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maio 31, 2006
A POSTA NA ALEGADA BOCA NA BOTIJA

Alegado pirómano
Notícia do Jornal da TVI: alegado incendiário detido pela GNR em flagrante delito.
A ver se eu entendi a questão.
Um bacano foi caçado pela GNR a deitar fogo ao mato. Flagrante delito quer dizer "ser apanhado em pleno acto". Alegado quer dizer "não há ainda a certeza de ser mesmo o que se presume". Atão um gajo é apanhado a incendiar, na hora, e é um alegado incendiário?
A ver se eu entendo com as coisas sob outro prisma.
Se um gajo for caçado em cima de uma vizinha com a sua pilinha introduzida no pipi dela, o marido da vizinha chama-lhe o quê? Alegado amante? Ou seja, o facto de ele ter efectivamente a pilinha no pipi da senhora não basta para lhe certificar o estatuto, mesmo que a Judite ou outra polícia qualquer o detenha nesses propósitos?
Sempre me fez confusão, esta mariquice do Estado de Direito que leva as coisas a extremos palermas só para honrar o sagrado princípio da presunção de inocência.
Presunção é só podermos chamar incendiário a um cabrão que ateia as nossas florestas depois de suas altezas os Grandes Juristas proferirem a sua sentença, mesmo que ele tenha sido apanhado por agentes da autoridade no preciso instante em que encostava o fósforo ao combustível.
Mas alegado o quê? Se o tivessem apanhado duas horas depois, mesmo acusado por testemunhas, a tresandar a querosene e com os bolsos atafulhados de fósforos, aí ainda entendia (e defendia) essa história do alegado.
Mas num flagra, senhores? Porquê, pela questão de princípio? Não estaremos a ser um nadinha preciosistas e ciosos do poder que a sociedade nos confere?
Bom, como não possuo formação jurídica até posso estar a ser um grande estúpido a falar de coisas de que não percebo. E como fica escrito nesta posta, podemos afirmar que sou apanhado nessa qualidade em flagrante delito.
Mas se um canalha incendiário apanhado no acto merece estas delicadezas, não me assumo estúpido.
Serei talvez um presumível ignorante.
Alegado.
Publicado por sharkinho às 11:42 PM | Comentários (10)
BIS, BIS...
A rapaziada que por aqui passou hoje no turno do final da tarde deve ter reparado que a posta abaixo saiu repetida. Ou seja, eu afirmo ter sido insultado duas vezes e a nossa soluçante plataforma de publicação achou que quatro vezes era uma conta mais redonda...
Isto para vos pedir desculpa por não ter dado pela "clonagem" da posta durante um bom bocado e, claro, para vos oferecer uma explicação para esse problema (sobretudo aos que blogam noutros suportes ou não blogam sequer).
De vez em quando o Weblog sofre uma filoxera. Tanto quanto entendi, e a avaliar pelos trackbacks marados e pelos comentários não autorizados que lincam para sites que publicitam teen porno e outras bodegas do género, a coisa é bombardeada por spam às toneladas e entope.
O resultado é o que viram (posts que dizem que não entram e aparecem depois) mais o funcionamento irregular das caixas de comentários (nestas fases recomendo que quando escreverem um comentário-lençol façam um "copy" do mesmo antes de clicarem no botão), mais a dificuldade de acesso aos bastidores desta cena e o tempão que tudo demora a acontecer nestas alturas.
Um gajo flipa com a soma de gaitas, mas a malta do AEIOU parece estar empenhada em resolver o problema e por mim ainda merecem por mais algum tempo o direito ao benefício da dúvida.
E assim apelo à vossa paciência relativamente às malapatas do sistema que nos alberga e que vos possam afectar o pleno usufruto desta casa que vos dou.
Publicado por sharkinho às 08:43 PM | Comentários (0)
E ESTA POSTA É PROVA DISSO MESMO
Hoje fui duplamente insultado.
Por alguém que me acusou de algo que já defini neste espaço como pouco menos do que execrável. E pela sinceridade lenta da minha inteligência, que insiste em demonstrar-me o cariz precário da sua condição sempre, mas sempre, apenas depois de esta já ter produzido os seus péssimos reflexos na minha actuação.
Dantes eu chamava-lhe impulsividade.
Ingénuo…
Publicado por sharkinho às 06:23 PM
A POSTA LINCADA

Foto: Shark
A blogosfera revela-se como uma comunidade virtual com características próprias em diversos aspectos que nos passam despercebidos no meio da correria diária. Ou seja, mesmo sem existir um manual de bom comportamento blogueiro a malta aprende uns com os outros as regras essenciais a cumprir para uma boa integração no colectivo que formamos.
Alguns desses aspectos saltam à vista e são do domínio comum. Como a “obrigação” de retribuir os comentários que os colegas nos fazem e que acaba por conduzir alguns novatos à tentação de deixarem comentários do género gostei muito do teu blog, visita o meu, logo seguidos do linque para o seu espaço embrionário e sedento de projecção.
Ainda mais óbvia é a resposta “exigida” aos comentários que se deixam. A ausência de retorno a um comentário é sentida como um insulto.
Pior, só a eliminação do comentário (já me aconteceu e num blogue onde tal nunca me passaria pela cabeça).
Outra das mais óbvias gentilezas que qualquer colega descobre serem do agrado geral é a cena dos linques. Lincas-me e eu linco-te. That simple. Trata-se de uma forma de definirmos o nosso “núcleo duro” no meio da confusão e de distinguirmos os espaços que mais prendem a nossa leitura em dada altura.
O charco não respeita essa tradição blogueira, por dois motivos fundamentais: a minha inépcia em lidar com os bastidores da coisa (os templates são mandarim para a minha inexistente costela de poliglota) e o facto de os meus linques (os meus hábitos de “consumo") variarem de tal forma que poucos dos originais ainda constariam na listagem destes dias (ou porque os blogues fecharam ou porque as pessoas deixaram de me interessar sob qualquer perspectiva). Não teria mãos a medir…
Claro que isto dos linques também serve de arma de arremesso em caso de conflito com algum colega. Zango-me com fulano e zás, oblitero a referência na minha coluna lateral. Um insulto também, como se sente essa exibição pública do corte de relações virtuais. Da mesma forma que se recebe como uma espécie de homenagem qualquer citação, na listagem de blogues ou no meio de uma posta.
São mariquices nossas que nos distinguem das restantes tribos que a net alberga.
Isto tudo a propósito de me ter dado um rebate de consciência quanto à minha postura no seio da comunidade onde já dei provas de merecer o meu espaço virtual. Comento pouco nos blogues alheios que visito (que são igualmente escassos) e não tenho a tal listagem pública dos linques que adornam os meus “favoritos”.
E isso torna-me menos simpático do que as dezenas de colegas que conferem ao charco essa forma de distinção, além de ser egoísta da minha parte guardar sigilo relativamente aos espaços que me impressionam e justificam o tempo investido a acompanhar a sua evolução.
Vou passar por isso a incluir na postagem muito mais linques do que outrora, ou mesmo postas inteiramente dedicadas a espaços que eu sinta merecedores da vossa atenção. Acabam por ficar a saber um pouco mais acerca do tubarão, avaliando as minhas preferências na matéria. E essas são determinadas pela qualidade e criatividade da escrita, pelo cuidado na selecção de temas, pelo sentido de humor, pela empatia gerada pelo/a comunicador/a e por mais uma série de aspectos que não adianta aqui referir.
No fundo, todos quantos fazemos acontecer esta realidade cada vez mais preponderante no conjunto do que a Internet engloba temos que assumir o nosso papel na divulgação do melhor (perspectiva descaradamente subjectiva) que encontramos na “concorrência”. É a única forma, para além do cuidado em servir bem quem nos visita, de cultivarmos a nossa ligação ao meio e, em simultâneo, de creditarmos o esforço (que existe de facto, pois a malta tem que bulir) e o talento dos que reconhecemos como válidos e/ou indispensáveis e/ou malta porreira que gostamos de mimar com esta ferramenta ao nosso alcance.
Sempre que possível, oferecerei um ou mais critérios para justificar as minhas recomendações, até para evitar mandar-vos ao engano para espaços que possam colidir com os vossos interesses e preferências ou mesmo ferir alguma susceptibilidade mais puritana.
A “minha” blogosfera está muito diferente da que conheci há quase dois anos atrás. Basta verificarem os nicks que ocupavam a caixa de comentários na altura e compararem com o panorama actual. E se blogam, façam essa análise ao vosso espaço e depois digam lá se não tenho razão quando refiro que são muito voláteis a maioria das ligações estabelecidas entre quem bloga, mesmo quando tudo indica que se criou uma intimidade que transcende o cariz virtual das palavras que se trocam.
Só me falta perceber exactamente porquê. Mas ando a ruminar a questão.
Publicado por sharkinho às 12:29 PM | Comentários (33)
O ESTADO DO TEMPO
Foto: Shark
Na óptica do serviço público que um blogue também deve prestar e seguindo a tendência para a maior atenção dada por estes dias à meteorologia, informo que o céu de Lisboa está tão encoberto como o da foto acima.
Ou pior.
(Claro que isto é algo que qualquer alfacinha já constatou ao sair da porta de casa, mas o charco tem leitores(as) em todo o país - worldwide, se considerarmos os paraquedistas googlianos - e somos adeptos da descentralização do poder).
Publicado por sharkinho às 09:09 AM | Comentários (3)
AFINAL NÃO MORREU AINDA
Parece que existe um blogue de cariz solidário em vias de retomar o seu funcionamento, depois de uma lenta agonia.
Pelo menos foi o que ouvi dizer...
Publicado por sharkinho às 12:26 AM
maio 30, 2006
A POSTA MONUMENTAL

Fotos: Shark
Publicado por sharkinho às 09:15 PM | Comentários (0)
JURO QUE PAGARÁS
De forma voluntária, os cidadãos de classe média sobem a escada até ao patamar da ilusão. Degrau a degrau, eufóricos, conquistam as alturas embalados pela garantia de prosperidade eterna que se insinua nos principais indicadores. Sucesso, aumento salarial, promoção. Vida nova para os vencedores, aclamados como heróis pela plateia invejosa, acolhidos como iguais nos camarotes ou nos balcões. Lugar cativo no festival da ostentação.
Ao longo da subida, a ambição desmedida é o motor principal das mais celebradas realizações. Bons negócios para os patrões e outras vitórias pontuais, riqueza. Beleza de sonhos, impossíveis de concretizar, carro novo, roupa fina, bom colégio para a menina e uma casa mais bonita e descaradamente maior.
Bem vindos, senhoras e senhores, ao mundo fantástico do poder ter. Tudo o que se queira, crédito à maneira, facilidades de pagamento e oportunidades de investimento, só não tem quem não quiser. Privações, só para os outros, mais abaixo, os satisfeitos com o pouco, incapazes sociais.
Mas para si, só o melhor. Assine aqui por favor e oferecemos-lhe esta magnífica gravata fabricada na cordoaria, feita para durar uma vida em redor dos pescoços de excepção como o seu. Alivie o nó sempre que queira, ignore a ratoeira, acrescente um contrato com suaves prestações. Em frente é o caminho, amanhã logo se vê.
E a classe média avança, destemida, pelo palco da vida minado de tentações. Quero isto, quero aquilo, lágrimas de crocodilo nas traseiras dos globos oculares dos que preparam a rede para a retirarem depressa quando chega a hora de cair mais alguém. Ciclos da economia, inevitáveis como os gurus que os teorizam. Porém, enquanto a prancha desliza na crista da onda sinusóide ninguém se preocupa com a rebentação. O surfista desprevenido mergulha nas águas gélidas do incumprimento e serve de alimento a uma seita implacável de tubarões. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma num pesadelo económico que o cidadão anónimo assume como consequência da ingénua esperança de escapar à sua posição na cadeia alimentar financeira. Bom proveito, senhor credor...
Mas a classe média insiste em avançar, esperançada, sobre os despojos dos eliminados pela crise anterior. Caminham, sorriso nos lábios, para o destino reservado à maioria dos sonhadores do mercado dito global. A verdade chega quando a vida abre o alçapão e a gravata de corda lhes abraça o pescoço como uma anaconda, até ao suspiro financeiro terminal. Puf, como um sonho pintado no interior de um balão na banda desenhada em que a sociedade se tornou. Lembra-se, caro insolvente potencial, de toda a papelada que lhe deram a assinar aquelas pessoas sorridentes que o encorajaram quando o seu processo de ascensão iniciou?
No bolso do carrasco, essas cópias autenticadas da sua autorização isentam de culpas qualquer executor. Imaculado o seu extermínio social, purificada a sua desapropriação. Tudo dentro do espírito da lei que aceitou por subscrição voluntária, temerária, e que agora os falsos amigos de outrora utilizam a seu desfavor sem um pingo de hesitação. É mesmo assim, dizem eles. São regras do jogo que todos aceitamos pela distinção de nos permitirem jogar, perder ou ganhar. Admissão reservada.
E só joga quem quiser, ninguém é obrigado mas apenas convidado para participar nesta evidente batota onde a sorte se forja e o azar é demolidor.
Só questionam este sistema pernicioso aqueles que lhe conhecem as reacções de homem atraiçoado, de senhorio desrespeitado, odioso, a raiva controlada de uma máquina calibrada para triturar sem apelo quem se desiluda nalguma conjuntura menos boa.
Oxalá nunca saiba como.
Nunca entenderá porquê.
Publicado por sharkinho às 07:18 PM | Comentários (0)
A POSTA PRA VER

Fotos: Shark
Publicado por sharkinho às 07:04 PM | Comentários (2)
A POSTA CONCLUSIVA
Como é fácil desdizer tudo numa simples fracção de absurdo...
Publicado por sharkinho às 07:03 PM | Comentários (0)
MAIS FOTOS MENOS PALEIO
Fotos: Shark
Publicado por sharkinho às 06:34 PM | Comentários (2)
ALA QUE SE FAZ TARDE
Antes que isto fique lamechas, vamos na bonecada ao calhas.
Fotos: Shark
Publicado por sharkinho às 04:57 PM | Comentários (0)
E SABER AMAR
Foto: Shark
E escutar os gemidos à passagem dos beijos tremidos pela emoção que espalho com a boca na tua pele. Isso também. A tua vontade a controlar a minha sede de te amar, em crescendo, enquanto vou descendo em bicos de pés (da minha língua) pela seda em que o teu corpo se transformou quando o toquei.
A pressa amordaçada na frase descontrolada que nos teus lábios vedei. Entra em mim, o que querias dizer.
E o desejo a acontecer, reacção em cadeia, deitados, plantados num campo em flor, a ideia de paraíso que o teu delírio de amor recriou para nos emoldurar.
Rebolamos pela terra áspera e ressequida pelo sol, fantasia, enquanto deslizamos pelo lençol como se o mundo estivesse mesmo para acabar. Amanhã, talvez.
Pois hoje é a nossa vez de celebrar a existência no abraço da confluência entre dois rios que se reúnem na foz.
O som diferente da tua voz, como o da água selvagem, suor, em plena descida pelo desfiladeiro que as tuas pernas erguem em meu redor enquanto mergulho no turbilhão.
E o som da nascente pouco tempo depois, repouso fugaz, a gotejar, sinto-me capaz de alvoraçar essa tua serenidade com a força da minha vontade no fragor de uma invasão. Imponho-nos a tesão e apodero-me de ti, conquistador. Em nome do amor, como um corsário, tomo posse da riqueza incomensurável que o destino me concedeu. Com tudo o que é teu, esse olhar onde aquilo que se lê é o reflexo de um homem apaixonado, afinal à tua mercê.
Dominante e dominado, um amante deslumbrado pelo rosto ardente que se contrai, mais acima, em perfeita sintonia com o clima escaldante que o ritmo das tuas ancas nos impõe.
E a vida de que se dispõe, inteirinha, para sonhar que tu és minha e acordar para a realidade desta nossa intimidade com o teu cabelo espalhado pelo meu peito e nas virilhas o calor discreto de qualquer uma das tuas mãos, sempre que nos embebedamos do prazer a dois.
Gosto muito do depois e não me imagino abdicar deste intenso desejar de outro momento feliz, logo a seguir. O futuro melhor, sem temer o amor pelas suas fragilidades e incoerências, as causas e as consequências das adversidades a combater.
A pica do desafio.
E eu solto o rio pelos sulcos que o meu corpo grava no teu, erosão momentânea. No coração a marca espontânea que sempre deixa quem nos faz bem. E sabe ainda melhor, a segunda enxurrada.
A roupa encharcada pelo caminho que ambos conhecemos de cor, o leito que encaramos como a única opção. A nossa tentação levada da breca a embrulhar-nos noutra queca como um par de siameses num incesto inadiável, num pecado impossível de rejeitar, garantido o perdão. É legítima a paixão quando os braços que se procuram, por sistema, são laços que perduram na nossa forma única de abraçar o amor.
E conto a nossa história para que se incruste na memória com a tenacidade de um mexilhão colado à solidez de um rochedo que lhe espanta o medo de algum dia mirrar. Pela solidão garantida, em cada esquina da vida que aconteça nos pesadelos experimentados sem ti.
Que humedeces agora cada um dos meus sonhos na respectiva materialização.
E seguro-te a mão com firmeza, imbuído da certeza de que vou querer-te outra vez.
Em cada instante do meu tempo por gastar.
E mesmo quando esse acabar, ficará o testemunho das lembranças que te deixo.
Como estas palavras intensas para gáudio do teu olhar.
E só.
Publicado por sharkinho às 01:36 PM | Comentários (4)
maio 29, 2006
EM BOA MEDIDA

Sou o homem que fazes de mim.
Publicado por sharkinho às 09:37 PM
A POSTA NA IDOLATRIA JUSTIFICADA
Não basta aquilo que se vê para se consubstanciar uma imagem com nitidez. É preciso mergulhar na realidade por detrás do encanto do cenário para alimentar qualquer tipo de fé com coerência.
A minha é feita de factos.
E de histórias verídicas para contar...






Fotos: Shark
Publicado por sharkinho às 12:40 PM | Comentários (7)
LER APENAS EM CASO DE EMERGÊNCIA

O meu ego apanha-me de surpresa com frequência, nas suas cogitações que o elevam a bordo de um ascensor feito de papelão até um patamar onde só ele seria capaz de se (nos) colocar.
Ontem, quando me apercebi que ia voltar a deitar-me às quinhentas, resignei-me com essa propensão para os hábitos de ave nocturna que arrasto comigo desde a adolescência como uma espécie de maldição.
É que deitar tarde e cedo erguer não dá cabo da saúde mas, e embora isso constitua uma vantagem para quem calça o 44 e não pretenda ficar sem soluções nessa matéria, também não faz crescer.
Mas o pior é a constante violação de uma mania muito arreigada em patrões, em chefes e em subordinados ambiciosos, a da pontualidade.
Um gajo deixa-se dormir e depois chega tarde a todo o lado, exibindo umas olheiras até aos joelhos e um estranho brilho no olhar perante a palavra “café”.
Passei a vida nisto. E continuo a passar.
É um descrédito para qualquer pessoa, abdicar dessa prova de sentido de responsabilidade que é acertar a vida ao minuto para nunca falhar com a hora acordada. E eu a essa hora estou a dormir…
Contudo, nunca assumi o sentimento de culpa inerente a essa condição pública de “baldas” que vesti na escola, nos sucessivos empregos, no trabalho por conta própria e em quase todos os compromissos sociais. Claro que dei sempre o litro para compensar essa falha imperdoável na ética do cidadão modelo, mas nisso ninguém repara.
E é esta a lacuna que o meu ego explora, tão arrogante e autónomo, para se (nos) instalar numa posição mais confortável quando o sol-que-já-vai-alto se substitui ao despertador entretanto silenciado à bruta ou farto de tocar pró boneco,
Acredita ele (o meu ego) que essa tendência para me deitar nunca antes da uma da manhã é uma prova inequívoca da minha superior capacidade cerebral, uma espécie de confirmação espontânea do elevado QI que todos os egos gostam de assumir (normalmente pela surra).
E o tipinho fornece-me exemplos.
“- Já reparaste, méne (isto é o ego a falar), que só os lorpas, os caralhinhos da Bélgica(*) e os escravos do dever é que se deitam a horas?” – e prossegue, convicto. “- E repara bem nisto: os Malucos do Riso e os Batanetes passam no horário nobre mas o Gato Fedorento só é transmitido quando os adeptos do humor boçal já estão a roncar ao lado das suas matronas. E as séries e os filmes fixes? A mesma merda…”
O meu ego tem destas cenas um bocado parvas, tiques de superioridade que lhe ficam bem (ego é mesmo para essas coisas) mas que soam um nadinha a intelectualidade de pacotilha. Mas enfim, ele lá continua com as suas teorias e eu a levar com elas.
“- E a náite, pá? Os sítios baris, onde um gajo conhece pessoas interessantes (ele pensou “gajas boas”, mas eu sou mais comedido) estão fechados de dia. E porquê? Porque o sol ilumina os operários, a malta que bule e não liga aos prazeres da vida. Os outros, como tu, só precisam do sol quando se esticam no areal. E é de olhinhos fechados, que o excesso de luz é uma gaita quando um tipo goza a vida a rasgar a escuridão.”
Baralha-me, este ego tão convincente nas suas manias. Mas claro que eu não cedo fácil à tentação de acreditar nestas lérias, sobretudo quando enfrento as carrancas de quem leva secas infindáveis à espera da minha chegada triunfal.
Não sou pontual e nem o nascimento da minha filha prematura alterou essa premissa (só acordei duas horas depois de ela vir ao mundo - embora em compensação tenha sabido antes da mãe que o milagre da vida estava a acontecer no seu interior).
Detesto horas marcadas seja para o que for, acima de tudo se são marcadas para antes do almoço. E isso, como podem adivinhar, constitui um factor de perturbação no quotidiano de qualquer um.
Passo a vida a fintar essa mania colectiva do cumprimento de horários, desculpas esfarrapadas, histórias mirabolantes, justificações impossíveis para a minha atitude irreverente perante este convénio agressor. Funciono melhor quando os outros se predispõem a dormir, às duas ou às três da madrugada. E gosto mais de assistir ao nascer do sol quando isso marca o final de um dia e não o seu despontar.
O meu ego acha isso normal, mas eu não, por causa das evidências. Pelo menos, é o que os outros me dão a entender, chocados com a minha falta de brio horário que tantos transtornos tem causado aos mais cumpridores.
Gostava de não hostilizar a malta com as minhas falhas nos seus esquemas meticulosamente planeados, nos seus orgulhos exacerbados pelo rigor de uma pontualidade britânica. Mas esse é um factor que não consigo controlar, passo a vida a atrasar os compromissos já adiados, mesmo os calendarizados com enorme antecedência, importantes, decisivos até.
Faz parte do que sou.
Tal como este lençol que vos dou, impróprio para uma manhã de segunda mas em perfeita consonância com a minha dificuldade em me manter acordado no período mais atroz de qualquer semana da minha existência activa e, de forma precária, funcional.
Partilho convosco o bocejo e facilmente antevejo a soneira que esta prosa vos dá.
Este mundo não está preparado para mim. E vingo-me dele assim, manifestando o meu desagrado em monólogos inconsequentes e banais.
As vítimas ocasionais são as poucas pessoas que me concedem alguma atenção. Como tu, que aterraste neste espaço onde um bacano qualquer dá largas ao seu desconforto pelo início de mais um ciclo laboral. Um desabafo, afinal, de quem preferia ter ficado na cama.
Não deve haver forma mais sonífera de começar uma semana, penso eu com o ego mais os botões.
Mil perdões. Neste teste à vossa paciência está embutida a minha má consciência e a alergia às segundas. Mas não podem dizer que não estavam avisados (ver título da posta)
Lá pra quinta a coisa melhora…
(*) Um caralhinho da Bélgica é uma daquelas alimárias sonsas, uns totós todos engomadinhos a quem tudo faz confusão se sair dos carris pré-determinados que lhe guiam a existência. Como a hora certa para almoçar, para fazer chichi ou para publicar uma posta a dar conta de mais uma agitaçãozinha na sua fezadazinha tão atrevidazinha que até lhe provoca uma insónia até uns largos minutos depois da meia-noite, bem dentro da madrugada…
Publicado por sharkinho às 11:08 AM | Comentários (6)
maio 28, 2006
JUNTA A TUA À NOSSA VOZ

Foto: Shark
Publicado por sharkinho às 10:45 PM | Comentários (6)
AR PURO

A luz do sol pode encontrar-se no calor de um sorriso ou no brilho de um olhar, reflectida tal e qual.
Não existe forma de fugir a uma vaga de calor assim.
O meu ar condicionado interno não avariou.
Apenas decidiu libertar-se dos grilhões da nomenclatura.
Publicado por sharkinho às 01:59 PM | Comentários (4)
maio 27, 2006
DIA DE PAI
Fotos: Shark
Publicado por sharkinho às 10:02 PM | Comentários (2)
DIA DE PAI 2 (As Vistas)
Fotos: Shark
Publicado por sharkinho às 10:01 PM | Comentários (0)
DIA DE PAI 3 (Alguns Detalhes)
Fotos: Shark
Publicado por sharkinho às 10:00 PM | Comentários (4)
SE EU PUDESSE...
Foto: Mar
...(E soubesse como) Beijava-te da cabeça aos pés com palavras.
Também.
Publicado por sharkinho às 01:56 PM
maio 26, 2006
A POSTA EM SETÚBAL

(Prá próxima mandamos vir dois, sócia...)
Fotos: SHARK
Publicado por sharkinho às 08:39 PM | Comentários (6)
maio 25, 2006
A ALICE AINDA NÃO MORA AQUI

Foto: shark (o shark sou eu, o gajo que tirou esta foto de treta, e apesar disso não estou a oferecê-la. Estou a partilhá-la convosco, para a verem e não para a copiarem à má fila. É uma questão de princípio, capiche?)
Está de novo a ser discutida a questão dos direitos do autor que bloga, na sequência de um episódio que envolveu dois blogues e já arrastou uma série de alianças e de lealdades para o meio da contenda.
Deixando de lado os contornos sempre foleiros deste tipo de situação, no caso concreto está em causa a publicação de uma foto sem qualquer menção ao respectivo autor.
Enquanto alguns defendem que se trata de algo normal, considerando que quem “oferece” o seu trabalho na net deve sujeitar-se à respectiva reprodução sem miar, outros consideram nada menos do que um roubo essa apropriação indevida do trabalho de outrem.
Se a questão legal, a balda em que navegamos, não oferece grande margem de manobra para discussão e cada um faz o que quer de forma impune, a questão ética pia mais fino.
Se é legítimo aceitar que é simpático alguém reproduzir os nossos trabalhos (palavras e/ou imagens) nos seus espaços, não há forma de contornar que essa reprodução sem autorização expressa (enfim, nem sempre possível de obter) e acima de tudo sem menção ao autor e respectivo linque passa a assumir os contornos de plágio.
Ou pelo menos de falta de respeito por quem executou o trabalho em causa.
Não estou envolvido de forma alguma, antes pelo contrário, com nenhum dos protagonistas de mais este sururu em torno de um tema recorrente na blogosfera e por isso não me sinto inclinado para tomar partido por alguém. A minha opinião deriva apenas do facto de considerar que ao vazio legal não deve corresponder um vazio moral na nossa conduta blogueira.
Nem é preciso um grande esforço de raciocínio para entender isto. E se aceito com passividade a reprodução de fotos minhas sem menção em blogues espanhóis, italianos ou holandeses, como se verifica, recuso-me a fazer de conta que não vejo quando um blogger português afiambra o que faço e nem se digna a oferecer-me o privilégio da divulgação orientada (o tal linque que constitui desde sempre um sinal de reconhecimento nos nossos tiques comunitários).
Por isso me vejo na contingência de manifestar a minha posição na matéria. Não aceito que prevaleça a teoria do vale tudo menos tirar olhos, da mesma forma que não me sinto no direito de exigir outra contrapartida que não essa simpática identificação de onde veio e de quem fez.
E não cola o argumento de que existem meios informáticos de impedir essa ausência de citação, pois não só esses recursos acabam por impedir o normal visionamento do trabalho em causa (marcas de água e cenas assim) como é óbvio que tal argumento visa apenas a paz na consciência dos que não querem ou não sabem como proceder no âmbito das regras do jogo nesta plataforma que, afinal, nem divergem assim tanto das regras “lá fora”.
A blogosfera é um espaço de liberdade e não um espaço de anarquia. Alguns pressupostos devem ser tidos em conta para que tudo isto não se transforme numa imensa bagunça onde os mais aptos não arrisquem mergulhar.
É que a leviandade dos que defendem o plágio ou a apropriação/divulgação indevida do trabalho dos outros, para além de nem oferecer discussão, aplica-se na boa a figuras anónimas e sem projecção mediática que, por inerência, sugerem impunidade garantida ao plagiador/abusador. E a isso soma-se a falta de respeito por esta plataforma que, no meu entender, é tão digna de ser respeitada como qualquer suporte institucional (como o papel, por exemplo).
É fazer de “advogado do diabo”, juntar a minha voz à perspectiva mais careta e menos liberal. Todavia, se queremos levar a sério este investimento em energia e em tempo, o nosso e o dos outros, não podemos aligeirar alguns compromissos que têm tanto lugar neste meio como em qualquer outro.
E no fundo acabam por constituir a única fonte de retorno, a única compensação do esforço que desenvolvemos aqui.
Não entendo porque alguns colegas não são capazes de perceber uma coisa tão simples.
Publicado por sharkinho às 11:33 AM | Comentários (8)
maio 24, 2006
TIRO NO PÉ

O silêncio é uma das armas mais letais ao alcance de quem quer magoar alguém. Pode implicar desprezo, desconsideração, chantagem emocional (se o mutismo se escuda numa impunidade presumida) ou mesmo o fim abrupto de uma ligação entre pessoas.
Presta-se à especulação, à dúvida. E por isso se torna tão eficaz nos seus propósitos, humilhando quem se vê alvo de tal estratégia.
Contudo, a vulnerabilidade ao silêncio é proporcional à estima que dedicamos a quem nos agride dessa forma.
Essa é a surpresa que podemos reservar ao agressor, escavacando as suas certezas com a ausência de uma reacção.
Por isso é que o silêncio utilizado sem moderação pode resultar facilmente num beco sem saída.
E quando isso acontece e o impasse não se quebra, o agressor não sai necessariamente vitorioso com a sua estratégia.
É que assim, sem eco da sua actuação, fica sempre no ar a dúvida acerca de quem afinal perdeu com a cena…
Publicado por sharkinho às 10:29 PM
NUM PLANO ELEVADO
Como um colibri, percorro o teu corpo despido em busca do pólen que me fertiliza a vontade de te possuir com a graciosidade do condor, a sabedoria da coruja e a energia do falcão.
Publicado por sharkinho às 12:09 PM
A POSTA NA BIZARRIA VIRTUAL

Já ultrapassa os mil e setecentos comentários, o mais animado velório virtual de que há memória. O fenómeno deixa-me boquiaberto e confirma as minhas suspeitas de que paira algo de estranho na blogosfera.
O Semiramis, de que vos falei tempos atrás a propósito do alegado falecimento da respectiva autora (continuo sem saber se aconteceu ou não esse óbito), transformou-se num espaço de convívio entre cibernautas, numa espécie de chat room mórbida onde a malta vai fazendo amizades e trocando umas larachas como se o blogue em causa continuasse activo como dantes.
E continua, pois ninguém parece empenhado em encerrar o espaço. Vendo bem as coisas, considerando o cariz surrealista do fenómeno, até acaba por ser uma decisão compreensível(?). O cadáver do Semiramis (sem actualização desde o início de Fevereiro) continua em missa de corpo presente e ninguém parece incomodado com a putrefacção…
Não quero com isto deixar implícito qualquer juízo de valor, até porque esgotada a maluqueira X-Files do mistério do desaparecimento da Joana, a rapaziada elevou o nível dos comentários ao ponto de a caixa se tornar poliglota. Em inglês, por exemplo, ou em árabe, encontram-se algumas pérolas no meio de toda aquela prova de vida em pleno “funeral”. O mais longo e participado de que há memória, julgo eu, na blogosfera lusa.

Só que, vendo a coisa de fora, aquilo deixa uma sensação algo desconfortável. Reparem: trata-se de um blogue magnífico que se tornou no mais comentado de sempre no Weblog, mesmo antes do seu epílogo com contornos de alucinação colectiva. Um dia a autora deixou de postar. Alguém disse que ela morreu. A malta debateu o assunto até ao osso.
E depois deixaram-se ficar na palheta, pois a capela virtual parece climatizada e confortável.
Desculpem-me a estupefacção, mas se a Joana morreu há algo de esquisito na sobrevivência tão activa do Semiramis. Ou pelo menos algo digno de ser apreciado à luz de algum critério que me escapa. Eu vejo a coisa da seguinte forma: se a autora morreu, o seu blogue transformou-se numa sala de velório à americana onde só faltam uns salgadinhos e umas bebidas para a malta de passagem não engolir em seco perante tudo aquilo que lê.
Para entenderem a razão da minha perspectiva perturbada, vejam a coisa no seguinte prisma: há milhares de blogues em constante actualização, alguns (a esmagadora maioria) às moscas em matéria de comentários. E a malta decide abancar num espaço que parou no tempo?
Mais ainda, a blogosfera é feita por pessoas. Se alguém morresse e deixassem o cadáver em decomposição ao longo de meses na casa mortuária achariam isso normal?
É isto que me faz sentir que há uma forma qualquer de demência que se instala no comportamento das pessoas (nomeadamente na alteração à sua escala de valores) quando integradas nesta comunidade virtual.
E já bastaria a proliferação de conflitos e de desaguisados estapafúrdios entre cromos que em condições normais poderiam até ser bons amigos lá fora. Eu já protagonizei alguns desses episódios sem nexo…
Confesso que só me ocorre, ao visitar o Semiramis (onde pelo menos aconteceu a morte “cerebral” do blogue e da autora), a imagem do tal velório que a malta converteu numa casa do povo onde às tantas já ninguém se lembra de onde está e de como tudo aquilo teve origem, não havendo uma alma caridosa que se condoa quando contempla o caixão ao ponto de sentir o impulso irreprimível de lhe fechar a tampa.
Ou, pelo menos, de desligar piedosamente a máquina que lhe anima a respiração artificial.
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Publicado por sharkinho às 10:20 AM | Comentários (14)
maio 23, 2006
A POSTA EM LISBOA
Fotos: shark
Publicado por sharkinho às 02:57 PM | Comentários (9)
maio 22, 2006
A POSTA QUE GANHO

Foto: shark
Vejo ao longe o muro e abrando a passada para melhor o percepcionar. Para respirar. Ao longo da linha do meu horizonte mais distante, o que a vista mal alcança, a imponente barreira espreguiça-se de tédio perante a minha figurinha ridícula, um ponto escuro com pernas, e aguarda a minha chegada à sua beira.
Para desistir.
Mochila às costas, decido avançar em direcção à parede colossal que me separa do que pretendo, determinada, cada vez mais alta na minha perspectiva, cada vez mais intransponível. Por todo o lado os desastres naturais e eu pelo meio a caminhar, sem receio de outro mal que não o que resida em mim. A erva daninha na vontade que definha à mercê da aparente irrelevância do objectivo final.
Mas eu insisto, resisto, não consigo parar.
Caio, levanto-me, sacudo o pó.
Avanço e caio outra vez.
Repito o desafio, cabeça erguida, a terra prometida ou outra merda qualquer, do lado de lá, inacessível. E eu acho incrível a minha estranha persistência, joelhos esfolados e ar de vencedor. Apoiado no amor que move todas as causas que algum dia abracei.
As pedras no muro sorriem de desdém, vencedoras de antemão, testemunhas silenciosas de um sem fim de tentativas frustradas, de lágrimas vertidas pela cedência do sonho impossível de concretizar. Pelo menos à primeira, penso eu, enquanto percorro mais um resto da distância, o rosto da esperança e a força do desespero, a certeza absoluta de já ter estado mais longe dali.
O medo abandonado pelo caminho, como lastro vertido para aliviar a minha carga, a mija atrevida contra o gigantesco paredão.
As pedras parecem rir à gargalhada, beijadas pelo vendaval. E afinal riem de mim, o homenzinho como os outros que ali deixaram o orgulho e a coragem, desistência, o fim da magia sonhada, da glória esperada, meia vitória sem brilho num eterno segundo lugar.
E eu a imaginar o outro lado da cena, proibido, o corpo sentado e a mente alucinada a voar. Para lá do topo daquela coisa sinistra, ergo a crista como um galo e rosno como um cão, a minha ira pela sua intenção de me deter. E eu não quero conhecer o ponto onde acaba o caminho, a última estação, numa terra de ninguém, amaldiçoada, pelo demo baptizada com o nome de frustração.
Cabelo solto ao vento, costela imaginária de um descendente de Sansão, procuro o alento na palma da mão. Colo-a agora no obstáculo e faço-o sentir o meu calor, transmissão de energia, do mérito e do valor o troféu ambicionado, o prémio da utopia ao alcance do meu olhar.
Que percorre aos poucos a extensão da tarefa, medindo com o rigor possível a dificuldade da missão.
Ao longe o som de um trovão, mais o brilho fugaz da electricidade cuspida pelo céu.
Sem tempo a perder, pouso a mochila, retiro uma estaca de metal e outra a seguir. Mais o martelo e as cordas, silêncio mortal, agora que o muro despertou para a natureza da minha intenção. Chuva de pedras, avalancha, eu perco a paciência pela má vontade do destino que construiu o mamarracho, farto das trevas quando consigo vislumbrar a luz. Do lado de lá.
Levanto a cabeça para gritar a minha vontade, cravo na pedra o espigão, concentrado na fúria que espanta a maldição, à martelada. E dou início à escalada, sem hesitar.
Acordo encharcado em suor.
Ainda consigo ouvir o som distante, macabro, das pedras do muro a gemer.
Debruço-me então sobre o parapeito da janela que abro e fixo o olhar naquele sol portentoso a nascer.
A vida no seu melhor.
Afinal já lá estou.

Foto: shark
Publicado por sharkinho às 11:26 PM | Comentários (4)
A POSTA NA FOTOGRAFIA
Foto: shark
Publicado por sharkinho às 06:09 PM | Comentários (4)
A POSTA NO CASÓRIO
No fim-de-semana que passou andei entretido a participar num dos rituais mais apreciados deste país de românticos inveterados.
Um casamento, pela carga tremenda que implica para os protagonistas, respectivas famílias e mesmo para os convidados (não sai barata a paródia...), é uma festa cheia de emoção e de motivos de interesse.
Foi o caso, ao longo dos dois dias de duração da cerimónia.
O noivo é gente boa, afianço eu. E se escolheu aquela candidata específica é porque ela será gente boa também.
Por isso mesmo, fico a torcer para que tudo dê certo na relação que abraçaram e passei todo o tempo concentrado na fé, como comprovam as seguintes gravuras.
Fotos: shark
Publicado por sharkinho às 09:44 AM | Comentários (6)
maio 21, 2006
Tenho

a mania estúpida de julgar os outros à minha imagem e semelhança. É assim uma espécie de vocação sublimada para exercer a profissão de Deus. Constata-se noutras características minhas, como ser teimosa e mandona, pensar que as pessoas me idolatram e ter um mau feitio desgraçado.
O pior é que farto-me de levar com baldes de água fria, coisa que, caso eu fosse mesmo Ele, não poderia nunca acontecer, pela lógica da gravidade. No mínimo, seria eu a abrir as torneiras do dilúvio, lá em cima...
O certo é que, enquanto imagino que quando alguém diz que faz, fará mesmo ou sempre que afirma a pés juntos que não faz, a acção não será jamais cometida, eis que um abanão na estrutura me demonstra que um qualquer gene defeituoso, a ponta da dupla hélice um nadinha torta, produziu um exemplar fora da minha matriz.
Pela quantidade de fugas aos meus parâmetros, constatadas na coabitação diária com os meus semelhantes, só posso mesmo exclamar: malditos hackers...
Mar
Publicado por sharkinho às 01:00 PM | Comentários (6)
maio 20, 2006
A POSTA NO ACTO FALHADO
Fotos: shark
Publicado por sharkinho às 09:59 AM | Comentários (8)
maio 19, 2006
Sabedoria

Sobrepomos, em sobressalto, camadas sobre camadas de vida.
Múltiplas faixas paralelas, a todo o comprimento do ser que somos, umas claras como risos ou nascentes de água pura, outras cinza escuro, sombrias, dos dias feitos de lágrimas.
Fazemo-nos aos poucos como pessoas.
Do fino e tenro tronco original, apenas resta um pequeno círculo branco.
O núcleo daquilo que somos. Em torno do qual nos fomos endurecendo, afirmando, defendendo, existindo.
O deve e o haver entre as cores dos estratos sobrepostos, diz-me que tenho sido uma pessoa feliz.
Mar
Publicado por sharkinho às 01:57 PM | Comentários (4)
MAIS UM
Na minha galeria dos indispensáveis. Este.
Publicado por sharkinho às 12:04 PM
MENOS UM
Há mensagens que são impossíveis de ignorar. Desde o passado dia 13 que sou o único visitante do Lx Zona Oriental e não quero assumir que publico só para mim.
Acabou de fechar, como é óbvio...
Publicado por sharkinho às 12:01 PM
A POSTA NA MARIA

Hoje ao final da tarde (19 horas) vale a pena dar um pulo à FNAC do Cascais Shopping para assistir à sessão de lançamento do livro GATO PEDRA, a última obra da Maria São Pedro, nossa colega blogueira e amiga deste charco.
Naturalmente, o tubarão dirá presente neste momento especial da vida de qualquer autor(a) para o qual foi convidado.
E todos sabemos como é importante sabermo-nos convocados para partilhar os dias especiais de qualquer pessoa da nossa estima.
Votos do maior sucesso, amiga!
Publicado por sharkinho às 09:49 AM | Comentários (2)
maio 18, 2006
A POSTA NO AZULEJO
Foto: shark
Publicado por sharkinho às 06:27 PM | Comentários (2)
A POSTA OBSESSIVA

Um dos fenómenos que mais me intimidam de entre as aberrações directa ou indirectamente ligadas ao amor é a obsessão. Venha de onde vier.
A evolução de um afecto obsessivo raramente não degenera em comportamentos bizarros, agressivos até. Como se a fixação de alguém noutra pessoa representasse a paixão na sua forma mais negra, o lado obscuro do apego em demasia.
Um dos primeiros obstáculos naturais com que o obcecado de qualquer género se depara é a normal desproporção entre o seu alegado amor e respectivas manifestações e o grau de estima da pessoa “seleccionada”. Muitas vezes, essa variante perigosa e tão facilmente confundível com algo de bom exacerba o instinto de posse absurdo e o ciúme ilegítimo, conduzindo a desfechos imprevisíveis e dignos de episódios de loucura temporária.
As obsessões entranham-se em quem as vive como cancros cujas metástases parecem concentrar-se no cérebro, em pleno centro nevrálgico das emoções. Alguns chegam a delirar, inventando falsos passados e promessas de futuro que não passam de contratos virtuais estabelecidos com a própria imaginação à luz de uma expectativa qualquer. Recriam falsas memórias, sublimam sensações nunca experimentadas, cultivam uma realidade paralela em torno de um holograma (normalmente obtido a partir de escassos momentos de contacto pessoal, ou até com base em fotografias do seu alvo de eleição).
Inofensivos, alguns, também os existem particularmente ameaçadores. Por norma, os que entendem a "amada" ou o "amado" como algo de seu. Encaram tudo quanto mexe como uma ameaça a esse “poder” e reagem de forma hostil. Sem limites nas consequências quando algo lhes mata a esperança que não se permitem perder.
Contudo, não seriam necessários esses casos (felizmente) excepcionais para se concluir que nenhuma forma de obsessão é positiva quando aplicada ao amor. Trata-se de uma combinação contra natura, um erro de casting emocional.
Os obsessivos, e falo delas como deles, constituem para mim um perigo latente e sempre que o instinto ou outra forma de percepção me alertam para tal hipótese coloco-me de imediato em modo sentinela. E não me deixo levar por condutas ou perfis aparentemente serenos, pois não existe um meio de avaliar o impacto de uma fixação obsessiva nas reacções descontroladas de quem a nutre por alguém.
No que concerne ao amor e à paixão, só o saudável é aceitável e normal. Tudo o resto constitui uma tremenda incógnita e a história regista os inúmeros exemplos dramáticos para quem não levou a sério determinados sinais.
O obsessivo inteligente raramente se deixa trair pelo excesso visível, controla as emoções e age sob uma camuflagem bem preparada. É um falso amigo ou um vizinho dos que inspiram confiança, difícil de detectar nas suas deambulações esquizofrénicas pelo conto de fadas que a sua cabeça lhe transmitiu.
Até ao dia em que não resiste ao impulso ou os factos lhe fazem desabar o castelo de areia, despoletando uma surpresa desagradável aos visados que tenham o azar de se verem figurantes ou protagonistas da sua fantasia tão real.
Detesto saber-me desprevenido e já me assumi desconfiado, ou mesmo um tudo nada paranóico, pela obsessão (ah pois, todos temos uma…) com a minha segurança e a dos que me são próximos. Poucas vezes me distraio, empenhado que estou em evitar dissabores por essa porta aberta ao desconhecido.
Mas nesta matéria em particular nunca me presto a desatenções.
Publicado por sharkinho às 04:52 PM | Comentários (4)
maio 17, 2006
CHAIN REACTION
Foto: shark
Viajo pela tua pele em pensamento e nela encontro o firmamento que me envolve no céu.
Da tua boca, sonho húmido, a minha voz rouca num grito que só tu podes ouvir.
A chuva a cair, transpiração, interior do meu peito na palma da tua mão. Fechada, a porta de saída, tu no quarto despida e eu cativo a observar. O teu corpo desnudo, objecto de estudo num louco mestrado do amor acordado.
Que fazemos os dois.
Publicado por sharkinho às 10:21 PM | Comentários (0)
Redacção e Poesia
Dois géneros distintos mas amplamente praticados sempre que se quer dar uma de "intelectuale"
Há por aí uns poetas
que se julgam de mão-cheia
só porque uivam à lua cheia.
Eu também gosto de poesia
mas as minhas preferidas são as fábulas.
E "prontos", como era para entrar na competição de quem melhor faz uma redacção ou escreve poemas de amor e drama, aqui fica o meu quinhão.
"O Sapo"
(renomeado da minha lavra, para a "poisia" que se segue)

É avarento, faz o mal
É caloteiro prega espigas
Seu viver assim não vale
É mesquinho causa brigas
Tem soberba, é arrogante
Vai vivendo em sobressalto
Rebaixando seu semelhante
Para que o vejam mais alto
Perpassa ao lado do indefeso
E, com perversos sentidos,
Vai revelando desprezo
Pelos mais desprotegidos
O Soberbo
Por José António Alves
Mar
Publicado por sharkinho às 02:48 PM
A POSTA QUE PODIA SER AINDA PIOR

Como já tinha acontecido tempos atrás (aqui), o charco volta a um tema da nova era da blogosfera: a posta animalesca.
A posta animalesca é um novo género literário nascido no seio da nossa comunidade virtual. Esta nova tendência reflecte um pouco a vida lá fora, onde a falta de tomates também pauta e as pessoas inclinam-se com naturalidade para os subterfúgios que lhes permitam passar impunes pelas suas acusações, difamações e outros palavrões que não irei aqui reproduzir por respeito a quem nos lê.
Na essência, o animalesco caracteriza-se pelo recurso abundante à simbologia animal. Os autores desta nova vaga distinguem-se pela forma subtil como disfarçam as suas invectivas de lobo rafeiro, cobrindo-as com o manto diáfano da lã por tosquiar. Como uma camada suplementar de pele, a citação de diversas espécies de bicho confere ao autor(a) um escudo protector contra as consequências das suas atoardas.
Por exemplo: se no charco dissermos que determinado papagaio não passa de um cão amestrado que usa a língua por sistema para compensar as óbvias lacunas na erecção intelectual, os leitores incautos poderão sentir-se tentados a maravilhar-se com os conhecimentos deste blogue em matéria de zoologia.
Outro exemplo: se em alguma posta referirmos que existe uma ave rara cujo “sucesso” se baseia na exibição de frangas depenadas, frutas descascadas e outros chamarizes de papalvos (espécie em extinção, originária do delta do Nilo), seria legítimo que se assumisse que nos referimos a um estudo recente da National Geographic.

Contudo, o fascínio desta nova corrente blogueira reside precisamente na descodificação desses signos vocacionados para camuflar a identidade dos visados enquanto os insultam em simultâneo. O verdadeiro dois em um, muito prático no contexto da escrita breve requerida por uma posta.
Ou seja, quando chamamos camelo a um figurante secundário de uma peça ranhosa (normalmente trata-se de cotas em crise de meia idade assoberbados com pesados quando possuem apenas a carta de ligeiros) é evidente que não visamos o animal em si (seria insultuoso para os bichos) mas sim a atitude e/ou o porte de um arraçado de dromedário qualquer. E nesta última frase já podem constatar a influência dos autores animalescos na escrita moderna.
Mas não pretendo tornar esta posta numa espécie de ensaio maçador para me armar ao pingarelho, dissecando os autores como rãs (ou sapos, se preferirem). Até porque este é um espaço sem pretensões de qualquer ordem nessa matéria.
E por isso mesmo, vou já inflectir o discurso e abordar uma alternativa ao animalesco que acima referi. O grotesco (ou burlesco inferior) também serve os propósitos do chico-esperto comum (ou carapau de corrida, na vertente zoológica).
Neste caso, o autor cospe palavras ao céu e aguarda que estas não regressem ao seu rosto sob a forma de escarradelas alheias. A imagem não é bonita, bem sei, mas corresponde ao sentimento profundo de asco que nos desperta o contacto com essa corrente alternativa.
Um exemplo: se no charco afirmarmos que uma dupla blogueira tem construído a sua presença neste meio à custa de expedientes ordinários, fotos alheias ou textos de outrem sistematicamente reproduzidos para dar a pala, ninguém pode acusar-nos de apontar o dedo a este ou àquela. Sem nomear os visados, só eles e quem já lhes tenha topado o esquemazinho de merda, I love you very much and I would like that you were just like the strangers in our lovely pictures, consegue perceber a quem nos dirigimos. E mesmo assim não pode afirmá-lo com toda a certeza, pois nunca falta quem possa enfiar qualquer carapuça lançada à confusão.

O grotesco, como o animalesco, consiste afinal num expediente destinado a colmatar as falhas ao nível da formação pessoal de quem bloga, nomeadamente no domínio da capacidade de improviso e da criatividade para conceber um insulto com alguma inteligência. Senão vejamos: é fácil chamar ratazana pindérica a uma fulana qualquer, aproveitando alguma referência recolhida numa posta sua (que ilustre a familiaridade da autora com o ambiente natural desses roedores abjectos). Da mesma forma, não custa nada afirmar que um palerma qualquer (note-se que “palerma qualquer” pode aplicar-se de forma indiscriminada a qualquer palerma) mete dó pelo esforço notório em mostrar-se à altura daquilo que salta à vista ser areia demais para a sua camioneta (ainda a questão da carta, acima referida), levando-o a incorrer em excessos solidários que em nada o dignificam. A gente até sabe o que são necessidades e entendemos o espírito de sacrifício implícito, mas vemo-nos obrigados a retorquir na mesma moeda quando nos presumimos alvos “anónimos” das bocas e das graçolas de um palhaço (o recurso a ofícios vários pode substituir o animalesco na intenção subjacente – vide o exemplo do padeiro, do polícia ou de outras figuras conotadas com a assistência técnica em falta, forma indirecta, ou com a figurinha patética do visado, a forma directa).
É esta a explicação para a adesão, por vezes involuntária, de muitos blogueiros às novas ondas que brotam de forma espontânea nos diversos viveiros naturais de hipócritas que proliferam nesta comunidade que deveria, afinal, albergar apenas quem possuísse qualquer argumento de jeito para justificar a insistente manutenção da sua irritante presença virtual.
E não vou alongar-me mais no assunto, até porque estou certo de que acabarei por voltar ao mesmo e ainda com maior rigor descritivo.
Ficam estas notas para contribuir para o melhor entendimento deste fenómeno por parte de quem ainda não lhe tenha captado as peculiaridades sui generis, com o meu pedido de desculpas pelo exagerado tempo de antena que concedi, excepcionalmente, a este tema enfadonho.
Portei-me, parafraseando alguns autores de terceira linha, como um tubarão muito cabrão.
E ainda agora a procissão vai no adro, como se pode presumir da frase feita com que encerro esta posta e para a qual ofereço uma solução na imagem logo abaixo, adaptada de um exemplo concreto da nossa praça.
Não é com vinagre que se apanham varejeiras.

Publicado por sharkinho às 11:29 AM | Comentários (20)
maio 16, 2006
A POSTA TEASER II
O sapismo agudo pode provocar sintomas idênticos aos da papeira ou aos do bócio.
Em condições extremas (sapismo grave), a ira associada pode implicar a combustão interna do batráquio devido às repercussões do inevitável som de retorno dos seus excessos girinos.
Depois não digam que não estavam avisados porque passaram a tarde a dormir...

Publicado por sharkinho às 09:48 PM
A POSTA TEASER

Grraurrr...
Publicado por sharkinho às 08:38 PM
MANIAS DE INQUILINO
Ele tem toda a razão. Não tinha visto a coisa sob essa perspectiva, mas vendo bem as coisas um gajo paga a renda e às tantas sente-se no direito de centrar em si as atenções da vizinhança que o lê.
O que vale é a gente no fundo até sabermos que ninguém liga pevas a esta porra (ou não acredita na maior parte), sobretudo quando percebem que o dono tem tiques de narciso.
E até nos desculpam esse pecado, se conseguirmos, com todo o jeitinho, retocar bem as palavras feitas pétalas para compor um ramalhete digno de figurar numa jarra quiçá um nadinha vaidosa mas assumidamente comum.
Publicado por sharkinho às 05:55 PM
A POSTA NO MELHOR DE MIM
Foto: shark
Como uma linha ténue a separar de forma precária o delírio sonhado e a realidade possível. Como um fio de cabelo a sustentar todo o peso do mundo, tenaz, persistente, mas incapaz de suportar o alongamento forçado, o prolongamento teimado de uma fé difícil de concretizar.
Assim são algumas ligações entre os extremos que as pessoas representam em qualquer tipo de relação. A boa intenção, esforçada, a coragem animada pelos momentos excepcionais que conseguimos, se quisermos, esculpir na rocha em que a vida se transforma quando se cruzam caminhos que os mapas celestiais traçam noutra direcção.
Enfrentamos a dureza da provação, convictos da emoção que nos fortalece e empurra de carola contra os escritos, contra as certezas predestinadas e as estradas desenhadas para cada um percorrer à sua maneira. Sem eira nem beira, metemo-nos ao caminho e avançamos. Sem medo dos atalhos e dos desvios que nos atraem para corridas quantas vezes impossíveis de ganhar.
É que o segredo não está nas vitórias que se consigam, duvidosas, mas na experiência que as memórias consolidam, lições vividas na primeira pessoa e absorvidas com sofreguidão.
Sentirmo-nos vivos, afinal. Sempre receptivos ao amor e às suas infinitas manifestações. Mesmo as que nos desorientam e perturbam, ao ponto de irmos longe demais no querer.
De peito aberto, destino incerto, balas perdidas num campo de batalha que é palco de vencedores. Os que as disputam, solidários e leais, respeitadores das regras essenciais, armados apenas com a determinação dos que não se aceitam resignados a uma espécie de estagnação que aos poucos se converte numa variante de paralisia emocional.
Feridas infligidas pelos disparos que o acaso adiciona, os perigos que se enfrentam sem hesitar em nome da paixão que se ergue como um estandarte orgulhoso nas mãos fortes dos soldados do amor-aventura, marginal por inerência. Até chegar, eventualmente, o obstáculo inultrapassável que funciona como o tiro fatal, o de partida para uma nova corrida cuja meta se revela mais viável de alcançar. A necessária cicatrização e braços dados com firmeza para ultrapassar a tristeza e lutar em conjunto por um futuro melhor, de costas voltadas na mesma direcção, o mesmo sentido para o erro cometido ou a simples constatação da inevitabilidade de algumas decisões adiadas em nome da união impossível de dissolver.
Nova esperança a renascer em cada instante com uma pessoa importante ou decisiva até.
Amores atinados, amizades especiais, adorações que se compatibilizam depois de refinadas pelo tempo e de acertadas como relógios interiores. Sorrisos marotos perante os espíritos garotos que nos conduzem à cedência aos impulsos primordiais, sem arrependimento ou desilusão, sem constrangimento ou acto de contrição.
Simples e natural, como qualquer amor que se preze, capaz de assumir um novo rosto perante o sol posto e de abraçar com vigor cada alvorada a seguir.
O fio a partir, substituído pelo cordame de caravelas, pela resistência inquebrantável que a cumplicidade pode oferecer à erosão sofrida por qualquer ligação sentida como um bem a estimar, como um caminho a conservar intacto. Terra batida pelos passos a dois e a vida depois a partilhar-se no asfalto das certezas e do resultado final da aprendizagem dessa lição estudada em romances nascidos para espicaçar os sentidos e amadurecer as conclusões que sempre se extraem na ressaca de um turbilhão emocional.
Inúteis as veleidades alheias de lucrar de alguma maneira com um processo para durar uma vida inteira.
Porque existem laços indeléveis, compromissos indestrutíveis, vínculos tão sólidos por princípio que não há meio de lhes impor um fim. No pico da clivagem a sede de reciclagem para aproveitar o que de melhor permaneceu.
Cultivo relações de amor e de amizade assim, intensas e intemporais.
Só na morte lhes concebo os respectivos finais.
E nunca em vida lhes concedo de mão beijada o estatuto de alma penada na minha galeria de nomes inesquecíveis e de recordações perecíveis que conservo intactas na essência, cristalizadas numa versão da criogenia que o meu coração, com todo o carinho, construiu para albergar quem nele soube conquistar um espaço definitivo.
Está muito activo nestes dias, esse volátil pedaço do melhor que encontro em mim.
Publicado por sharkinho às 12:46 PM | Comentários (4)
maio 15, 2006
CAEM COMO TORDOS...

Foto: shark
...Os blogues individuais da “minha” blogosfera. E outros agonizam, funcionando aos solavancos para adiarem o fim anunciado.
Se isto indica uma tendência, o charco está a ficar obsoleto pela insistência.
Todavia, e sendo pouco provável o meu recrutamento para blogues colectivos ou alguma iniciativa minha nesse sentido, continuo a apreciar esta minha aposta a solo e os contadores alimentam a ilusão de que ainda existem alguns interessados no que tenha para dizer ou mostrar. É nestas duas vertentes que se baseia a minha teimosia contra a corrente.
Claro que de repente pode dar-me uma travadinha. Não seria a primeira vez.
Mas até chegar esse dia, em que me farte disto ou os factos comprovem que isto se fartou de mim, continuarei a recorrer ao charco para vociferar a minha ira, desabafar as minhas angústias, louvar os meus amores ou simplesmente partilhar convosco aquilo de que sou capaz no manusear das palavras e das imagens. Enquanto isso me der alguma pica.
E a vocês também.
Entretanto, continuarei a alimentar o fóssil com o melhor que consiga produzir para justificar o vosso tempo e a vossa atenção.
Cada vez mais metido comigo próprio. Cada vez mais marginal.
Publicado por sharkinho às 11:57 AM
Celebração

Interpreto os arco-íris assim como uma espécie de celebração da vida. Puros, simbolizam a perfeição da
cor, evocam dias felizes.
É assim que desejo que corra este teu dia. Com a luz de um arco-íris e o renascimento constante das Primaveras.
Parabéns, Shark. Mais um beijo.
Mar
Publicado por sharkinho às 09:56 AM | Comentários (18)
O QUE HÁ DE ERRADO...
...Em depositarmos demasiadas expectativas nas outras pessoas é garantirmos que chegará bem depressa o momento em que elas as defraudam.
Isso sente-se com particular intensidade quando nos apercebemos de que essas pessoas preferem alienar-se com uma rotina qualquer do que arriscarem transcender-se com algo de surpreendente em dias menos comuns.
É desagradável, mas é assim que aprendemos as melhores e mais eficazes lições que a vida nos dá.
Chamamos-lhe desilusão mas é de realismo que se trata.
Publicado por sharkinho às 09:00 AM
maio 14, 2006
A POSTA NO RITUAL DE PASSAGEM
Uma despedida de solteiro é um ritual que aprecio. Consiste, de facto, na última oportunidade para um gajo se arrepender antes que seja tarde demais para evitar despesas judiciais e outros transtornos futuros. Isto porque a ideia é oferecer ao candidato uma última visão da liberdade tal como a viverá antes de se deixar estrangular pelos sagrados laços.
Em teoria, claro, pois tudo parte do princípio de que ao casório corresponde uma espécie de pena de prisão (que se presume) perpétua.
Seja como for, é esse o espírito que anima a celebração e as coisas tendem a assumir proporções algo descontroladas, como se o nubente tivesse que experimentar todos os prazeres proibidos do mundo num prazo de 24 horas.
Por esse motivo, uma despedida de solteiro em condições tem que reunir alguns componentes fundamentais.
A abrir, sem hesitações, uma despedida de solteiro tem que ter gajas.
Isto explica-se por existir a estranha noção de que esse é um dos prazeres do qual o rapaz se verá privado. Pelo menos na variedade, pois se o pressuposto é amarrar-se a uma delas para a vida inteira, a falta de gaja implícita é uma falsa questão.
Ou seja, é a fidelidade (essa castração artificial e pouco eficaz que só serve para a malta olhar o matrimónio de esguelha) que se simboliza nesse acenar de um doce adeus à livre iniciativa na escolha de companhia para cada noite que se passa.
E assim é garantida a presença do mulherio na cerimónia de passagem a um novo estatuto social.
Outro elemento absolutamente essencial é a bebedeira, um must de qualquer evento desta natureza. O candidato deve ter ao dispor uma apreciável quantidade de álcool para alienar o fulano por forma a ele poder mais tarde encontrar uma justificação para a sua conduta imprópria. Os seus convidados também, para se inspirarem no sentido de ser proporcionado um momento inesquecível (e irrepetível) ao infeliz.
Assim sendo, temos mais um requisito sem o qual a coisa não funciona como tal.
Uma despedida de solteiro, apesar de constituir um símbolo do “falecimento” de alguém, não deve ter ambiente de velório. Ninguém (excepto algum invejoso pela surra) se mostra triste perante a desdita do protagonista. Antes se exibe uma alegria mal contida. Ou melhor, um gozo dos diabos por ver tombar mais um na esparrela. Isto, claro, na mentalidade popular mais comum. Tudo na brincadeira, obviamente, pois toda a gente sabe que depois do casamento fica tudo na mesma.
Adiante.
A animação é o terceiro elemento a constar do menu.
Por tradição, e é disso que se trata, o evento deve durar o número de horas suficiente para que o noivo chegue a casa a uma hora que depois de casado não seria tolerada. Às quinhentas, de preferência depois do nascer do sol (embora isso dependa do calibre de quem participa na festa e do rumo mais ou menos intenso do acontecimentos).
Este detalhe visa abrir os olhos ao entusiasta para o fim das noitadas de predador solitário. Na sua última noitada sem um preço a pagar no regresso a casa.
Fica bem patente neste item a crueldade inerente a qualquer despedida de solteiro, concebida para enfatizar os aspectos teoricamente negativos associados ao importante passo em vista.
Apesar de bêbedo (regra geral), o rei da festa absorve e interioriza estas perdas e não são raros os sorrisos amarelos e as engolidelas em seco quando, com uma loura numa perna e uma morena na outra, o visado se confronta com a temível questão:
Tens mesmo a certeza de que te queres meter nisso?
Normalmente não se arrependem nessa altura, muito próxima da data fatal, mas mais tarde um nadinha.
É que outro dos instrumentos dos algozes que participam neste episódio de tortura psicológica (e física também) passa pelo próprio facto de a despedida de solteiro se verificar quando já pouco ou nada há a fazer. Igreja marcada, restaurante reservado, convites enviados. Toda a máquina em marcha, imparável sem o recurso a medidas radicais. Sim, porque nem o adiamento constitui uma opção para a “vítima”, sob pena de se ver trucidado pela reacção furibunda dos pais, dos futuros sogros e, acima de tudo, da sua determinada cara-metade.
Resta ao jovem aceitar as consequências da sua decisão, mesmo que a despedida lhe prenuncie um horizonte com alguns temporais a enfrentar. Porquê? Porque nenhum gajo no seu perfeito juízo encaixa na boa essas privações que lhe serão impostas.
Com maior ou menor arte, com maior ou menor frequência, darão mais tarde conta do call of the wild de filhos da madrugada.
E as madrugadas a sós são, como qualquer um sabe, recheadas de tentações...
Todo o ritual acaba por assumir o papel de excelente pretexto para uma farra até partir, com os próprios convivas a obterem ordem de soltura (ainda que casados) para uma espécie de trégua justificada, e para sublimar o cariz de fruto proibido a todos os pecados fora do alcance (no âmbito do compromisso a assumir).
É curiosa, esta manifestação do culto de prazeres gratos a qualquer indivíduo apenas com o objectivo de o alertar para o impacto da sua perda. No fundo, para o estimular no sentido da prevaricação futura (de resto, muito tolerada por uma apreciável faixa da população).
É que ninguém pode alegar desconhecer as características masculinas mais comuns quando decide acreditar no milagre do amor capaz de transcender a natureza humana nesse particular.
Só por milagre, convenhamos…
E é este o resultado do meu trabalho de campo deste fim-de-semana, em mais uma das muitas e variadas despedidas de solteiro em que tive a sorte de participar. Umas mais arrojadas, a roçar o deboche, outras mais moderadas, com menos excessos e uma transmissão do conceito com contornos mais subtis. Todas são excelentes (e bem esmifradas) oportunidades para o vosso amigo esqualo se revelar na sua dimensão exageradamente festiva.
E no próximo fim-de-semana, o fim anunciado da boa vida de mais um.
Outra magnífica ocasião para desgraçar o corpo e a carola do vosso amigo tubarão…
Fotos: shark
Publicado por sharkinho às 11:09 PM | Comentários (0)
maio 13, 2006
DIA ESPECIAL
Foto: sharkinho
Parabéns, Mar.
Conta muitos e passa um dia mágico nessa tua terra santa.
De onde estiver, enviarei muita energia positiva para que passes um ano mais à maneira do que este que agora se completa e no qual gostei muito das parcelas que tive o privilégio de partilhar ao longo deste período da tua existência.
Que sejas bem feliz neste e em todos os aniversários do futuro, pá!

Foto: sharkinho
Publicado por sharkinho às 12:00 AM
maio 12, 2006
A POSTA NAS FOTOGRAFIAS
Porque amanhã é um santo dia para mim, tomem lá um lençol de imagens.














Fotos: sharkinho
Publicado por sharkinho às 04:54 PM | Comentários (13)
PAGO A PRONTO (Repost)

Queria que a verdade prevalecesse. Integra, total. Não gosto de meias verdades e encaro como repugnantes as mentiras por omissão ou as mentiras piedosas que se utilizam para escamotear as realidades que queremos ver escondidas no fundo do baú. Como em qualquer mentira, afinal.
Não entendo porque fugimos como coelhos assustados para uma toca qualquer, sempre que não conseguimos enfrentar as consequências do que fomos na interpretação do que somos e do que afirmamos ser. Não entendo porque hipotecamos a confiança dos outros por medo das nossas revelações. E nem quero entender.
Queria apenas que a verdade servisse em todas as ocasiões e não apenas nas que nos servem qualquer propósito, legítimo. Queria que as mentiras e as omissões não minassem a confiança total que gosto de depositar nas pessoas, não me obrigassem a todo o instante a analisar incongruências e a pedir para elas uma justificação. Que chega trapalhona, envergonhada, camuflada num lapso de memória que alivia o desconforto de quem prefere fugir.
Queria que a coragem andasse de mãos dadas com todo o tipo de emoções. A verdade surgiria como uma consequência natural, pois a mentira e a sua amiga omissão servem apenas como tábuas de salvação efémeras para o que a vida se encarrega de descobrir, depois. Por acaso, ou talvez não...
Queria que os outros não receassem arriscar, que apostassem na minha lealdade, na minha capacidade para ser o fiel depositário de todos os seus medos, de todas as verdades temidas que só não corroem quando expurgadas, quando contadas a quem as mereça e saiba ouvir. As mentiras, como as omissões, posicionam-se num espaço negro da nossa consciência e envenenam-nos as reacções. Ficam demasiado próximas da traição.
Queria que as coisas acontecessem com espontaneidade, coerentes, frontais. Que as peças do puzzle não fossem apenas pedaços mal encaixados pelo esforço inútil do meu raciocínio ou da minha imaginação. Queria a confiança dos outros para lhes poder provar a minha, sólida e incondicional.
Tenho para mim como certa uma vida feita de utopias, de ilusões, de histórias mal contadas que me induzem à desconfiança e ao temor.
Nunca saberei perdoar a quem algum dia me enganou, nos pequenos detalhes como nas coisas relevantes. Não sei perdoar a cobardia nem recuperar a confiança que me escamoteiam.
Não sei entregar-me às prestações.
Publicado por sharkinho às 11:25 AM | Comentários (10)
A POSTA COBARDE (Repost)

Às vezes as pessoas surpreendem-me. Às vezes não. Existem formas de identificar nos outros as hesitações que contrariam a sua vontade expressa, aquilo em que apenas anseiam acreditar.
Mas não acreditam de facto, pois não arriscam. Os riscos que corremos são uma bitola para avaliar a força das nossas convicções. E das nossas paixões. Se não arriscamos, é porque não acreditamos nas hipóteses de sucesso da nossa empreitada ou não confiamos nas certezas apregoadas na primeira pessoa.
Eu admiro as pessoas corajosas, as que são capazes de assumirem o que dizem, de fazerem aquilo a que se propõem. Sem medo nem meias tintas ou mensagens subliminares, arriscando de facto. Admiro-as e também gostava de me ver assim. Como gostava de o ver noutras pessoas. Não é bem assim e isso acaba por se amplificar nos meandros da blogosfera, onde podemos dizer tudo mas recuamos perante o papão da opinião de terceiros, condicionamos a nossa liberdade de expressão. E podemos induzir em erro as outras pessoas.
Não sou melhor do que os outros nesse aspecto. E também tenho momentos de hesitação. Mas quando me decido, avanço e fico a aguardar as repercussões. Nem sempre são agradáveis, as repercussões. Podem até implicar sérios riscos de perda, a níveis bem reais, exteriores a este mundo à parte que construímos a cada instante.
Contudo, os riscos existem para aprendermos a enfrentá-los. Precisamente na medida dos valores em causa, da nossa coragem ou da nossa determinação. E essas não se avaliam pelas nossas palavras mas pelas nossas acções (as palavras também podem agir).
A blogosfera empurra-nos para as entrelinhas, para as mensagens cifradas que dizem tudo sem nada esclarecer. Quem quiser que adivinhe.
Às vezes não pode ser assim.
Para não dar margem a equívocos, falsas esperanças e futuras desilusões. Para afirmar o que somos, aquilo em que acreditamos. Para definir perante os outros as regras do jogo que entendemos aplicar, num dado momento e em circunstâncias especiais. Se são mesmo essas as que queremos jogar e não alimentamos fantasias ou ilusões nos bastidores da nossa intenção.
Gostava de seguir por esse caminho, mas tenho que alinhar pela bitola mais comum. Não por medo do risco, mas pelo sentido das proporções, do equilíbrio que deve existir entre as apostas de cada um. Nem todos sabem merecer essa frontalidade que afinal mesmo a blogosfera desmascara como mera utopia. Salvo raras excepções. E nem todos a sabem enfrentar.
Por isso esta posta não é corajosa, embora diga o que me vai na alma e pretenda deixar tão clara quanto possível a ideia que tenho tentado transmitir por outras vias. Quem viu já sabe. Quem não viu já tem forma de o saber.
Acho que assim fica tudo dito na mesma.
Publicado por sharkinho às 11:12 AM | Comentários (2)
PRISIONEIRO DA SOMBRA (Repost)
Foto: sharkinho
Aberrante, aquele local parecia encaixado no cenário com o único propósito de realçar a pobreza franciscana da paisagem que o rodeava. O mar ajuda sempre a compor o boneco, mas a zona primava por uma esterilidade que se reduzia a um aglomerado disperso de calhaus negros e sem vida, até onde a vista alcançava solo firme. Excepto ali.
Tão disparatado como um oásis no meio do areal sem fim, o arvoredo explodiu de entre o tapete de rocha e recreou umas centenas de metros quadrados de paraíso, na única mancha verde visível a quilómetros, para além do próprio mar em dias de muito sol.
Aquela zona costeira não fazia parte do florescente litoral que atraía muitos estrangeiros para o país. Sem praias, com um clima hostil, como se a natureza aproveitasse aquele espaço para ensaiar as punições com que tentava vergar a soberba humana, pouca gente tendia a fixar-se em tais paragens.
Mas sempre houve quem buscasse no inóspito a resposta para as perguntas que o comportamento dos outros nos suscita e na solidão a paz que as multidões parecem nunca conseguir conservar. É desespero de causa, a fuga enganosa para um ermo assim.
Todavia, algures no século XVI, umas quantas famílias plantaram um conjunto de casas à beira da falésia, determinadas ninguém sabe pelo quê a criarem raízes por ali. Como as árvores surgidas do nada, inclinadas para terra como que sopradas pelo mar. Mas era o vento que as empurrava a todo o tempo, o mesmo que trouxera um punhado de gente apenas com o propósito de fugir. De quê, ninguém sabe. Nem nos registos mais antigos, quase dos dias do primeiro lote de povoadores, se encontrariam referências à verdadeira motivação do grupo de pioneiros que escolheram desbravar a aridez de uma terra por baptizar.
Baptizaram-na uns cinquenta anos depois, quando a décima habitação construída, mais uns barracões para resguardo dos artefactos de pesca, lhe justificaram um nome. Vila Aparecida. Do nada, deveriam acrescentar, agora que o tempo passado sobre a data da fundação já permite extrair a mais clara das conclusões: ninguém quer morar num sítio assim.
Continuam a ser poucos os que ficam, excepção criada apenas pelo grupo de pessoas associadas à manutenção do velho e quase inútil farol. Algum iluminado cacique impingira, no glorioso ano de 1834, a ideia de proteger a navegação dos temíveis rochedos que haviam despedaçado, no ano anterior, o casco de um importante galeão. Saíra cara à Coroa a factura daquele naufrágio, tão cara que justificaria a construção do mais imponente e absurdo farol da história da nação.
Ninguém navegava em águas tão hostis. Apenas umas quantas embarcações desnorteadas, fustigadas por um temporal, que o mar decidia empurrar naquela direcção, de nada lhes valia a luz intensa que anunciava a presença próxima da morte, dada como certa naquela armadilha de rochas afiadas e letais. Vila Aparecida era nome de maldição entre os velhos lobos-do-mar. Sobretudo os poucos da terra que sobreviviam à faina impensável que insistiam manter, gerações de homens tragados pelo oceano, fama de bravos e insanos que pouco proveito extraiam das águas revoltas com barquinhos de brincar. Servir-lhes-ia de algum consolo a luz não muito distante, ilusão de salvamento que raramente chegava a acontecer.
Na falésia, afogavam-se em lágrimas as viúvas condenadas a mirrarem sozinhas, ressequidas pela salmoura que o vento trazia das ondas e borrifava no casario.
Podia ler-se, numa crónica muito antiga de um pároco local, a história de um menino que todos os dias rumava para o amontoado de árvores, pouco antes do nascer do sol, à procura de uma caravela que o levasse dali. Vira uma, em pequeno, que acabaria desfeita em pedaços de madeira espalhados à tona. Teria sido tão grande o desgosto que o petiz chorou, afirmava o escriba insuspeito, uma semana seguida. Depois, parou de chorar. Quem por ele choraria, dez anos passados sobre a primeira tragédia, seria a mãe que o viu deitar-se ao mar em perseguição alucinada de um barco distante que só ele descortinara no breu. Era tão irreprimível assim a sua vontade de fugir. O corpo do rapaz nunca regressaria e, por indicação dos religiosos e dos políticos locais, acabaria por se erigir outro mamarracho na falésia sob a forma de uma diminuta capela. Um mausoléu, para espantar assombrações, tal e qual o velho farol agora em ruína...
Sentado na copa de uma árvore vergada, tento imaginar a figura do menino cujo trauma lhe cristalizara na alma a vontade de sair dali, olhando o mar em silêncio à procura de recortes mais escuros ainda do que o horizonte habitual. De sombras da esperança de um dia partir.
E recordo outro menino que eu fui, diariamente ao pôr-do-sol, à espera das estrelas no céu que simbolizavam a minha própria vontade de fugir, o destino alternativo à miséria de vida que me esperava ali. Naves espaciais pilotadas por mim. Ou discos voadores com pequenos marcianos que me sabiam disponível e preparado para a longa viagem. Só de ida, que o regresso não seria hipótese a considerar.
Nunca apareceram, os alienígenas ou os meus talentos inatos de explorador espacial. Mas não tive a coragem e a loucura necessárias para me catapultar da falésia rumo ao céu estrelado e ao sonho de recomeçar a existência num melhor ponto de partida. Optei pela resignação. Aprendi a arte de iluminar o vazio, sempre que surge uma verba para reparar o obsoleto mecanismo do facho que desvenda aos escassos habitantes de Vila Aparecida a realidade do seu cativeiro. Como o holofote sinistro de um campo de concentração, sem nada de bom para iluminar.
Destilo as amarguras de faroleiro frustrado na noites inúteis de vigília do vazio.
Todavia, e isto desconcerta-me, quando a máquina suspende os gemidos de angústia por lhe prolongarem a agonia, aproveito a folga forçada e a luz apagada para olhar em frente e na minha mente permitir que desfilem os contornos difusos, as sombras da minha ilusão de fugir um dia, escondidas por detrás da minha vontade rejeitada de viver num lugar triste mas ao qual sempre senti (e sei) realmente pertencer.
Publicado por sharkinho às 08:34 AM | Comentários (1)
maio 11, 2006
SE POR OCASO OLHAREM PARA CIMA...
...Não serão os únicos a apreciar o espectáculo.
Fotos: sharkinho
Publicado por sharkinho às 11:57 AM | Comentários (2)
MONÓLOGO DE SURDOS

Ouço lá fora o ruído e quase me sinto compelido a pousar a espátula na parede de tijolo que se ergue em meu redor. Parece que nada aprendi ao longo de um caminho traçado como uma recta descendente entre dois pontos finais. Parágrafo no coração, ou reticências, talvez...
Hesitações nascidas sob os alicerces da parede que concebi como uma trincheira, plantas teimosas que até por entre o cimento insistem brotar. O meu arrependimento em busca de salvação, na respiração por clorofila, na exposição ao sol que espreita sobre o buraco do telhado por construir. Verde como a esperança que insisti demais.
Ouço lá fora o silêncio, agora que o muro me veste como uma segunda pele. Mais fria, mas hermética. Mais sólida, mas inestética. Uma fronteira para bloquear quaisquer intrusões e bombardear todas as desilusões que possam quebrar de novo as defesas. Uma fortificação.
E eu na guarita, sentinela à espreita de um exército de pérfidos papões que agora combaterei invulnerável no interior da minha armadura de betão. O apelo da construção sem ambições, do caminho sem tropeções, a partir das ruínas de uma torre de papel. Saudade do mel na memória dorida da picada de um ferrão. Contradição.
Hasteio nas ameias o estandarte da minha anuência.
E quando terminar a experiência, demolirei sem demora o baluarte da minha estupidez.
Publicado por sharkinho às 09:49 AM | Comentários (0)
ESTE ANO

E por isso não fui convidado para a festa.
Publicado por sharkinho às 09:35 AM
maio 10, 2006
DO QUE PRECISAVA HOJE SEI EU...
Foto: sharkinho
Publicado por sharkinho às 12:10 PM | Comentários (5)
maio 09, 2006
AMOR PALAVREADO

Foto: sharkinho
Fujo das palavras que nos descrevam, sinceras, por temer lançar às feras a carne que me apetece escrever.
Persigo em vão as frases adequadas, sempre que percorro as tuas nádegas com a sofreguidão de um olhar em busca da salvação na linha do horizonte que ocupas por inteiro. Está em ti o meu milagre, onde a vista se estende ao comprido na planície de lençóis onde serpenteia o teu desejo cor da pele como um rio incandescente de lava e de mel.
Um corpo ardente, gasolina para a fogueira em que me transformo quando espalho sobre ti a minha epiderme arrepiada, ao rubro pela fricção. E na verdade descubro em mim a vontade de te amar assim, nas mais altas temperaturas, emoção em queimaduras de terceiro grau ou mais além.
Quase enlouqueço pela tua loucura, quase me esqueço no tempo que dura o tempo perdido à espera da próxima vez em que tua voz gritar que somos nós a amar e que o mundo deve quedar-se em respeito. Do lado de fora do círculo de chamas que nos isola para evitar a propagação que as palavras podem representar.
E eu calo o que sinto e o que sei, os momentos em que te amei, a toda a hora, pudesse e estamparia para a posteridade a nossa intensa realidade num desenho esboçado a carvão.
Mas escapa-me a atenção e imobilizo-me a observar, sem nada desenhar (que não sei) e são palavras o que sempre escutei na ansiedade de fazer justiça à tua importância no meu modo particular de querer libertar a felicidade que aprisionas no silêncio a que me obrigo para nossa protecção.
É quase um castigo, esta ode reprimida, esta espinha atravessada bem perto do coração que pode furá-lo como um balão e desencadear a hemorragia que adivinho se um dia o nosso caminho nos conduzir o futuro para diferentes bifurcações.
As palavras são como tesouras pontiagudas, não se querem armazenadas para utilizações vindouras em espaços onde a vida se sente e se pensa mas não se faz, fragilizados pela pressão do mutismo forçado. Porque as palavras magoam se forem caladas, quando se sentem atraiçoadas por conhecerem a liberdade tarde demais para salvarem um amor que entretanto adormecido ensurdeceu.
Acorda sobressaltado com o grito abafado de um orgasmo por entre os dedos ou na palma de uma mão pousada com carinho na tua boca. E depois as palavras à solta, endiabradas e frescas, a espalharem à nossa volta a espuma refrescante de um extintor, na sua irredutível certeza de que o amor que se fez é igual ao que se alimenta, aquele que se deveria escrever sem falta, uma emoção avessa à intrusão de quem não sabe ler nas entrelinhas a exiguidade do seu espaço de manobra.
Aquilo que sobra são restos feitos palavras que se conservam para apreciar depois, num sarau feito a dois onde a língua é soberana e a leitura não é espartana nas respectivas consequências.
São espalhadas por aqui, as palavras de amor, como tartes numa janela à espera de arrefecerem.
É favor não mexerem.
(Arde sem se ver mas queima a doer…)
Publicado por sharkinho às 12:27 PM | Comentários (6)
maio 08, 2006
PUS-ME A OLHAR O CÉU
E isto foi o que vi.
Fotos: sharkinho
Publicado por sharkinho às 10:39 PM | Comentários (4)
A POSTA DE SEGUNDA

Atirou-se à pequena multidão que sobrelotava a carruagem com a gana de um jogador de futebol americano. Entrou à justa, pouco antes de se fecharem as portas nas quais o seu corpo se espalmava com a pressão dos outros corpos em excesso.
Tentou lutar por um pouco mais de espaço naquela confusão de cheiros, de ruídos e de vidas apertadas num ciclo infernal. Com jeito e educação, perante os que se mostravam simpáticos e bem intencionados, e à cotovelada, impondo o corpanzil, quando se confrontava com a renitência ou com os maus modos de alguém.
Entretanto, o comboio não partia da estação. Algum azarado esperneava entalado um pouco mais adiante e o maquinista apercebera-se da situação, adiando a viagem para outro ponto onde mais gente aguardava (agora em vão) uma boleia para a aflição de esgotar as horas num emprego de merda qualquer.
E ele, com dificuldade na respiração, insistia em fincar os pés no chão e procurava desesperado algo a que se agarrar. Adivinhava a solução para o problema, a reabertura das portas, e calculava as escassas hipóteses de conseguir manter-se no interior da carruagem se tal viesse a acontecer antes que tivesse a sorte de avançar uns centímetros e de se agarrar ao lugar como uma lapa.
O murmúrio dos resmungos começava já a apoderar-se dos utentes atrasados quando as portas se reabriram.
Aflito, sentiu os pés perderem o contacto com o piso à medida que a mole humana adquiria vida própria e reagia ao excesso de passageiros como um corpo a uma infecção. Alguns mais afoitos, os que se viam encostados à força contra o lado oposto da composição, fixavam as mãos onde podiam e faziam força para trás até a força se propagar aos que lutavam pela permanência mas não haviam obtido um posicionamento favorável para a assegurar.
Era o seu caso, incluído no lote dos que, mais perto da porta, assumiam o estatuto de outsiders naquela batalha pelo espaço vital na vida em hora de ponta. Naquele instante sentiu-se a mais na vida das outras pessoas, desanimado pela sucessão diária de uma estranha guerrilha urbana que se impunha pela sede de conquista de um espaço seu no meio da confusão.
A sobrelotação que tudo e todos lhe faziam sentir. A mulher em casa que o convidava a sair. O patrão que ameaçava despedir. Os amigos que já não o contactavam, saturados da sua depressão e respectivas consequências. A ausência de uma solução, escorraçado como um cão. A mais, na sua ideia e nas reacções do mundo inteiro mais o céu, anónimo na angústia e entregue à solidão.
Infeliz, aceitou o estranho clique que se produziu no recanto qualquer da sua mente enfraquecida ou do corpo saturado de lutar.
Deixou-se arrastar para fora, colaborou até.
Percorreu o cais em direcção à dianteira do material circulante que o rejeitara como saliva alheia, cuspido à bruta para o exterior. Depois parou, alheado do sururu que se instalara junto do utente entalado pela porta e que se recusava a abandonar a sua vaga, perante a indignação dos felizardos lá dentro.
Ficou especado a mirar os carris, perigo de morte, anestesiado pela dor do seu estatuto de suplementar em todas as dimensões da sua vida que parecia contrariar a das outras pessoas. Sempre a mais no cenário, como uma verruga maçadora e dispensável no quotidiano de quem partilhava o seu tempo e lhe aturava a existência atormentada pelos fantasmas interiores. E também pelos de fora.
A vida parecia mandá-lo embora, farta de lhe amparar a queda livre, o mergulho no vazio de uma consciência alucinada, largada ao abandono diante do precipício mais à mão. Gritava apelos, pedidos de ajuda, mensagens em garrafas na doca seca de um monólogo. Ninguém as recebia, ninguém o percebia, cada um por si na guerra do costume. Sem espaço nem tempo para (mais) um maluquinho, outra vítima da doença social.
Era um excedente, afinal. Dispensável, como se sentia, incapaz de alinhar na tendência e de se deixar levar pela corrente de gente cada vez menos próxima pelos efeitos perniciosos da sua contestação ao que lhe parecia mal na sua perspectiva desenquadrada.
Era circular o raciocínio e parecia destinado a conduzi-lo como uma marioneta a um desfecho sem nexo, a uma forma de extinção abrupta da sua presença no seio de uma realidade tangível na qual a sua presença era apenas virtual. Um pé dentro e outro pé fora da vida, um passo simples a dar para tudo acabar de uma vez. As palermices que fez e o preço alto a pagar pela sua condição excedentária, detalhada nas facturas que da vida recebia pela mão dos outros que incomodava. A felicidade que atrapalhava com as suas questões, com a sede de saber o que se passava em si de tão perturbador para as outras pessoas.
Quando o comboio partiu, resolvido o problema, ficou parado a olhar para a escada rolante em direcção à saída para o exterior. Depois olhou para o relógio e calculou que ainda conseguia chegar a horas à repartição.
Pousou a mala no chão e concentrou-se nas paredes do túnel onde a luz dos faróis já anunciava uma nova oportunidade para embarcar, a fornada seguinte sobre rodas, a caminho de um destino traçado pelas reviengas do passado que a maioria não deixava de lamentar.
Encheu o peito de ar e preparou-se, como qualquer cidadão, para efectuar a melhor abordagem à situação. Reservado o seu espaço à distância do próximo passo.Com calma e sabedoria, baixando a fasquia que colocara demasiado elevada, mas ainda assim muito perto do céu.
Pouco tempo depois, quando o comboio entrou na estação, já sabia por antecipação que um lugar seria seu.
Publicado por sharkinho às 11:04 AM | Comentários (9)
ENQUANTO NÃO SAI UMA POSTA...
...Aproveito para vos recordar, sobretudo aos que apreciam fotos, que está em funcionamento o "blogue de apoio" do charco. LX ZONA ORIENTAL é o nome que indica o propósito, divulgar imagens que são a minha visão da zona onde acontece o meu dia-a-dia analógico.
Este novo blogue surge na sequência do encerramento da Casa de Alterne, substituindo-a na vertente "fotoblogue" que animava o espaço nos últimos tempos.
Espero que apreciem e que adquiram uma nova perspectiva acerca da zona oriental alfacinha e respectivos arredores.
Boa semana!
Publicado por sharkinho às 09:20 AM | Comentários (0)
maio 07, 2006
OVIVEJA SÓ MAIS ESTAS
Fotos: sharkinho
Publicado por sharkinho às 08:33 PM | Comentários (10)
UM DIA MEU

Se bem me recordo, não faltaram vozes a desdenhar e a contestar a existência do Dia da Mulher (que o charco assinalou). Aposto que não encontrarei pela blogosfera o mesmo número de contestatários(as) relativamente ao Dia da Mãe que hoje se comemora.
Os dois dias estão ligados à Mulher e ao seu papel vital na vida como a experimentamos, mas só o primeiro parece mal amado pelas suas implicações em matéria de descriminação positiva que lhe associam.
Nesse caso, o que faz a diferença?
À primeira vista, nada. Excepto o facto de existir um Dia do Pai e não se comemorar o Dia do Homem, o que equilibraria a parada e retiraria a carga pejorativa de um dia especial para mim (por celebrar o melhor do mundo na minha ideia).
Assim se vê o quanto as mulheres nos apreciam, não sendo poucas as que se insurgem contra essa efeméride sexista. E pelos vistos, essa é a sua forma de pugnarem por um direito masculino que ninguém cuida de respeitar.
Eu, como qualquer pessoa, comemoro as efemérides que me der na bolha e ignoro as que nada me dizem e sobretudo quando nem estão associadas a um feriado à maneira.
O Dia da Mãe é um desses dias a que atribuo um significado especial. Pelos meus motivos e não pela interpretação da maioria.
Eu não comemoro apenas uma mãe (a minha), mas todas as mães dignas desse nome. As que quantas vezes se vêem forçadas a cingirem a sua existência ao papel de mãe, deixando a mulher de fora.
Uma mãe serve o melhor aos filhos e só depois se preocupa com a sua parcela, a que resta. Uma mãe abdica de um grande amor da sua vida em prol da garantia de uma vida melhor para as suas crias. Uma mãe é capaz de se dar à morte, sem hesitar, se em causa estiver a sobrevivência da sua prole.
Uma mãe, na maioria dos casos, vive até ao último dos seus dias preocupada com o destino dos seus filhotes mais do que com o seu.
Merece bem o seu Dia, tal como o justifica enquanto mulher capaz de gerir uma existência sob os condicionalismos que o nosso tempo (ainda) lhe impõe.
Sou um apreciador de mulheres, mas confesso-me particularmente entusiasta das que são mães. Sem desprimor das que não p