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abril 04, 2006

A POSTA NAS QUOTAS

Exercício 1 - Para além de ser um infeliz, o Sr. Manuel Serrão é um crápula da pior espécie e alguém devia criar uma lei que proibisse aos crápulas de qualquer espécie o articulismo obsceno na imprensa portuguesa. Nem que seja por uma questão de higiene pública.

Exercício 2 - As mulheres não são uma etnia. Por todos os deuses do número, as mulheres não são uma minoria. E todos os homens de sã masculinidade sabem que as mulheres não precisam de ajuda. As mulheres valem-se. As mulheres não carecem de préstimos insuflados e justificações de coxa estatística para seguirem a carreira da política. As mulheres não são maioritárias na política como não são minoritárias nas maternidades. As mulheres têm competências!
condicao feminina.gif
No parlamento do charco é fifty-fifty...


Os dois exercícios acima fazem parte de um conjunto que retirei, com a devida (mas cautelosa) vénia ao meu amigo e colega blogueiro Paulo Hasse Paixão.
Se no primeiro fiquei impressionado pela frontalidade com que o Paulo chama os bois pelos nomes (algo que às vezes uma pessoa reprime a custo), no segundo encontrei uma pista para o debate, que julgo necessário, acerca desta deplorável (por existirem justificações para a mesma) questão das quotas femininas na política.

Apesar das diferenças ideológicas que nos colocam nos antípodas do espectro político-partidário, eu e o Paulo partilhamos o desenquadramento relativamente a muitos dogmas das nossas “correntes”.
Daí, nem sempre alinhamos posições com a versão oficial emanada das cartilhas que nos impingem como baseadas em algo que não os interesses imediatos de quem as congemina.
Nesta questão das quotas hesito. Porque se é verdade (quase) tudo quanto o Paulo afirma quando aplicado aos grandes núcleos urbanos, basta considerarmos o interior e as pequenas localidades para que o filme seja outro, bem diferente. E as leis são para aplicar à totalidade de um país onde grassa um nível heterogéneo de evolução de mentalidades.

Por outro lado, a questão da maternidade não é irrelevante na criação de desequilíbrios na paridade. E isso não se manifesta apenas na política. Qualquer conselho de administração de grandes empresas em Portugal terá uma, talvez duas mulheres na sua composição. Ou mesmo nenhuma. Carreira e família são incompatíveis porque, bem ou mal, são as mulheres quem assume por regra a responsabilidade pela gestão da família, em quase todas as vertentes que a compõem.
Na hora de seleccionar os nomes para os cargos, muitas mulheres capazes e interessadas estão de volta dos tachos, dos filhos ou de homens de merda que as atrofiam na sua (verdadeira) condição. Mal servem para “tapar os buracos” nas listas depois de esgotados os candidatos preferenciais, pelo simples facto de nem se colocar tal questão em muitos meios menos liberais e “académicos”.

Se é inegável que o processo de transformação desta realidade é irreversível, não é menos verdade que em muitos domínios tudo acontece a passo de caracol. E não se pode desperdiçar nem mais uma geração de mulheres capazes.
Só por isso hesito em apontar o dedo ao princípio em causa, o que se viola, com esta imposição de xis ou ípsilon fêmeas para enfeitar os poleiros dos seus companheiros de luta. Porque é óbvio que se o mérito deve entrar nos critérios, garantindo a igualdade de oportunidades em teoria, esse argumento tomba diante da verdade dos números e da falta de mérito que a realidade actual traduziria, se assumida com esses contornos.

Eu não acredito nas diferenças de capacidade entre géneros, tal como desconfio que a generalidade dos machos lusitanos desta nação semi-neanderthal abdique da sua Maria no estendal para a deixarem ir à reunião da assembleia de freguesia.

Por isso, inclino-me mais para engolir o sapo da equiparação “à bruta” do que para gregoriar perante o nível dos cavalheiros que vão trepando na hierarquia à conta destas deformações culturais e muito efectivas e pragmáticas no condicionamento do acesso das mulheres à vida política activa.

Mas agora falta uma lei que obrigue os machos da espécie a aprenderem a executar as tarefas que elas deixarão de cumprir.
E a perceberem porquê.

Publicado por sharkinho às abril 4, 2006 05:24 PM

Comentários

"Só por isso hesito em apontar o dedo ao princípio em causa, o que se viola, com esta imposição de xis ou ípsilon fêmeas para enfeitar os poleiros dos seus companheiros de luta."
"Por isso, inclino-me mais para engolir o sapo da equiparação “à bruta”..."

Não poderia estar mais de acordo contigo. Mesmo que me revolte que um dia possamos ser vistas (por alguns!) como um número para equilibrar o prato da balança, sem que nunca nos seja reconhecido o verdadeiro valor. E venha então a dita lei para os machos ;)

Publicado por: 6to100tido às abril 4, 2006 07:34 PM

Por muito tempo que passe, Sexto Sentido, vão sempre existir os que vos vejam como isto ou como aquilo.
Mas se as mulheres souberem aproveitar a legislação para agarrarem os lugares e provarem a sua competência, serão vozes de burro e não chegam ao céu... :)
É para isso que (também) servem as leis, para corrigir este tipo de distorções sociais aberrantes.

Publicado por: sharkinho às abril 4, 2006 07:52 PM

Ufa, como ser pragmática neste tema?...
Quero dizer que não sou fundamentalista nesta questão, como noutras. Mas tenho alguma dificuldade em engolir sapos...sejam quais forem. ;-)

Percebo o teu ponto de vista, Shark, tal como entendo os fundamentos da Lei das Quotas, à luz das razões que tão bem explicitas.
Mas julgo que não é a existência dessa percentagem obrigatória (aí quê, de 1 (mulheres) para cada 4 (homens)??? Era só o que faltava) que irá mudar o que está subjacente à falta de participação das mulheres na vida política ou empresarial portuguesa.

Essa realidade mudará com a implantação de medidas concretas que facilitem a conciliação da carreira com a vida familiar, isso sim. Mais creches e infantários, com horários compatíveis, mais estruturas de apoio aos idosos (de quem as mulheres tomam conta), melhores remunerações para contratar quem ajude em algumas tarefas domésticas (ou mais ajuda, muito mais, por parte dos homens - sem ser preciso lei), flexibilidade nos horários a praticar pelas mulheres, and so on and so on e, decerto, elas começam a aparecer nos cargos, em números que se vejam.
Ná, não suporto discriminação. Mesmo positiva. :-)

Publicado por: Mar às abril 4, 2006 08:19 PM

Pronto, estamos de lados opostos desta barricada. :)
E também eu percebo o teu ponto de vista, Mar. Aliás, interessa sobretudo o VOSSO ponto de vista, pois são as visadas em tudo o que de bom ou de mau a nova legislação possa acarretar.
Mas os números, nomeadamente na bancada parlamentar que mais te toca, são paupérrimos e confrangedores.
Ora, não vejo nenhum Governo particularmente empenhado na adopção das medidas que preconizas (agora ou no futuro - até porque se trata de mais um feudo masculino).
E nesse caso...

Publicado por: sharkinho às abril 4, 2006 08:27 PM

Pois, nesse caso...
Mas isso não significa que abdique da convicção que defendo ali em cima. E, como sabes, é através das lutas que se travam que se obtêm as conquistas.
Depois, não posso concordar quando falas da minha bancada parlamentar: como já referi algures, o número de deputadas mulheres é proporcional ao número total de deputados eleitos. Ora, se eles são poucos, face aos partidos maioritários...elas serão menos que nas outras bancadas. De resto, as minhas listas são as que têm maior número de mulheres candidatas, isso é fácil de confirmar. ;-)

Publicado por: Mar às abril 4, 2006 10:41 PM

Proporcional a quê? Se são, salvo erro, doze deputados e só duas são mulheres... de que proporcionalidade falas tu, sócia? Uma em cada seis?
Isso representa a proporção homens/mulheres no conjunto dos militantes? De que números estamos a falar?
Explica-me melhor esse conceito, pá...

Quanto às conquistas através da luta, estamos de acordo. Mas em lutas desiguais requerem-se estratégias no limite do razoável.

Publicado por: sharkinho às abril 4, 2006 11:27 PM

Salut !
Les cotas positifs !? Très efficaces aux USA pourquoi pas au Portugal ? La France le fait tout doucement pour des raisons différentes et nous commençons à voir de présentateurs TV moins pâles, nous pouvons ainsi nous rendre compte que les Français ont tendance à bronzer.

Il n’y a plus de grippe aviaire chez nous… OUBLIÉ !!! Le vaccin de notre Premier Ministre « CPE » occupe les Français depuis deux mois, mais comme le mois de MAI n’est pas loin nous aurons peut-être un très beau MAI 2006…

Que c’est bon la LIBERTÉ !!!

Amitiés à vous tous@+

Publicado por: Manu às abril 5, 2006 09:25 AM

Falava da proporcionalidade relativa ao número total das outras forças políticas...Ex: Se há 100 deputados eleitos é natural que 12 sejam mulheres e daí parecer que são "muitas", certo?
Quando eles são apenas 12, como referes, são apenas duas e parecem "poucas". Lógico. :-)
O que me parece é de realçar que a minha força política é a que detém maior percentagem de mulheres nas listas, essa sim. Não chegam a ser eleitas porque também eles não chegam, face aos resultados que se obtêm.

Publicado por: Mar às abril 5, 2006 09:52 AM

Essa matemática, sua esquerdalha malabarista... :)
Não parecem: são poucas! E têm que ser mais, por todos os motivos e mais alguns.
Como poderia eu contestar uma lei que aumenta o número de gajas, seja onde for???
Quotas, muitas quotas, all over!!!

Publicado por: sharkinho às abril 5, 2006 10:06 AM

Um Maio de 2006 seria a loucura, Manu! Anda no ar a Revolução necessária, o vento de uma mudança que serão os cidadãos e não os ideólogos/políticos a conceber e concretizar. Quem é que se rala com a passarada? :)
A malta quer-se é bem bronzeada!

Publicado por: sharkinho às abril 5, 2006 10:13 AM

;-P

Publicado por: Mar às abril 5, 2006 12:15 PM

Amigo, a nossa alegre dissonância já tem seguimento no blogville.

Abraço grande.

Publicado por: Paulo Hasse Paixão às abril 5, 2006 04:35 PM

Já dei por isso, ò mau feitio...
Grande moquenca nessa carola, mas é.
Mas olha que essa da alegre dissonância cai bem, é bonito zaragatear dessa forma.

Publicado por: sharkinho às abril 5, 2006 05:34 PM

Eu acho que este site deveria ter mais imagens sobre conpetencias domesticas........

Publicado por: Donzilia às dezembro 9, 2007 04:19 PM

Vou ver o que se pode arranjar, Donzília.

Publicado por: shark às dezembro 9, 2007 07:02 PM

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