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maio 24, 2006
A POSTA NA BIZARRIA VIRTUAL

Já ultrapassa os mil e setecentos comentários, o mais animado velório virtual de que há memória. O fenómeno deixa-me boquiaberto e confirma as minhas suspeitas de que paira algo de estranho na blogosfera.
O Semiramis, de que vos falei tempos atrás a propósito do alegado falecimento da respectiva autora (continuo sem saber se aconteceu ou não esse óbito), transformou-se num espaço de convívio entre cibernautas, numa espécie de chat room mórbida onde a malta vai fazendo amizades e trocando umas larachas como se o blogue em causa continuasse activo como dantes.
E continua, pois ninguém parece empenhado em encerrar o espaço. Vendo bem as coisas, considerando o cariz surrealista do fenómeno, até acaba por ser uma decisão compreensível(?). O cadáver do Semiramis (sem actualização desde o início de Fevereiro) continua em missa de corpo presente e ninguém parece incomodado com a putrefacção…
Não quero com isto deixar implícito qualquer juízo de valor, até porque esgotada a maluqueira X-Files do mistério do desaparecimento da Joana, a rapaziada elevou o nível dos comentários ao ponto de a caixa se tornar poliglota. Em inglês, por exemplo, ou em árabe, encontram-se algumas pérolas no meio de toda aquela prova de vida em pleno “funeral”. O mais longo e participado de que há memória, julgo eu, na blogosfera lusa.

Só que, vendo a coisa de fora, aquilo deixa uma sensação algo desconfortável. Reparem: trata-se de um blogue magnífico que se tornou no mais comentado de sempre no Weblog, mesmo antes do seu epílogo com contornos de alucinação colectiva. Um dia a autora deixou de postar. Alguém disse que ela morreu. A malta debateu o assunto até ao osso.
E depois deixaram-se ficar na palheta, pois a capela virtual parece climatizada e confortável.
Desculpem-me a estupefacção, mas se a Joana morreu há algo de esquisito na sobrevivência tão activa do Semiramis. Ou pelo menos algo digno de ser apreciado à luz de algum critério que me escapa. Eu vejo a coisa da seguinte forma: se a autora morreu, o seu blogue transformou-se numa sala de velório à americana onde só faltam uns salgadinhos e umas bebidas para a malta de passagem não engolir em seco perante tudo aquilo que lê.
Para entenderem a razão da minha perspectiva perturbada, vejam a coisa no seguinte prisma: há milhares de blogues em constante actualização, alguns (a esmagadora maioria) às moscas em matéria de comentários. E a malta decide abancar num espaço que parou no tempo?
Mais ainda, a blogosfera é feita por pessoas. Se alguém morresse e deixassem o cadáver em decomposição ao longo de meses na casa mortuária achariam isso normal?
É isto que me faz sentir que há uma forma qualquer de demência que se instala no comportamento das pessoas (nomeadamente na alteração à sua escala de valores) quando integradas nesta comunidade virtual.
E já bastaria a proliferação de conflitos e de desaguisados estapafúrdios entre cromos que em condições normais poderiam até ser bons amigos lá fora. Eu já protagonizei alguns desses episódios sem nexo…
Confesso que só me ocorre, ao visitar o Semiramis (onde pelo menos aconteceu a morte “cerebral” do blogue e da autora), a imagem do tal velório que a malta converteu numa casa do povo onde às tantas já ninguém se lembra de onde está e de como tudo aquilo teve origem, não havendo uma alma caridosa que se condoa quando contempla o caixão ao ponto de sentir o impulso irreprimível de lhe fechar a tampa.
Ou, pelo menos, de desligar piedosamente a máquina que lhe anima a respiração artificial.
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Publicado por sharkinho às maio 24, 2006 10:20 AM
Comentários
E eis uma das caixas que continua "às moscas"...
Concordo em absoluto com a parte da demência colectiva.
Publicado por: Mar às maio 24, 2006 12:58 PM
Às vezes dá essa ideia, não dá?
Será algum mal que anda na fruta ou é mesmo esta merda que nos põe a bater mal?
E quanto à caixa, entendo perfeitamente o porquê da sua nova dinâmica.
E tu também, companheira... ;)
Publicado por: sharkinho às maio 24, 2006 02:32 PM
É pá, se calhar o "mal da fruta" já existe em cada um de nós, em maior escala nuns do que noutros, mas enfim, está lá. Depois, isto potencia a coisa, não sei se pela questão do anonimato, ou outra razão que, certamente, existirá e explica a cena do ponto de vista sociológico.(de médico e de louco e tal...)
A caixa, entendo, claro. Em absoluto. ;-)
Publicado por: Mar às maio 24, 2006 06:01 PM
Eh pá... realmente há ali qualquer coisa, no mínimo, estranha!
Morta ou não ñ sei... mas lá que se banalizou a questão lá isso é verdade!
Desculpem a "mariquice" do comentário mas... faz impressão pensar que tá ali tudo a discutir imposto automóvel, declarações e coisas que tais... E depois entram umas personagens também elas fantasmagóricas que se intitulam amigos e mesmo um como filho da tal Joana... É um blogue das trevas, definitivamente! As pessoas não andam bem, não...
Publicado por: Sue às maio 24, 2006 11:24 PM
É isso, Sue, a percepção que se extrai do contacto com aquela cena. Há qualquer coisa que não joga certo naquele filme e que perturba. Basta vestirmos a pele da protagonista ausente (morta ou, pior ainda, viva para assistir a tão estranha evolução do excelente trabalho que produziu).
Publicado por: sharkinho às maio 25, 2006 12:46 PM
Aceito o mal na minha fruta, Mar, e já te dei inúmeras mostras dos lapsos na minha lucidez. Mas convirás que a blogosfera e respectiva dinâmica só acentuaram esses desvios na minha personalidade enviezada... :)
Publicado por: sharkinho às maio 25, 2006 12:52 PM
posso perguntar:se nao gostam porque vão Lá?
Publicado por: Maria às maio 25, 2006 01:55 PM
Ninguém falou em gostos (que não se discutem, Maria). E ninguém pode formar e emitir opiniões sem ter contacto com a realidade opinada.
Publicado por: sharkinho às maio 25, 2006 03:06 PM
Contrariamente ao que possas pensar, os gostos são feitos para se discutirem, sharquinho.
Publicado por: claudia às maio 25, 2006 09:40 PM
E eu que pensava que eram para se saborearem...
(Com kapa, please)
Publicado por: sharkinho às maio 25, 2006 11:28 PM
lá está, reincidi na asneira
Publicado por: claudia às maio 26, 2006 09:41 PM
Olha, Charquinho, também já passei por essa fase de espanto. Até escrevi uma coisa lá no meu estaminé:
http://populo.weblog.com.pt/arquivo/2006/05/blog_ou_forum_1.html
porque me fazia uma confusão do caraças!
Aqui em resposta á pergunta da Maria, eu NÃO vou lá! Fui espreitar porque o que via nas estatísticas da Weblog era tão estraordinário que nem queria acreditar. Não era um blog que me dissesse muito dantes e como é natural agora ainda menos. E não consigo entender porque é que não fazem um fórum com aquelas mesmas pessoas...
São os tais "mistérios da alma humana"!!!!
Não os consigo entender.
Publicado por: Emiéle às maio 28, 2006 06:38 PM
Olha, eu já lá fui duas vezes e fiquei banzado em ambas as ocasiões.
Mas perante o entusiasmo com que aquela malta abancou por ali chego a questionar-me se o fenómeno pode ser avaliado à luz de pressupostos... enfim... normais.
A alma humana revela-se ainda mais surpreendente em suporte virtual.
Publicado por: sharkinho às maio 28, 2006 10:21 PM
Ehehehe!!!! Tal e qual!
:)) Aqui o "virtual" deve apurar a maluqueira ( ó diabo como é que se risca isto...?) a....bizarria.
Publicado por: Emiéle às maio 29, 2006 12:21 AM