o morrer e as partidas foleiras que uma vida nos pode pregar.
Perseguir a utopia, acreditar em ideais “impossíveis” e dar cabo do coiro a contrariar os derrotismos consensuais é, a meu ver, uma receita excelente para dar a volta à pasmaceira que os dias normais nos instalam. Qualquer frustração inerente ao fracasso de um delírio, de uma ambição desmedida ou de uma simples irrequietude que nos empurra para um nível tolerável de extravagância, de loucura (mais ou menos) controlada, constitui um preço que se justifica pagar. É que nada nos tira a pica que dá tentar ir um nadinha mais além, mesmo arriscando uma decepção.

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Decepcionante deve ser um gajo ter adiado a felicidade para mais tarde, por ser “impossível” nessa altura, e ver-se às tantas a duzentos à hora em linha recta para um candeeiro ou a definhar aos poucos numa cama de hospital.
A vida representa para mim nada mais do que um lapso de tempo durante o qual posso optar entre querer e fazer já, mesmo que não seja comummente aceite como normal (e aceitar as eventuais consequências), ou deixar para depois, para uma fase da existência em que (alegadamente) os factos permitem outro tipo de leitura, mais prudente e avisada.

Pode ser que sim, se tudo correr pelo melhor. Mas também pode o destino trocar-me as voltas.

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E eu não sei se os mortos conseguem ler.

Publicado por sharkinho às 09:04 PM | Comentários (4)

março 22, 2006

Eternidade e mais um dia

Infinito.jpg
aqui

Quase desaprendemos o ofício da escrita alegre. Na corrida das manhãs de olhos pesados, duches rápidos, mochilas, lancheiras, sacos de ginática, raispartaaescolamaisosistema que nos transforma e aos putos em animais de carga, nas filas nervosas de minutos a escoar para o atraso da praxe, dedos tamborilantes no volante, mais os bons dias e a última hora dos recentes atentados num país algures lá longe...ainda.
E um dia destes, a morte.
Na chegada malhumorada ao local onde passamos metade das horas dos dias de vida que vamos queimando um a um, preciso de um café forte oxalá o chefe nem se lembre que existo, e o som do fax, telefone, a reunião às 10, 11 mais a das 14.30, por entre a cusquice sobre o último caso com a colega nova, que se diz que anda a passar por baixo da chefia intermédia e lá por dentro o bichinho a roer que a gaja é podre de boa, onde diabo irei hoje variar da fast food comida a correr, agora é que vai ser, uma salada, inscrevo-me no ginásio da esquina, vão ver, fico mil vezes melhor que ela, não passa de hoje, e as novidades da estação a cair perfeitas no manequim estilizado e os standes de automóveis, joalherias, sapatos, tentações mais a putaquepariu a conta-ordenado no limite e ainda falta uma semana.
E depois, a morte.
Quase esquecemos a escrita da pele, a que sabe o amor que um dia conhecemos, o marulhar de emoções que desperta o tom de voz que nos sussura ao ouvido, como és importante para mim. Apressados que estamos nos compromissos fiscais que nos obrigam, na prestação da luz, água, telefone, internet, tv que nos sufoca, no crédito à habitação que nos consome.
E a morte ali, ao virar da esquina.
Deprimimo-nos, desgastamo-nos, desperdiçamo-nos e choramos. Ou rimos, alucinamos e quase perdemos o tino, invejamos, odiamos, maldizemos, criticamos, não confiamos. Esgotamo-nos.

E, de repente, a morte. Não a nossa, a de outros, trágica, chocante porque inesperada, porque é fim e isso basta já que o simples conceito de fim é triste.

E é aí que nos apetece a vida e o infinito, mexer na terra com dedos de criança, embarcar no azul das sensações, construir um reino do outro lado do espelho, onde as ruas são feitas de bolacha e as casas chupa-chupas gigantes.
É nessa altura que queremos esticar o prazo que trazemos carimbado à nascença e pensar que a eternidade se pode guardar numa caixinha ali ao lado do coração.

Pomos o contador a zeros e esperamos redimir-nos, recomeçando a viver.

Mar

Publicado por sharkinho às 07:56 PM | Comentários (14)

A QUEM NÃO ENTENDEU A POSTA ANTERIOR

Sabem que dia mundial é hoje?
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Publicado por sharkinho às 02:10 PM | Comentários (4)

sem título

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Publicado por sharkinho às 10:11 AM

março 21, 2006

No tempo em que eu acreditava

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aqui

que as pessoas eram isentas, tinha a convicção de que também eram sinceras.
Quando eu ainda era ingénua o suficiente para crer que os actos se praticavam sem que um inconfessável objectivo individual os movesse, era capaz de apreciar tudo o que de novo se me oferecia ao olhar.
Nesse momentos de crença ou fé, até era capaz de sorrir ao ler um email, aplaudir o esforço que produzia um texto mediocre mas, ainda assim, um texto.
Nessas eras longínquas, confesso, os dias tinham mais piada, a expectativa tirava-me o sono, a esperança ainda me vestia.

Hoje, dois anos, alguns encontros blogueiros e um projecto colectivo volvidos, ensinaram-me o alfabeto com que leio as caixas de comentários semi-vazias.

Mar

Publicado por sharkinho às 08:39 PM | Comentários (8)

A POSTA NO PEQUENO DRAMA DO QUOTIDIANO

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Foto: sharkinho

"A merda do 70 chega sempre atrasado. Já vou levar uma pissada do chefe..."

Publicado por sharkinho às 09:42 AM | Comentários (6)

março 20, 2006

CHINA GIRL

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(Ainda) Não conheço blogue algum que seja um tratado da literatura contemporânea. Nem é isso que se exige a um blogue, feito por pessoas sujeitas a um dia-a-dia normal e que nem sempre estimula a criatividade e/ou a inspiração.
A malta não anda pela blogosfera em busca da reencarnação virtual do Pessoa ou da Florbela Espanca. Gostamos de postas bem esgalhadas, em português escorreito e tal, mas o que procuramos é um não sei o quê, um momento, que faz sentir que valeu a pena gastar o tempo a ler o que alguém concebeu para, literalmente, nos oferecer.

Um blogue bem escrito pode ser uma seca, tal como um blogue escrito com os pés pode primar por um sentido de humor e uma abordagem de tal modo criativa que um gajo não deixa de por lá passar. Falo na perspectiva do visitante, claro, que o somos todos ou esta merda toda fechava as portas.
Daí, vagueio como os outros pelos linques que vou coleccionando por este ou aquele motivo e na maioria das vezes a montanha pariu um rato e levo a banhada (como pode acontecer a quem aqui aterra).

Contudo, e felizmente existe um contudo, esta massa anónima de escribas (comunicadores/as) compulsivos/as possui o condão de se transcender em rasgos que considero geniais. Pelo ritmo, pela ideia, pela pica que transparece por entre as palavras que até se comem umas às outras para ver qual brilha mais num conjunto feliz.
Essa pica de que vos falo é, no meu entender, o motor das maiores realizações que tenho encontrado nesta comunidade (maioritariamente) de amadores como eu.
Qualquer que seja o tema, qualquer que seja a abordagem. Quando um blogueiro ou uma blogueira ataca o teclado com aquele killer instinct do “agora é que é, levam com um naco de prosa nas beiças que até manda ventarola” temos posta das boas.

No caso em apreço, que move este meu gesto de puro reconhecimento, trata-se de uma blogueira. China Blue, do Sociedade Anónima. “Kit do Enconanço Perene”, o texto. É uma filha da mãe de uma posta das que eu idolatro, das que me agarram a esta cena como uma lapa.
Não faço a coisa por menos, saturado que ando de uma falta de originalidade e de pica que também neste charco se faz sentir. É que a parte fixe desta cena reside precisamente no entusiasmo com que a malta se senta à frente do monitor pelo gozo da escrita, pelo prazer da comunicação com palavras que exprimem ideias ou retratam a nossa perspectiva acerca de uma treta qualquer.
E nem me armo aos cucos a dissecar as reais intenções, a motivação ou essas porras que cada um sabe de si e quem lê, por regra, não percebe um boi.
Falo apenas do prazer e do talento de quem escreveu, oferecido de bandeja a quem quiser ler. Neste contexto, estou-me a cagar para as teorias implícitas ou explícitas que cada um pode sempre extrair do que os outros (as outras) debitam na sua prosa.

E recomendo, sem hesitar, a leitura sem preconceitos (nem outras merdas que só atrapalham), just for the fun, de uma posta como há muito não encontrava.

Publicado por sharkinho às 07:44 PM | Comentários (5)

A POSTA NAS FOTOS QUE GOSTAVA DE TER TIRADO

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Publicado por sharkinho às 12:25 PM | Comentários (7)

CÉU MUITO NUBLADO, VENTO FRACO (com rajadas)

Bom dia.
Logo pela manhã gosto de fazer uma curta ronda pela blogosfera, meia dúzia de espaços de grande requinte e subtileza, só para apalpar o terreno relativamente ao estado de espírito que preside em cada dia.
Essa pequena sondagem assume particular preponderância às segundas-feiras, pois permite-me entrar em sintonia blogueira com algumas referências minhas em matéria de humor. É que a blogosfera diz muito do que se passa lá fora, pois por incrível que pareça por detrás de cada blogue existe (pelo menos) uma pessoa (mais os respectivos alter-super-egos) das que cruzam os nossos caminhos no café do bairro, na paragem de autocarro ou na fila do centro de saúde local.

Tentei descobrir uma foto que ilustrasse a tendência para esta semana que começa, uma espécie de boletim meteorológico para o clima instalado na periferia (ou no extremo oposto da galáxia) do charco. E descobri. Encontrei o boneco perfeito para definir a percepção que me deixou a leitura dos blogues seleccionados para o início de mais um ciclo de dias úteis (para quem?).

Senhoras e senhores, a previsão para o estado do tempo, para o ambiente que se fará sentir na blogosfera que acompanho é o seguinte:

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Foto: sharkinho

Publicado por sharkinho às 10:02 AM | Comentários (2)

março 19, 2006

A POSTA PROGENITORA

O brilho nos olhos e o sorriso nos lábios denunciam-lhe a impaciência. Começou a preparar tudo no dia dos namorados, com a dedicação de quem ama e quer provar esse amor a um feliz contemplado. E esse sou eu, o felizardo que lhe lê no entusiasmo e na alegria, na euforia que lhe tira o sono quando prepara a homenagem a uma pessoa importante da sua vida, o quanto represento na sua estrutura emocional.

Nem sempre lhe mereço esse amor, distraído com realidades alternativas que me afastam do seu mundo. E no fundo cada momento de atenção que disperso pelas coisas secundárias, em vez de me concentrar no essencial que sei de antemão não durará para sempre com esta intensidade e emoção, é uma perda irreparável para ela e para mim.
As coisas são mesmo assim.

Outras pessoas, outros alvos do carinho que ela sabe dedicar, assumirão crescente importância ao longo das etapas que irá percorrer no futuro próximo da vida que lhe desejo imensa e feliz. E eu ficarei a saber nessa altura o quanto de precioso desperdicei nas coisas a que me dediquei no tempo que ela teve para me oferecer.
Esse tempo é agora e tem hora marcada para acabar, ou pelo menos para se transformar numa parcela que sobra do dela enquanto o meu se escoa rumo ao dia em que não restará tempo algum.

Hoje o seu dia é todo para mim.
E eu sinto-me o melhor homem do mundo, na minha pele privilegiada de pai.

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Publicado por sharkinho às 12:05 PM | Comentários (8)

O PRIMEIRO DIA

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foto sharkinho


Foi tudo.
Desde a chegada, intempestiva a nossa, por via do entusiasmo na conversa a dois que nos ditou o atraso (e o que queríamos, inicialmente, era chegar antes de toda a gente, para sermos os anfitriões perfeitos...), até ao cheiro a relva cortada de fresco que se espalhou pelos ares logo a seguir ao jantar.
No momento da chegada, os olhos. Todos os pares, sem excepção, a observar espantados os detalhes de cada um. A surpresa em alguns. Noutros, apenas o riso.
Foi perfeito.
A conversa fluiu, como antes já acontecera na caixa de comentários da posta romântica. Foi só uma continuação. Tal como esperávamos.
Houve algum receio claro. De não nos darmos, afinal, assim tão bem, de tempos mortos a falar do frio ou do calor. O receio, naturalmente associado a algo novo. O receio, aliado à grande expectativa. O receio, pelo quanto de responsabilidade implicava ser os organizadores do momento.
Dissipou-se, o receio, tão rápido quanto o jantar decorreu por entre gargalhadas e histórias. Tão depressa quanto os sorrisos se instalaram em todos nós.

Foi um espaço de pura magia, o que criámos ali. Com momentos inesquecíveis. Diferentes, para cada um dos participantes. Registámo-los de forma única e intransmissível. Mas todos os pudémos experimentar.

Foi o primeiro dia.
Que abriu a porta a outros, muitos, cada um com detalhes próprios e irrepetíveis. Bonitos, todos.

Foi há um ano.

Mar

Publicado por sharkinho às 12:01 PM | Comentários (3)

março 18, 2006

A POSTA NA VÉSPERA

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Na véspera?
Bom, na véspera só queria um momento de magia.

E assim aconteceu. Do princípio ao fim.

Publicado por sharkinho às 06:54 PM | Comentários (2)

março 17, 2006

ISTO DE TER UM BLOGUE


dimensão paralela.jpg
aqui


Mesmo depois de mais de dois anos neste meio (ou talvez por isso mesmo), esta coisa de ter um blogue ainda não deixou de me fazer reflectir.
E quanto mais longe me encontro dos tempos da descoberta, em que tudo o que os outros escreviam me parecia absolutamente extraordinário, mais estranheza me causa esta nossa necessidade, quase compulsão até, de aqui desenvolver uma vida paralela.
Não se pense que venho armar-me em socióloga de pacotilha, analisar científicamente o que são e para que servem blogues ou produzir uma dissertação sobre este fenómeno em expansão. Tudo isso já foi feito em encontros sobre blogues, tertúlias sobre blogues, postas sobre blogues. Não tenho qualificações ou sequer pretensões a dizer aqui seja o que fôr com essa classificação.
E estou-me nas tintas para a hipótese de quem tiver a pachorra de ler o que escrevo poder achar irrelevante o tema, precisamente pelo facto de estar mais que batido. A mim continua a intrigar-me esta nossa motivação para aqui chegar e despejar os nossos pensamentos mais íntimos, perante uma plateia de olhos desconhecidos. Uma espécie de monólogo sob o holofote, um gajo a desenvolver um guião, ao longo de meses e anos, uma voz solitária a ecoar sobre o escuro da sala. A sala em suspenso, apenas se percebe um subtil rumor de respirações, algumas vezes quase presas, para não interferir na linha de raciocínio de quem actua.
Depois as palmas. Apenas em alguns casos, aqueles que permitem a interacção e abrem a hipótese de comentar. Nem sempre as palmas, a bem dizer. Mas uma reacção do público, seja ela qual fôr. E novamente o guião.

O que nos leva, pessoas das mais diferentes naturezas e campos profissionais, médicos, juristas, jornalistas, políticos, professores, donas-de-casa, a chegar aqui, depois de mais uma operação cirúrgica, um caso ganho na barra do tribunal, uma reportagem exclusiva, um discurso aclamado, uma aula muito participada pelos alunos ou a louça lavada e camas feitas, a vir aqui despir essas peles para entrar na massa indiferenciada de gente que pinta o seu template das cores que mais gosta, configura títulos e sidebars, escolhe fotografias e imagens a condizer com os textos e planta palavras como quem o faz com uma árvore que quer ver crescer?
Que mecanismos mentais estão por detrás desta existência que aqui levamos, dissociada das vidas que temos lá fora? Tantas vezes completamente antagónica. E doutras quase como que um espelho de quem somos na verdade.

Transpomos a porta que se abre para outra dimensão e passamos a tratar por tu o médico que escreveu sobre o novo PR, a doméstica que produziu um texto sobre a fome no mundo, o professor universitário que esgalhou um poema sobre qualquer coisa, desatamos a criar laços (imaginários, quantas vezes) com pessoas que estão na outra ponta do país ou do mundo e que nunca vimos e difícilmente chegaremos a ver, na generalidade dos casos.
E assim substituimos as antigas idas domingueiras à praça, as conversas de fim de dia no largo, as ansiosas correrias para ver os tecidos que nos traziam outras gentes, de outras paragens. E assim começamos a substituir idas ao cinema e ao teatro, conversas de café, encontros com amigos e conhecidos de conhecidos e amigos. Há dias (mais ou menos, muitos ou poucos, conforme os casos) em que fugimos de tudo isso para construir tudo isso de novo, por aqui, do lado de cá de um monitor.
Ouvi, numa conferência, alguém credenciado afirmar que, ter um blogue ou ser frequentador da internet em geral, é uma estranha tentativa de evitar a solidão, feita por pessoas que querem evitar a intimidade. Um contrasenso, afinal.
Ou então é apenas, de acordo com Sherry Turkle, a forma que encontramos de poder aqui "brincar" aos heróis imaginários, em que somos nós o que carrega a capa nas costas...Uns criam aqui as máscaras do personagem que gostariam de ser aos olhos dos outros e, sobretudo, aos seus próprios. (tão convincentes se tornam que, às vezes, até eles próprios passam a acreditar nessa identidade e a esquecer quem na verdade são). Outros aproveitam para chegar aqui ao fim do dia e deixar cair as que usam lá fora. Raros, são aqueles em que o personagem é um decalque da pessoa de carne e osso que o compõe.

Dois anos neste processo leva a alguma evolução na forma como se vê este mundo.
Antes, entretinha-me a imaginar que tipo de pessoa estaria por detrás de textos muito bem escritos. Agora, dou por mim a olhar para as pessoas reais e a imaginar que nick esconderão por detrás das aparências normais com que se cruzam comigo na rua.

Mar

Publicado por sharkinho às 02:31 PM | Comentários (8)

A POSTA NO NARCISO

Mesmo os(as) blogueiros(as) que renegam a importância das estatísticas acabam por referir (como quem não quer a coisa) os números que os envaidecem na performance dos seus blogues. E parece-me natural que assim seja, pois quem trabalha de borla para uma audiência exigente e sem meias-tintas nas suas críticas tem que buscar alguma forma de compensação.

Eu nunca rejeitei a análise dos indicadores da receptividade do Charquinho junto de quem o visita e o lê. Dei conta do comentário dez mil (assinado pela "manteira" Vague) e teria dado conta da visita 200.000 se pudesse confiar no contador que a apontou duas semanas atrás.
E hoje refiro com natural satisfação o primeiro dia (ontem) em que o contador do Weblog.pt registou um simpático número com quatro dígitos. Mais de mil visitas registadas num só dia constitui um marco "histórico" para um blogue da treta feito por um gajo que ninguém conhece de lado algum e por uma gaja tão anónima como o parceiro. E quem disser o contrário é porque tem inveja, que um gajo investe tempo e energia nesta cena e ninguém gosta de trabalhar de borla e pró boneco...

Daí, partilho convosco esta pequena satisfação e, porque esta é uma posta "da casa", aproveito o ensejo para vos recordar que a Casa de Alterne serve agora de "fotoblogue" e de referenciador dos linques para os espaços que visito com maior regularidade ou que me merecem particular consideração por serem muito bons na minha perspectiva ou por serem concebidos por pessoas que estimo.

Mesmo aos incautos que cá vêm parar via Google de todos os continentes do planeta não posso deixar de agradecer o obséquio de uma visita, pois no mínimo entretêm-se com os "bonecos" que, de resto, são em mais de 90% deste blogue fotos da minha autoria. Mas a toda a gente que investe parte do seu tempo a apreciar este resultado do nosso esforço é devida uma palavra de agradecimento.

Damos duas: MUITO OBRIGADO!

Publicado por sharkinho às 09:34 AM | Comentários (10)

março 16, 2006

A POSTA MALUQUINHA

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Foto: sharkinho

uma estranha forma de tristeza que se apodera aos poucos do quotidiano das pessoas como nós. Na maioria dos casos, embora não diagnosticada, essa tristeza traduz uma depressão clínica induzida pelas agressões sistemáticas de uma forma de vida essencialmente hostil. E manifesta-se de muitas formas, com especial incidência no individualismo exacerbado, na fuga aos “outros” que acaba por ser uma fuga de nós próprios, o caminho mais curto para a inevitável solidão.

O mundo que vivemos, repleto de maravilhas e de doces tentações, aprisiona a nossa consciência numa jaula infestada de papões. Como animais feridos, reagimos com medo, com agressividade ou com resignação a essa sensação incómoda de não darmos valor ao que interessa na vida, em qualquer vida, e de nos mergulharmos num tormento bizarro, num torpor que nos afasta de tudo quanto não seja simples e superficial. A apatia que nos converte em criaturas eternamente insatisfeitas com tudo o que nos é oferecido de bandeja e a maioria só pode sonhar.

Um contra senso, afinal, que se reflecte nesta realidade virtual onde cada um lida como pode com os seus fantasmas e com as consequências da exposição pública dos seus anseios e das suas limitações. Comunicamos a nossa perturbação sob as mais variadas capas, protectoras de uma fragilidade que quantas vezes pintamos com tons de arrogância e de uma superioridade moral que não acreditamos por não a sentir.
Denunciamos nas entrelinhas a dor que nos provoca a desadaptação ao ritmo alucinado que esta sociedade de merda nos impõe, nos intervalos da correria atrás das cenouras imaginárias que nos impingem como objectivo e que não passam de lenitivos materiais que não nos compensam do desgaste sofrido a porfiar pelo enriquecimento de alguém. Do nosso também, essa miragem da “vida melhor” que nos empurra em diante para o precipício da instabilidade emocional, da frustração de abdicar da felicidade genuína em prol de uma sucessão de dias iguais. Até a velhice chegar e com ela se constatar, em boa parte dos desfechos, que não valeu a pena.

A amizade pura e desinteressada, altruísta, não passa de uma ilusão na esmagadora maioria das relações. O sexo reduz-se ao essencial, converte-se aos poucos numa obrigação e existem os que o procuram com afinco como única alternativa para receber o carinho que nos falta como existem os que dele abdicam por falta de estímulo ou pela realidade crua da disfunção sexual. Outro preço a pagar pela trampa que nos enfiam pelo canal da sopa com uma alimentação envenenada e pela mona com um massacre de mensagens subliminares que nos obriga a sermos modelos fotográficos, ícones de perfeição, em detrimento dos cidadãos normais e sem merdas que nos ambicionamos mas os tais “outros” não estão preparados para tolerar.
E o amor também definha nesta enxurrada de distracções e de equívocos que nos afasta do essencial.

Fachada e nada mais. Casas luxuosas e carros a condizer, custeadas pela penosa constatação de não vermos os filhos a crescer. Ligações frágeis que se desfazem ao primeiro abanão. E depois a depressão, a falta de tesão, enfrentada a comprimidos mais ou menos azuis. Ou ignorada, pontapé prá frente e fé em deus, até à completa descaracterização dos valores e das fés que nos constituem de raiz. Até à amargura crónica que nos abraça num conflito interior que extravasa as fronteiras quando os “outros” se convertem em ameaças potenciais que urge combater, na nossa mente em guerra com um inimigo invisível que parece capaz de vencer todas as batalhas, o responsável anónimo pela nossa condição destabilizada e infeliz.

Isto não passa de uma generalização e não somos todos iguais na percepção do que nos rodeia, tal como são escassos os que se conseguem entender a si mesmos no meio da balbúrdia desta forma de vida estapafúrdia que nos desorienta as emoções.
O desequilíbrio é notório e faz-se sentir nas ruas como no interior de cada casa, de cada uma das carolas que se contabilizam em qualquer multidão.
Na minha, assumo-o sem receio de me expor ao escárnio dos que se acreditam diferentes para melhor ou têm a sorte de o poderem comprovar.

Vivemos endividados pelas prestações suaves das nossas opções condicionadas.
Pagamos com lágrimas por verter as consequências nefastas que nos fazem enlouquecer em existências madrastas. Palmadinhas nas costas, sucedâneos de amizade, de felicidade e de amor como compensação. Ou apenas as suas representações fugazes em momentos de euforia que se extinguem como fósforos à mercê do vendaval de agressões reais e imaginadas.

Perdemos a razão. E enquanto não o admitirmos será impossível recuperá-la.


Publicado por sharkinho às 11:15 AM | Comentários (13)

março 15, 2006

A POSTA NO MERCHANDISING

Não há melhor do que uma boa ferramenta de marketing para ultrapassar qualquer crise...

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Publicado por sharkinho às 11:57 AM | Comentários (16)

março 14, 2006

A POSTA PRIMAVERIL

qualquer coisa de novo no ar...

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Será a Primavera a chegar?

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Fotos: sharkinho

Publicado por sharkinho às 09:10 AM | Comentários (20)

março 13, 2006

SEM TÍTULO

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Foto: sharkinho

Publicado por sharkinho às 05:53 PM

março 12, 2006

A POSTA NO ANIMAL POLÍTICO

O cérebro masculino é um poderoso processador de informação. Abrangente, no raciocínio permanente acerca de uma variedade incomensurável de temas. Nunca pára de trabalhar, a massa cinzenta de um macho dessa espécie vertical no andamento e horizontal no pensamento que se distingue pela capacidade de concentração numa diversidade de preocupações.

Homem que é homem pensa a toda a hora nos assuntos verdadeiramente essenciais para o bom funcionamento da nação. A melhor estratégia política para sustentar uma boa governação, a gestão dos recursos naturais (Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional) e humanos (Trabalho), a dinamização do tecido empresarial com investimentos em novas tecnologias, nomeadamente na indústria hoteleira (Economia e Inovação).
Mais a constante preocupação com a actividade física (Saúde), de forma segura (Administração Interna), desburocratizada e gerida em função da disponibilidade de cada um (Finanças e Administração Pública).

Mas o homem que é homem também se preocupa com as relações entre os povos (Negócios Estrangeiros) e isso é particularmente notado no extremo sul do país durante a época estival. O que não invalida um enfoque nas áreas mais sensíveis (Solidariedade Social), objecto de estudos exaustivos e empenhados (Educação) destinados a fomentar a abertura de novas vias de comunicação (Obras Públicas, Transportes e Comunicações).

O amor à Pátria, presente em qualquer homem que é homem, faz-se notar na forma aguerrida como protege a integridade territorial (Defesa Nacional), no que para alguns assume foros de verdadeira obsessão.
Para o cérebro masculino, o estatuto do bovino é uma prioridade constante que associa de modo invariável ao esgotamento dos recursos piscícolas (Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas).

A perspectiva global, que no homem que é homem assenta na visão periférica dos seus alvos de cogitação, alarga os horizontes deste portento nascido para o culto do belo e do profundo. Observamos, ponderamos e depois tomamos as medidas adequadas, com todo o rigor científico (Ciência, Tecnologia e Ensino Superior), no sentido de tornar exequíveis as melhores práticas governativas.

A transparência preside a todos os estímulos e decisões, pois nenhum homem que é homem consegue esconder o seu entusiasmo perante os grandes desafios à sua capacidade e desempenho.
A constante busca da excelência nos aspectos fulcrais do quotidiano da população, mormente na transmissão do conhecimento em matéria da arte e de outras formas de expressão do seu sentir (Cultura), é o argumento decisivo para justificar a supremacia intelectual destes colossos viris cujo sucesso nas suas demandas é, de forma inequívoca, uma questão elementar de (Justiça).

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Cérebro masculino em plena acção governativa (perspectiva cavaleira)

Publicado por sharkinho às 01:30 PM | Comentários (12)

março 11, 2006

ACORDES DE LUZ

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aqui

Rolam acordes por entre raios de luz. Fecho os olhos e banho-me de sons suaves como se fossem a memória de ti.
Notas soltas tacteantes dos sentidos. Entardecer de mil caravelas com enfunadas velas. Rumo ao porto.

Mar

Publicado por sharkinho às 03:14 PM | Comentários (6)

março 10, 2006

FILTROS DA RAZÃO

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Foto: sharkinho

Quem não sabe limita-se a especular.

Publicado por sharkinho às 04:22 PM

VIRO O DISCO...

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Foto: sharkinho

E (não) toca a mesma...

Publicado por sharkinho às 03:57 PM

A POSTA NA FOTOGRAFIA

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Foto: sharkinho

Vejo-te colada a mim, miragem, no oásis que formamos juntos, no deserto que irrigamos com o suor dos nossos corpos e a humidade do nosso amor. E depois brota uma flor.

Que te ofereço agora, saudade nas pétalas e desejo na raiz que a bebeu.

Publicado por sharkinho às 12:58 PM | Comentários (18)

março 09, 2006

NO CESTO DA GÁVEA

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O vigia quase adormecia na noite de lua cheia em que o mar se fez espelho e reflectiu as estrelas na calma da sua maré.
Sozinho no alto, sonhava voar como as gaivotas que lhe faziam companhia nas horas de vigília e nos sonhos interrompidos em sobressaltos sem justificação. Falsos alarmes que lhe interrompiam o doce ressonar primaveril.
Depois embarcava outra vez no mundo das fantasias e das ilusões.

Nessa noite de sentinela o vigia não dormiu. Ou era essa a sua impressão, quando no meio do oceano vislumbrou o que lhe parecia um manto de sereias no ouro das areias de uma ilha que o mapa não referiu.
Uma surpresa que o emudecia, incapaz de gritar a terra à vista no olhar que o traiu.
Deixou avançar a embarcação, encantado, ébrio pela beleza que o grupo de sereias lhe cantou.

Descurou a vigilância e o destino não perdoou. Na popa desguarnecida do barco desgovernado o perigo espreitava e o homem de guarda não alertou a tripulação.
Sem um tiro de canhão, o galeão dos piratas deu início à abordagem e o final da viagem depressa se adivinhou.

Só então o vigia acordou.
No topo do mastro as lágrimas escorriam pelo rosto abaixo no homem que a noite embalara num sono letal.
Em desespero lançou-se ao vazio num mergulho temerário e aterrou no corsário que comandava o galeão.

Reza a lenda que os piratas desertaram e no seu barco zarparam para longe dali.
E ao vigia, que entretanto desapareceu borda fora no meio da confusão, honraram a memória com uma estranha canção.
Falava de uma ilha perdida que alguém sugeriu na versão inventada do herói que sumiu.

E na ilha deserta que ninguém mais veria, sereias mimavam por turnos o vigia que ali abancou.

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Publicado por sharkinho às 09:57 PM | Comentários (2)

O CONTADOR DE HISTÓRIAS

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O velho TOM, um marujo britânico reformado, era o maior cromo da Costa da Caparica. Completamente senil, inventava histórias nas quais acreditava após dezenas de repetições.
A malta não o levava a mal, achava-lhe piada. Mesmo sabendo que as suas aventuras de embarcadiço, contadas com entusiasmo nas esplanadas junto à praia, não passavam de um embuste. Era sabido que, apesar de ter sido um membro orgulhoso da Royal Navy (facto de que muito de gabava), nunca tinha saído da doca seca apesar das fantasias marítimas que acalentara anos a fio.

Sempre com um gorro nojento na cabeça, para lhe poupar a copa desfolhada aos rigores do frio, o velho TOM deambulava pela avenida principal enquanto falava com os seus botões. Parecia que treinava as histórias para contar depois.
Era um homem cheio de imaginação. Nas suas palavras um verdadeiro machão. E culto, imenso, sempre artilhado com citações para impressionar os papalvos que lhe desconheciam o percurso de zé-ninguém.

E tudo corria bem ao ancião, até ao dia em que decidira embirrar com outro lobo-do-mar sem pachorra para a sua arrogância. Foi longe demais e o outro, bem informado, descobriu-lhe a careca perante uma plateia atenta às revelações coscuvilheiras.
Atrevido, o velho TOM expôs-se desnecessariamente a um vexame.
Nem as amigas do peito que o tentavam promover em vão, mesmo sem nada por onde pegar, conseguiram evitar o escândalo e as respectivas repercussões (ocorridas na sequência de um excesso do velhote que dera azo a um falatório que depressa chegou a ouvidos que ele preferiria evitar).

Arrependeu-se tarde demais por ter insistido na brincadeira. Exagerou. Ninguém o incomodara até ao dia em que apontara o dedo descarado a outra pessoa, em vez de manter uma prudente reserva quanto à identidade dos alvos da sua paródia infantil.
Estalou o verniz. E o seu enorme nariz, orgulhoso, passou a dar menos à costa.
Durante anos, o velho TOM desapareceu da circulação. Envergonhado pela revelação das mazelas que sempre existem na vida de qualquer pessoa, provocada apenas pela sua falta de sensatez.

O lamentável episódio acabaria por ser esquecido, mas nunca mais a credibilidade do marujo (que se pintava como personagem de um livro) voltaria ao normal. Ficou agarrado à imagem de velho maluco, fanfarrão e caduco. Hipotecou o respeito que não soubera acarinhar.

Vagueava junto ao mar onde nunca mergulhara, quando uma apoplexia o estendeu ao comprido no areal e o enfiaram num asilo onde acabaria os dias a debitar para si próprio um rosário de queixumes. Incontinente palrador, era o pesadelo da instituição.
Perdera a razão e ninguém o levava a sério.

Ainda hoje se ouvem do lado de fora do muro do jardim as suas lamentações berradas e as ameaças veladas de uma vingança que nunca poderá concretizar.

Tão distante do oceano como da lua, o velho insano já nem sai à rua. Atrofia aos poucos no isolamento, remetido ao esquecimento por quem, afinal, nunca dele se lembrou.

Publicado por sharkinho às 10:22 AM | Comentários (6)

março 08, 2006

A POSTA NA PARÓDIA VIRTUAL

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Uma das estratégias mais comuns na blogosfera é o recurso ao escárnio encapotado. Num texto dissimulado com uma estória banal, o blogueiro encaixa as suas atoardas por forma a ninguém poder acusá-lo de se dirigir a esta ou àquele alvo preferencial.
Regra geral, só os destinatários e meia dúzia de confidentes entendem o recado nas entrelinhas. É um bocado maçador, convenhamos, para quem está fora do “conflito” que se trava desta forma palerma.

Todavia, faz parte desta cena e um gajo tem que dominar as técnicas para poder vestir a pele de “profissional” e dar um ar espertalhão. Aprende-se depressa, esta arte da maledicência camuflada. Basta descobrirmo-nos visados numa posta menos conseguida por parte de um burgesso qualquer, um asno incapaz de fazer as coisas com elegância, cérebro betonado pelos desequilíbrios de uma vida sem sabor.
Quando os nabos dão nas vistas, demasiado insistentes nas referências que identificam os seus ódios de estimação, é porque o corpo lhes está a pedir chuva. É quase um requerimento para uma guerra comprada, uma paródia disputada com palavras que é divertida quando nos degladiamos com os melhores.

Mas são raros, esses mestres a sério do pontapé na boca virtual. Antes proliferam os patos-bravos, os chicos-espertos que se escangalham a rir com as suas invectivas sem eira nem beira, lançadas ao éter como fagulhas em seara de Verão.
A melhor opção é ignorá-los. Mas é de todo conveniente que alinhemos na brincadeira de quando em vez. Para arreganhar a dentuça e exercitar a musculatura cerebral.
Para não deixarmos a malta a brincar a sós e para fazermos ouvir a nossa voz no outro lado da linha, na outra margem do nosso monitor.

A minha próxima posta constitui um desses exercícios mentais. Inócua, sem nexo, construída com o único propósito de alinhar na brincadeira de um colega qualquer. E esta será apenas a versão softcore, pois é sabido que estas disputas juvenis assumem um crescendo que justifica o poupar de munições verbais para retorquir a algum excesso de linguagem. Que quase aconteceu, por via da falta de cuidado (respeito?) do atrevido em questão.
Nada que vos interesse ler, a posta que se segue, pois foi escrita com todo o carinho para os olhos de determinada pessoa.

Fica o aviso, apenas para vos poupar a uma estucha.
É que sai baratucha uma carta enviada por este meio.

E é mais rápida do que o correio azul.

Publicado por sharkinho às 06:31 PM | Comentários (2)

ELAS CARREGAM FILHOS E SONHOS

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gravura de Álvaro Cunhal in Desenhos da Prisão

Escrevi o meu primeiro texto sobre as questões da igualdade de género quando não passava de uma miúda. Teria uns 16 anos e, por altura de um outro 8 de Março, produzi uma prosa inflamada sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez e a discriminação da Mulher, para um jornaleco da Associação de Estudantes, que se chamava, muito criativamente, "Pedra no Charco"... Ainda hoje guardo, algures, um exemplar amarelecido por entre os objectos que conservo como recordações de infância.
E ainda hoje, vinte e muitos anos depois, aqui continuamos, a escrever artigos de opinião sobre questões que deveriam ser, simplesmente, letra de lei. Que até o são, em termos constitucionais e de direitos humanos, embora o desminta a dura realidade quotidiana de muitas e muitas mulheres. Por aqui continuaremos. Enquanto a desigualdade for a lei que se pratica.
Não se trata apenas de, em Portugal, elas constituírem a maioria dos diplomados do ensino superior. Ou tão pouco, de apresentarem uma das mais elevadas taxas de actividade a tempo inteiro, da União Europeia. Nem sequer de estarem, até, fortemente representadas na administração pública.
Em matéria de tomada de decisões e de ocupação dos cargos mais elevados da hierarquia política continuam, de facto, minoritárias. A maior qualificação escolar e a forte presença das mulheres na população activa não tem como decorrência directa a igualdade de oportunidades entre os dois sexos.
Mas não se trata, aqui, de recordar que, de todos os pobres do mundo inteiro, 70% são mulheres, e que, dos analfabetos e desempregados, dois terços ainda são mulheres ou ainda que, hoje, no século XXI, quando o avanço da ciência e da tecnologia nos permitem equacionar a hipótese de viver em Marte, morrem por dia milhares de mulheres, por deficientes condições de assistência sexual e reprodutiva.
Não, não é apenas isto que está em causa. É o facto de elas terem, efectivamente, as mesmas capacidades que eles. E aí estão, nos dias de hoje, mulheres em todos os ramos de actividade profissional, até mesmo aqueles outrora "interditos" ao sexo "frágil", a prová-lo.
São estas mulheres-exemplo que demonstram a ausência de razões para a discriminação, a falta de oportunidades, o tratamento diferenciado, a condescendência, com que ainda se encara a participação da mulher na vida política, social e profissional da generalidade dos países. Mesmo os ditos desenvolvidos.
Do que se trata, aqui, é de reclamar justiça. (...)

(...)Até lá, continuaremos por aqui.
A escrever crónicas e entoar cânticos, a empunhar bandeiras e a gritar denúncias, a provar verdades, à espera do dia em que mulheres e homens, ombro a ombro, construam em conjunto a sociedade em que nós, as mulheres de hoje, já gostaríamos de viver.

publicado originalmente no Diário do Alentejo - rubrica "em foco", em 3/3/2006

Mar



Dos tempos da II Mundial para cá, a evolução foi, sem dúvida, notória, mas mantém-se a divisão tradicional de papéis entre homens e mulheres, no seio da família, a qual é transposta para o resto.
Na esmagadora maioria dos casos é, ainda, sobre a mulher que continua a recair a responsabilidade de cuidar dos filhos e da família. Deste modo, o papel que é uma benção, o da maternidade, cedo se transforma numa condicionante do acesso ao emprego ou a uma carreira, já que uma mulher em idade reprodutiva é facilmente preterida a favor de um homem com idênticas qualificações.
Uma verdadeira política social de promoção da igualdade, deveria, assim, contemplar a criação de equipamentos de apoio à infância e à terceira idade, para uma fácil conciliação de uma vida profissional com a familiar. Enquanto não se produzir a mudança, fará sentido que prossiga a luta das mulheres - e dos homens, seus companheiros - pela igualdade efectiva.
A triste realidade é que, a nível mundial e em termos globais (ainda que com algumas excepções) os valores predominantes ainda colocam as mulheres num estatuto de subordinação. E isto acontece, genericamente, porque as diferenças biológicas, são transformadas em desigualdades sociais. Erradamente. Pelo facto de estarem associadas à mulher características físicas e psíquicas como a meiguice, a fragilidade, sensibilidade, passividade e intuição e ao homem a coragem, a racionalidade, força ou competitividade, ainda hoje, qualquer demonstração de maior assertividade por parte de uma delas no exercício das suas funções profissionais, é associada a histerismo pré-menstrual, ao passo que, quando se verifica num homem, é sinónimo de competência.
São representações sociais machistas e sexistas que assim o determinam. Pois se não o fossem, machistas, associariam a meiguice e a sensibilidade a uma capacidade acrescida para gerir recursos humanos em situações de conflito ou a intuição à efectiva percepção dos problemas quase sempre antes que os homens os vislumbrem, sequer, no horizonte.
Quanto à fragilidade, é quase sempre aparente. Os seus corpos carregam filhos e sonhos, elas baixam febres e amparam quedas, dão pareceres, produzem relatórios, limpam narizes e corrigem trabalhos de casa, desenham edifícios, projectam pontes, fazem contas e compras e escutam confissões, elas analisam amostras em laboratórios e curam doentes, aninham os lutos delas e dos outros, batem recordes, educam, lavam pratos e almas e passam e cozinham e acarinham ao fim do dia. Elas descobrem forças onde insistem em apontar-lhes fraquezas.
As identidades e papéis masculino e feminino não são um facto biológico, decorrente da natureza, mas sim algo que foi construído histórica e sociologicamente. E assim, isso significa que podem ser modificados.
Existem tribos em África que reconhecem à mulher, o papel preponderante na hierarquia social dessa comunidade. São elas que asseguram as decisões e a subsistência do grupo, enquanto a eles, por exemplo, cabe tomar conta dos filhos, até ao primeiro ano de vida destes.
Trata-se, então, de uma questão predominantemente cultural, a que perpetua as diferenças de género, nas sociedades modernas.
O que nos leva a concluir que, a educação terá um papel fundamental na transformação de mentalidades e de práticas e na construção de uma sociedade futura mais justa e igualitária. Promover uma prática educativa não discriminatória desde a primeira infância, com incidência no desempenho de papéis idênticos por parte das crianças de ambos os sexos, contribuirá, decerto, para uma sociedade do futuro em que a efectiva igualdade de oportunidades seja uma realidade inquestionável e que as situações de discriminação e violência sobre as mulheres sejam apenas um facto histórico passado. Assim haja vontade política e medidas reais de suporte.
Até lá, continuaremos por aqui.
A escrever crónicas e entoar cânticos, a empunhar bandeiras e a gritar denúncias, a provar verdades, à espera do dia em que mulheres e homens, ombro a ombro, construam em conjunto a sociedade em que nós, as mulheres de hoje, já gostaríamos de viver.

Publicado por sharkinho às 11:35 AM | Comentários (10)

A POSTA FEMININA

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Foto: sharkinho


Toda a minha existência foi marcada pela presença do feminino no topo das prioridades que, instintivamente, defini. As mulheres, criaturas que personificam o melhor (e o pior) que a vida me ofereceu, constituem a condição obrigatória no conjunto de elementos que compõem a felicidade tal como a concebo.
São o meu tema preferido dentro de todos os temas que me fascinam e, admito, sempre condicionaram a minha forma de ser e de estar. Parte importante do que sou é fruto da minha vontade de corresponder às expectativas criadas pelas mulheres que o (feliz) acaso atravessou no meu caminho para me permitir experimentar as delícias da amizade e, acima de tudo, do amor.
É aquilo que sou e não me envergonho desta dependência assumida, a única que me permiti ao longo de quatro décadas de vida.

Sonho um mundo no qual as mulheres disputem as batalhas da vida em absoluta igualdade de circunstâncias connosco, os machos de uma espécie mal educada em matéria de equilíbrio entre géneros. É um facto inegável e reflecte-se com maior preponderância nos meios onde a inteligência não impera ou onde a decência não corresponde à minha perspectiva.
Mas sente-se em todo o mundo, em qualquer dimensão da sociedade, essa diferença que se sobrepõe a todas as diferenças que nos distinguem. Existe um défice de igualdade que o texto acima denuncia e que por isso me abstenho de enumerar nesta circunstância.

Assim, opto por aproveitar o ensejo para render homenagem, para prestar vassalagem a esse grupo heterogéneo que me estimula e que representa o centro do mundo como o sinto. Um mundo que desejo mudar para melhor integrar essa falange de ganhadoras que as regras absurdas e mesquinhas limitam na progressão.
O mundo melhor para a minha filha, a razão bastante para me empenhar nessa alteração necessária que está a acontecer mas precisa de ser acelerada.

A bem do futuro que anseio, marcado pela transição para a efectiva partilha dos direitos como dos deveres. Sem distinção dos cromossomas, tão patética como a baseada no tom da pele de uma pessoa ou em qualquer outra característica que não sirva para hierarquizar por inerência, para subalternizar com displicência, sem olhar ao mérito ou à capacidade de cada um(a).

Um futuro a meias. Com tudo o que isso implica.

Publicado por sharkinho às 11:27 AM | Comentários (7)

março 07, 2006

A NICE PIECE OF HASSE

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Foto: sharkinho

O gajo bloga há mais tempo do que eu e se calhar até já tínhamos partilhado alguma caixa de comentários algures. Como já partilhámos uma cama e outros recursos ao nosso alcance para desbundarmos as delícias da boémia ao longo de um percurso académico que primou pelo andamento rasgativo.
Nessa altura formávamos os vértices de um triângulo amoroso (sim, existem momentos na amizade entre homens que assumem contornos de um verdadeiro amor) que também incluía outra surpresa que encontrei neste mundo dos blogues. José de Ícaro, a nossa identidade literária, (re)produziu em palavras uma parte da loucura e da inspiração que de nós se apoderava quando atacávamos a noite como um trio de predadores do prazer.

Como ele me referiu ontem, num jantar que nos reuniu, apanhámos correntes distintas do grande rio da vida e os nossos caminhos afastaram-se durante anos em que, admito, senti e muito a falta daqueles dois pedaços de mim, daqueles dois homens extraordinários e absolutamente singulares que amei como é possível amar dois gajos sem assumir uma reprimida costela gay.

Comecei o dia exactamente como muitos dos que nasceram após grandes noitadas de farra com ele, a chamar pelo gregório como um adolescente. Fiquei em casa, naturalmente, a ressacar os excessos que sempre pautaram a minha relação com este Paixão intenso que reconheço intacto nas características que o tornaram numa referência minha em matéria de amizade sem travões.

Esta posta é como um guronsan que me trata dos sintomas deixados pela bebedeira e pela moca de amizade que ontem apanhei com um fulano chamado Paulo Hasse Paixão. O nosso outro irmão, incansável perseguidor de utopias, não esteve presente com o seu corpo flagelado pela vida sem fronteiras e com a sua mente alucinada pela busca de um nirvana feito de luz e de amor. Esteve connosco na partilha de memórias onde a sua presença é incontornável.

A ambos dedico estas palavras que reconhecem o seu papel determinante numa das fases mais intensas da minha existência, onde a liberdade e a irreverência imperaram a par com o desejo permanente de uma proximidade que ontem senti outra vez.

Preciso de vocês. E agora que tive a oportunidade de o constatar na presença física isolada de cada um percebi a falta que me fazem e o quanto me trazem de bom.

Tenho saudades de nós.

Publicado por sharkinho às 02:31 PM | Comentários (12)

março 06, 2006

A POSTA NA VIDA EM FLOR

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Foto (excerto): Pedro Saraiva

A sombra na calçada é a de uma flor obstinada, oportunista, no único espaço que a urbe lhe consentiu.
As pétalas orgulhosas são as exibições vaidosas, coloridas, da supremacia da vida sobre a lápide de betão que a oprimiu.

Publicado por sharkinho às 11:18 AM | Comentários (13)

UMA EXCELENTE SEMANA

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Foto: sharkinho

Dias assim, azuis e luminosos, só podem ser dias bons. Eu sei, é segunda-feira...
Mas essa carga não pode ofuscar-nos para um facto indesmentível:

Tá um dia bonito comó!


Publicado por sharkinho às 09:03 AM | Comentários (12)

março 05, 2006

A POSTA QUE FIZESTE MAL

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Perdi o meu telemóvel. Foi a primeira vez que tal me aconteceu. E pensei, passarinho, que se alguém o encontrasse aguardaria que o proprietário tentasse ligar para combinar a devolução do equipamento. Contudo, nem dez minutos após o desaparecimento do meu Nokia da bolsa de cinto que o deixou escapar por um erro de concepção (uma ranhura absurda, maior do que o telefone), já o(a) feliz contemplado(a) havia retirado o cartão para proceder à apropriação do achado que roubado não foi.

Lá se foi a agenda (que não conservo em lado algum), lá se foram mensagens que guardava há meses por as entender especiais, lá se foi o meu principal instrumento de contacto com o exterior. Não porque perdi a merda de um telemóvel usado e cheio de macacoas, mas porque quem o encontrou preferiu a baixeza de carácter à opção melhor.
Não há limites para a degradação que a ganância provoca nas pessoas mal formadas, de mau fundo, inferiores.
Cegam a quaisquer valores que não os de um extracto de conta, de um registo de propriedade ou de uma caderneta predial. Ou a merda de um telemóvel perdido por alguém, uma fortuna…

Nem me tenho por moralista e a minha vida desregrada fala por mim nesse particular. No entanto, não consigo pactuar com as manifestações mesquinhas da mediocridade global. Parece que é normal agir de forma errada, ignorar os escassos princípios que nos distinguem dos restantes animais, os tais que condenamos à extinção por se colocarem no caminho da economia mundial.

Confesso que não considero normal, nem correcto, exercer a vingança. Porém, abdiquei há muito da perfeição como objectivo. E sei que na vizinhança ninguém possui um telemóvel com as marcas do meu, que já enviei contra uma parede num acesso de fúria.
Essas cicatrizes particulares, e ficarei atento a todos os equipamentos similares, acabarão por denunciar quem se apropriou de algo que não é seu.

Podem ter como certo que no dia a seguir, essa vergonha com duas pernas já se arrependeu.

Publicado por sharkinho às 05:29 PM | Comentários (18)

março 04, 2006

A POSTA BOVINA

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Anos atrás tentei impedir um amigo de cometer aquilo que entendia, na altura, como uma asneira. Meti o bedelho onde não era chamado, admito, mas estava em causa uma opção sua que me parecia poder lesá-lo no futuro. E insisti na minha opinião, fiz pressão para que não trocasse uma situação clara e com sólidas hipóteses de readaptação por uma incógnita.
O instinto dizia-me que o rapaz ia dar um tiro no pé, caso optasse pela alternativa que, de resto, já dera provas de não ser boa rês.

O futuro, quando menos o esperava, deu-me razão.

Publicado por sharkinho às 10:59 PM | Comentários (4)

março 03, 2006

NÃO

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aqui

sei como, consigo tocar o intangível.
Ou talvez eu é que o seja. Como aqueles fantasmas que não sabem que o são.
Arrepio caminho, por entre os que parecem existir, no meio do ruído das conversas banais e ocupo o meu lugar.
Mas é o que não se vê que me interessa.
Registo fotogramas mentais dessa espécie de luz difusa que os envolve. Rosada aqui, negra mais ali, baça acolá.

Em todos os casos, a ausência do resplendor que só a verdade confere.


Mar

Publicado por sharkinho às 07:34 PM | Comentários (4)

A POSTA NO TACHO

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Tenho um jeito especial para atrair a hostilidade das outras pessoas. Ou para as afastar de mim.
Não haverá uma forma de ganhar a vida a fazer isto?

Publicado por sharkinho às 07:07 PM

A POSTA NO CORNO MANSO

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Foto: sharkinho

Dizia-me aqui há dias um ancião meu cliente que, ao contrário do que consta – as velhas histórias do baton no colarinho, do chupão no pescoço ou do arranhão nas costas -, as mulheres adúlteras são ainda mais bandeirosas do que os homens quando se prestam a uma facadinha.
Conseguiu prender a minha atenção, pois sou um ávido consumidor das experiências alheias (sobretudo as que só a idade consegue proporcionar) e o tema pareceu-me propício a aprender algo de útil numa conversa banal.
E ele lá começou a debitar o rol de indicadores preciosos (alguns dos quais serão tema para postas do charco num futuro próximo) que, no entender daquele veterano, permitem aos mais desatentos a revelação das eventuais traições de que sejam alvo por parte das suas respectivas.

Hoje vou apenas dar-vos a conhecer aquele que o meu cliente considera o mais óbvio sinal de que anda mouro na costa. Então, palavra por palavra, ele colocou-me a coisa nos seguintes termos:

- Olhe, meu amigo, há um que nunca falha. Elas são muito vaidosas dos seus homens e têm sempre uma concorrente a quem querem enxovalhar, todas atraçalhadas aos caramelos. Por isso, quando elas em vez de nos quererem mostrar a meio mundo começam a evitar certos locais que eram poiso habitual do par, pode ter como certo que há gato.

Fiquei intrigado com esta afirmação e perguntei-lhe porque entendia as coisas dessa forma. E ele prosseguiu.

- É fácil, meu amigo. Elas são mais cobardes e traiçoeiras do que nós, não conseguem enfrentar essas vergonhas e não arriscam as coincidências infelizes. Tá a ver, não é? Imagine que foram vistas na companhia de algum marmanjo em certo sítio ou que o marmanjo até mora perto de um ponto habitual qualquer. Tá a ver? Levar os seus gajos para essas paragens? Tá quieto…
E são todas iguais nisso, tirando uma ou outra mais atrevidotas, daquelas que até lhes dá gozo assistirem a um confronto entre dois tipos com quem andam metidas.
Normalmente começam por arrefecer o entusiasmo. Depois, quando percebem que estão a dar nas vistas, fazem uma pirueta e parece que lhes fazemos falta para respirar.
Mas é certinho como o cagar: quando torcem o nariz a locais do costume e arranjam mil e uma desculpas para não estarem juntas connosco nesse local, tenha como certo que à segunda recusa é nessa zona que o gato escondido tem o rabo de fora.
E se lá vão depois de uma nega ou duas, pode ter como garantido que serão elas a determinar o dia e a hora da ida. Nesse caso, é porque sabem que o marmanjo não vai estar por perto e porque andam a fazer a coisa pela surra e só as preocupa que ele saiba do outro. Quer dizer, aí andam a enganar os dois…

Eu tenho-me em conta de desconfiado, paranóico até. Mas nunca pensei que a malta dedicava tanto tempo a estas maluqueiras, ao ponto de tipificarem os comportamentos femininos. Fiquei estarrecido com as certezas do fulano, embora nem me passasse pela cabeça perguntar-lhe se tinha conhecimento de causa para apoiar as suas conclusões determinadas.
É impressionante como a rapaziada, neste país de tourada, olha um par de cornos como a maior das ameaças à sua masculinidade intocável.
Aliás, quando o questionei acerca do peso das hastes na testa, ou seja, o que ele achava desse problema, a sua resposta foi do mais esclarecedor possível.

- Ó meu amigo, eu sou muito homem, mas juro-lhe pelo que tenho de mais sagrado: se me perguntar se eu aceitava a fama de corno manso, digo-lhe já que preferia que dissessem que eu ando a levar no cu!

Publicado por sharkinho às 11:00 AM | Comentários (13)

março 02, 2006

ARRITMIA

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Foto: sharkinho

Galopava esbaforido no interior do estábulo improvisado que lhe sufocava a alma selvagem de puro-sangue. Ninguém conseguia acalmar aquela correria desenfreada, aquela ânsia descontrolada que o movia, pancadas secas de cascos nas paredes que o cercavam e assim marcavam o ritmo da sua vontade de escapar para a liberdade que a planície lhe prometia, lá fora, onde vivia uma parte de si.

O sol forçava a entrada em todas as aberturas, por quão minúsculas, daquele espaço tornado sombrio pela angústia do cativeiro. O sol espicaçava-o e acelerava-lhe a pulsação, roubava-lhe a razão porque o ensandecia com pequenas cócegas de luz. Amostras do céu que o esperava no exterior. E o vento colaborava na agitação, transportava o som da ondulação na costa costeira, perto dali.
Reuniu as forças que lhe restavam. E depois rebentou o portão e saiu.

Parecia que sorria quando se percebeu livre de novo para correr sem destino, para buscar no horizonte um objectivo, um caminho alternativo, a escolha que lhe competia assumir e não delegava. A liberdade que abraçava e os riscos que não temia, sozinho pela pradaria, entregue a si próprio sem freio nem sela. Corria eufórico e respirava alegria em cada inspiração. Transpirava emoção.

Vagueou pela paisagem enquanto durou o êxtase da loucura que dele tomou conta nesses dias da libertação anunciada. A longa cavalgada que o tornava senhor do sentimento, o seu, e o instinto que o guiava pelo caminho como uma fonte de luz que o atraía de forma irresistível para a vertigem do desconhecido. Para uma nova dimensão, justiça feita pela reposição de um estado de alma que quase esquecera confinado numa espécie de prisão voluntária. Precisava de conhecer o mundo sem barreiras, o fundo adormecido da sua natureza libertária que ditava as regras do jogo nessa altura.

Contudo, sabia que não lhe pertencia por inteiro o controlo da situação naquela corrida. O ponto de partida que o reclamava, rédeas imaginárias que o alertavam para o compromisso impossível de desvincular, e o ponto de chegada que lhe rejeitava o excesso de euforia, na distância que aumentava à medida que progredia, desastrado, na aproximação. Um contra senso necessário para lhe domar o imaginário e apelar à razão. Para abrandar a corrida e entender a essência do seu papel na vida que o acaso lhe moldou.

E foi assim que regressou, a trote, ao espaço que o acolhia, no interior de si mesmo, à origem do desassossego, paradoxal, que afinal constituía a única solução ao dispor. O amor que o movia, plural, devidamente enquadrado na lista das prioridades a respeitar e das verdades que não podia desmentir, limitações escusadas pois não seriam limitadas as suas opções, apenas debatidas nas discussões que lhe gritavam vai mas volta.
Puxava uma carroça que albergava o legado fundamental, a eternidade garantida, a felicidade prometida na réplica de si numa cria de alazão. Porque queria.
Postura de garanhão insaciável na aventura que entendera perseguir. Uma forma de agir que o perderia, caso ignorasse o caminho de regresso, inevitável, ao doce remanso que o reclamava na casa sua. O juízo que lhe faltou, oferecido de bandeja por quem não negava o amor nos dois extremos da sua equação.

Sereno, observa agora as estrelas e escuta sem problemas o som distante da rebentação num estábulo com muitas janelas, com paredes transparentes e isento de portão.

Livre dos grilhões que a sua cabeça lhe impunha no cárcere que nunca existiu e apenas o reprimiu de ignorar os condicionalismos naturais às suas paixões destravadas.

Para ser feliz, à solta, pelos espaços sem grades das suas convicções amotinadas.

Publicado por sharkinho às 12:30 PM | Comentários (12)

março 01, 2006

CASA DE ALTERNE PASSOU A ARMAZÉM

Uma vez que a renda tá paga e que o meu antigo sócio já se reformou destas lides, informo-vos que a Casa de Alterne vai reabrir as suas portas na qualidade de espécie de fotoblogue.
Isto acontece porque já estou a ficar com falta de espaço no disco, porque tenho algumas fotos demasiado pesadas para as publicar nesta versão do Weblog (e não tenho pachorra para as "encolher") e porque aquele berço da virtualidade charquinhense é também o meu espaço para os linques da malta que leio. Assim, mato vários coelhos de uma só blogada.

Quando não tiverem mais nada que fazer e quiserem descansar a vista, já têm onde esbanjar mais uns segundos do vosso tempo.
Não quero que vos falte nada...

Publicado por sharkinho às 05:43 PM | Comentários (5)

A POSTA NO ABANDONO

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Foto: sharkinho

É óbvia a propensão dos portugueses para abandonarem os seus animais de estimação à primeira contrariedade. Ou porque vão de férias e não têm a quem deixar o empecilho, ou porque o empecilho cresceu e a criancinha deixou de achar piada à novidade que passou. Ou apenas porque existe uma tradição lusitana de descartar os empecilhos sem problemas de consciência.
Isso verifica-se igualmente com os empecilhos de duas pernas.

Agora que a gripe das aves acaba de produzir a sua primeira vítima de quatro patas no continente europeu, um felino com apetites proibidos, será de prever que outros mamíferos carnívoros (como os cães, claro) comecem a tombar que nem tordos (a comparação faz sentido nesta altura) e que isso constitua um factor adicional de motivação para o abandono da bicharada num ermo qualquer.
Nada melhor para tranquilizar uma consciência do que uma boa justificação.

- Então que é feito do teu Bobby?
- Ó pá, nem me digas nada. Tive que o entregar (notem a ligeireza deste “entregar”) a quem cuidasse dele (a divina providência), por causa da gripe, tás a ver? Um gajo não pode arriscar…
- Deve ter-te custado imenso…
- Custa sempre um bocadinho, por causa dos miúdos e tal, mas a vida é assim. Uma pessoa afeiçoa-se aos bichos, mas isto é como no resto, tem o seu tempo. Ao princípio achávamos piada ao animal, mas aos poucos uma pessoa acaba por se fartar, sabes?
- Como assim?
- Atão, mesmo o amor aos animais de estimação tem um prazo de validade…
- Como os iogurtes?
- Exactamente. São muito apetitosos quando os compramos, mas depois estragam-se, perdem aquele interesse que um gajo desenvolve quando os vê na prateleira. Depois, quando os temos como certos no frigorífico, deixamo-los lá ficar, sem lhes ligarmos pevas, até azedarem. O que é que se pode fazer, a vida é mesmo assim e uma pessoa tem que sentir-se livre de optar e motivada, nestas coisas…
- Pois é…

Depois, têm que andar gajos como este à procura de soluções para evitar o abate sumário que acaba por ser, em face do sofrimento que o abandono implica nos bichos, a opção mais piedosa.
E sorte têm os animais que se vêem apoiados por pessoas assim ou que, como o meu cão, conseguem descobrir quem lhes deite a mão nessas circunstâncias. Muitos são os que suportam sozinhos a desdita e vagueiam pelas ruas à toa, em busca de um milagre que o tempo, na maioria dos casos, acaba por desmentir.

Publicado por sharkinho às 11:07 AM | Comentários (22)