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junho 22, 2006

A POSTA FUMADA

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FUMAR MATA

Antes que os/as moralistas do costume avancem com os seus argumentos estafados de antitabagistas primários/as, de ex-fumadores/as convictos/as ou de vítimas passivas do fumo alheio cumpre-me esclarecer que considero o acto de fumar uma estupidez.
Podemos arranjar mil e uma atenuantes e outras tantas justificações: enfiar fumo carregado de agentes cancerígenos pela boca de forma voluntária é uma tolice e ponto final.

Ou seja, não defendo o tabaco como não defendo a minha inocência enquanto vítima da ausência de informação acerca dos malefícios da coisa quando, aos catorze anos de idade, decidi embarcar neste vício medonho. Hoje sei o que me pode esperar, só não paro se não quiser e apoio todas as medidas que tomarem para evitar que mais palermas adiram a esta pequena insanidade.

Agora que estamos esclarecidos quanto à minha posição no assunto, passo a explicar-vos porque insisto em fazer o papel do advogado do diabo nesta matéria.


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CONDUZIR MATA

Passei as minhas férias numa unidade hoteleira espanhola na qual é proibido fumar em toda a parte menos nos quartos e no exterior. Nos quartos a malta praticamente só dorme, pelo que só na rua (ou quase) é concedido aos fumadores o direito à sua forma mansa de suicídio. Em dias de frio e de chuva, confesso que me sentia um nada estúpido quando partilhava um pequeno espaço coberto no exterior com os restantes viciados enquanto os outros, os puros, nos observavam com expressões de piedade pelos coitadinhos dos asnos.
Não é uma pele fácil de vestir e logo dei início às minhas sistemáticas transgressões de todas as normas que me soam excessivas.

Tal como a coca-cola e o mcdonalds, que dão cabo da saúde aos nossos putos, os americanos foram os pioneiros do disparate antitabagista que agora alastrou à Europa. Não sei o que lhes deu, mas de repente o tabaco tornou-se num alvo prioritário da legislação dos Estados Unidos e agora está a assumir o mesmo cunho na Europa.
Isto a propósito da discussão pública da lei que o Governo prepara para restringir ainda mais os movimentos dos fumadores e que inclui a brilhante ideia de reforçar os maços de tabaco com fotos chocantes de cadáveres e cenas assim.
Não quero que a minha filha siga o meu exemplo, mas não gosto de a saber exposta a imagens de terror que são proibidas no cinema ou na escola mas passam a ser impostas pela lei em qualquer ponto do país. Nos maços de tabaco que nos querem obrigar a esconder.

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BEBER MATA

Isto deixa-me perplexo, pela morbidez e pelo exagero. Mais ainda do que a ideia peregrina, entretanto abandonada, de transformarem os donos de bares, restaurantes e cafés em polícias do vício, multando-os pelo incumprimento por parte de terceiros, como eu, que não se importam de arriscarem eles próprios a coima em causa. Arriscarei, em mais do que uma ocasião, e aceitarei as respectivas consequências. E se não pretendo enviar baforadas arrogantes de fumo para cima do comensal da mesa do lado ou acender cigarros em espaços fechados na presença de mulheres grávidas ou de crianças pequenas, não contem comigo para, por exemplo, abdicar do meu lugar estratégico junto da janela por onde expelirei o fumo branco da discórdia. Proibido ou não, é assim que farei e assumo a desobediência implícita nesta afirmação.

A hipocrisia preside a esta força que os Estados aplicam invocando a preocupação com a saúde das pessoas, sobretudo as que não fumam. Mas se hostilizam tanto as tabaqueiras e os que as sustentam, porque não se tornam tão rígidos relativamente à indústria automóvel e os seus inseguros caixões metálicos que são responsáveis pela maior fatia da poluição? Eu sou um inalador de fumo de escape passivo e não me vêem reclamar que todas as viaturas automóvel tragam nas portas fotos de cadáveres estropiados em acidentes de viação ou de moribundos com doenças dos pulmões. Ou que proíbam a circulação automóvel fora das auto-estradas…

A maior causa de morte em Portugal são as doenças do coração, na sua maioria provocadas pelos venenos que a alimentação inclui. Então porque se preocupam tanto, sei lá, com o tipo de galheteiros que usamos e não cuidam de estampar nas embalagens de sal, em letras garrafais “O SAL MATA” e vão seguindo esse critério com tudo o que prejudica as pessoas mas continua disponível no mercado para comprar e usar quem quiser?
É que estas leis idiotas visam apenas, como no caso da criminalização do consumo de drogas leves, marginalizar cidadãos. Vergá-los pela vergonha, pelo ostracismo a que são votados pelo seu comportamento ilegal.

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TRABALHAR MATA

Perdi a vontade de voltar a casa de amigos que torceram o nariz quando no final de uma refeição me encaminharam para a rua, a varanda quando a tinham, para fumar o mais indispensável dos cigarros para qualquer fumador. Mesmo em salas amplas e bem ventiladas, os anfitriões preferiram interromper um diálogo importante ou agradável e banirem da mesa um convidado do que abrir excepções ao seu rigor normativo. Por causa do cheiro, alegam, que se agarra às paredes e incomoda-os (mesmo que tenham passado a infância no convívio com pais fumadores).
E nos carros, a mesma merda. Só te dou boleia se conseguires não fumar. Chantagem pura, que deriva da moral que o Estado pretende agora aplicar com mais acutilância como algo de correcto a fazer. Prefiro andar a pé.

E recuso-me a fazer o papel de doninha fedorenta, tal como sou livre de escolher os espaços onde convivo com alguém e de reclamar legislação que obrigue as tabaqueiras a reduzirem o teor cancerígeno dos seus produtos e as unidades hoteleiras a investirem em sistemas de exaustão de fumos que permitam aos fumadores (que também lhes sustentam os negócios) terem sempre um sector onde não tenham que dar cavaco a ninguém pela sua opção parva.
E se querem mesmo impor a moralidade, vamos então comparar o teor da legislação antitabagista com a que se aplica às unidades industriais (as que poluem e as que fabricam géneros alimentares carregados de “E-qualquer número”, daqueles que nos mandam na mesma para o IPO mas não são proibidos nos restaurantes, nos supermercados ou seja onde for).

A minha posta já vai longa (O Lobistico passa-se...), mas o assunto não fica por aqui. A quem quiser contestar-me nesta abordagem inicial, ou apresentar a sua versão das coisas neste polémico domínio, deixo aberta a caixa de comentários para que o possam fazer. Estou receptivo a todo o tipo de argumentação, mesmo a mais absurda, pois sinto que a questão transcende em muito o objectivo apregoado e que o Estado está a ir longe demais na interferência nos direitos e na imagem dos seus cidadãos, optando pela parte mais fraca (o indivíduo e a sua impotência para se defender) para impor aquilo que seria mais complicado mas legítimo perante o verdadeiro poder (a corporação e o dinheiro a ela associado).

Discussão pública, querem eles. Está iniciada a minha intervenção.

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E AQUILO? TAMBÉM PODE MATAR...

Publicado por sharkinho às junho 22, 2006 10:19 AM

Comentários

A ganza era boa, ein?

Publicado por: Che às junho 22, 2006 11:02 AM

Só consumo da melhor.

Publicado por: sharkinho às junho 22, 2006 11:03 AM

Não consigo perceber se o auto-retrato é muita falta de gosto, ou se Braga de Macedo já fez moda, ao aparecer no Expresso de roupão. Inclino-me mais para a primeira hipótese, uma vez que o pijama de algodão, ou turco, dizem tudo.

Quanto ao texto, não me posso pronunciar com objectividade, já que é chato e comprido e, como é habitual neste blog, não o consegui acabar de ler.
É que Miguel Sousa Tavares, só há um. Mordaz, conciso, directo e com muito bom gosto.

Só fiz este comentário porque sei que preferes que digam mal, do que não digam nada. E ajuda nas estatísticas. Um grande bem-haja!


Publicado por: Maria Albertina às junho 22, 2006 01:27 PM

Magnífico, Maria Albertina, sinto-me lisonjeado pelo carinho com que me estragas assim com um mimo dos raros. "Não te gramo, não escreves um peido, tens mau gosto pra escolher pijamas. Mas como sei do que gostas, toma lá.".
Sensibiliza-me o gesto, pois sei que custa a gente sermos atenciosos pra gajos que nem uma merda de um pijama em condições sabem pedir ao pai natal (foi uma prenda. E por acaso é bué quentinho e confortável).
E podes crer que também acho os meus textos chatos e compridos, mas o que posso fazer? A malta lê, como tu comprovas...
Serás sempre uma presença bem vinda nesta casa, chames-te aquilo que te quiseres chamar!

Publicado por: sharkinho às junho 22, 2006 02:14 PM

LOL!
(aceitam-se apostas sobre os vários nomes possíveis...)

Publicado por: Mar às junho 22, 2006 02:28 PM

Nem assim tão chato, nem assim tão longo, digo eu! Mas...

E «aquilo» não mata ninguém!

Bolas, senão então o que sobra cá para a malta?!

Abraço.

Publicado por: Andy às junho 22, 2006 03:14 PM

A eternidade, Andy! Essa não falha, sooner or later...
Outro. (Abraço, claro.)


(E a pedido de diversas famílias vou cortar um nadinha no tamanho dos lençóis nos próximos tempos. Não quero que a malta pense que não dou importância a esses reparos. Tou cá pra vos servir).

Publicado por: sharkinho às junho 22, 2006 04:26 PM

Curioso é ver como ninguém referiu o tema da posta, mesmo sem descurarem o meu pijama ou os meus (presumidos) hábitos privados de consumo. :)
Se calhar a merda da posta tá mesmo grande demais...

Publicado por: sharkinho às junho 22, 2006 04:29 PM

Ahahahahah! Se calhar está! Eu também não li, quer dizer só li o princípio, mas isso é porque não fumo! Agora aquela foto da pose acrobática do bêbado é deliciosa! O que um gajo é capaz de fazer quando está com os copos, e sem dar por isso!

Publicado por: Che às junho 22, 2006 05:08 PM

gostei especialmente dos boxers, e de tb achar que não me devem tratar como uma doninha fedorenta. Cá em casa fuma-se na varanda, porque tenho dois putos asmáticos, e dá-me uma trabalheira passar a ferro a porra dos cortinados amarelados.
de resto, bora ali fumar mais um

Publicado por: j.p. às junho 22, 2006 05:41 PM

Mas olha, Che, que a questão não está tanto no fumo mas na forma como os Estados lidam com os problemas com diferentes pesos e medidas. Sempre na óptica de apanharem os raposos distraídos (e alguns nem precisam de estar com os copos pra não darem por isso) que somos todos nós que lhes sustentamos estes e outros vícios...

Publicado por: sharkinho às junho 22, 2006 05:58 PM

Tens excelentes razões, Jotapê, para optares pela varanda. E se fosse esse o calibre habitual das justificações para me afastarem do grande colectivo de vítimas potenciais em redor das mesas, era gajo para nem fumar de todo por minha iniciativa. O bom senso acaba por ser a melhor opção.
Só acho desproporcionadas algumas das medidas e respectivas repercussões na mentalidadezinha proibicionista que herdámos de outro tempo que me recuso reviver, mesmo em pintelhices como esta.
Bora, o mais possível.

Publicado por: sharkinho às junho 22, 2006 06:04 PM

Abaixo a tabaqueira nacional! Abaixo o Estado social-fascista e vicioso! Viva o cigarro de enrolar!
(agora se não se importam, vão fumar lá para fora que está aqui um fumo do caraças)

Publicado por: Che às junho 22, 2006 06:43 PM

reparo:
(a casa não é minha, logo, se o fumo me incomoda, quem tem de dar de frosques sou eu. Ora essa!)

Publicado por: Che às junho 22, 2006 07:08 PM

Ois!!!

É uma questão delicada isto dos fumadores... mas também acho que se anda a complicar um bocadinho! E a cair no exagero, creio!!!

A moda de se discutir e ter opinião sobre certos e determinados assuntos permite a muito boa gente falar sobre coisas das quais não tem a minima ideia... sabe lá um não-fumador o que custa a um fumador não poder fumar. E, mais rídiculo, são os ex-fumadores que põem aquela cara de herói-so-fucked por alguém sacar de um cigarro ao pé deles... É estúpido, no mínimo.

Não há nada que uma boa medida de educação cívica não resolva; um fumador pode bem evitar fumar quando estão crianças e grávidas por perto - aliás, deve fazê-lo! -, deve fazer a pergunta da praxe "Incomoda-o que fume?" quando está num restaurante - eu própria faço isso com amigos meus, não custa nada.
Agora... deixem-se de estórias e de subterfugios; estão a preparar uma campanha ostracizante para quem é fumador. Se os não-fumadores tem o direito a não ser fumadores passivos, os fumadores também têm o direito de poder dar largas ao vício! É como dizes, sharkas... só olham para umas coisas; para outras ou são uma cambada de asnos cegos ou, simplesmente, não querem ver! Apesar de já demasiado gasta a palavra, tudo não passa de pura e simples demagogia!!!

PS - E se me estendi é porque o assunto me irrita profundamente!

Publicado por: Sue às junho 22, 2006 09:56 PM

Andamos, andamos, o próximo passo é a Polícia dos Costumes...

Hoje de tarde não disse que subscrevo a tua posição de ver este problema.
Tudo o que me pareça vagamente atentatório de liberdades e garantias dos cidadãos, já sabes que me dá urticária...é claro que há a cena de a de uns começar onde acaba a dos outros e tal mas, cá está, bom senso em doses industriais resolve o problema.

(e não acho nada que devas fazer nada aos lençóis. O blogue é teu e nós só lemos se quisermos)

Publicado por: Mar às junho 22, 2006 11:31 PM

Equilíbrio, Mar, é só o que falta. Concordo com limitações que obriguem os menos lúcidos a tomarem consciência das suas responsabilidades na matéria. Mas não aprecio nada esta "marcação" aos fumadores.
Sabemos todos qual é a evolução natural de uma cena tão ilegal/imoral aos olhos de quem legisla que até tem prevista uma coima astronómica (mais de 500 euros, salvo erro) à luz, por exemplo e para me manter no domínio do caricato, da coima inferior a 50 euros por sermos apanhados a mijar na via pública...

(A tua opinião é importantíssima. E é verdade o que dizes.)

Publicado por: sharkinho às junho 22, 2006 11:59 PM

Demagogia mata, Sue. Mata a noção da realidade dos nossos políticos e legisladores. Perdem-se na confusão dos critérios eleitoralistas e correm como chitas atrás de umas medidas mediático-simpáticas para nos encher a vista.
Pelo meio fica o tal gosto pelo exercício de um poder que despreza as minorias e que nunca tem em conta as questões associadas à aplicação e aos contornos de qualquer lei.
Para o cidadão comum, o papalvo que vota, fica a ideia de que o fumador é um criminoso.
Se assim for, prefiro o proveito do que a má fama...

Publicado por: sharkinho às junho 23, 2006 12:13 AM

:)

O Lobistico passa-se mas pede mais.

Publicado por: Lobistico às junho 23, 2006 11:57 PM

Obrigado, pá!
A Maria Albertina e o A deviam pôr os olhos nisto.
Another satisfied customer... :)))

Publicado por: sharkinho às junho 24, 2006 12:41 PM

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