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junho 23, 2006

SOL NASCENTE

anoitecemos.jpg
Foto: Shark

Fez-se esquecido do tempo perdido a sonhar um amor que nunca existiu, nessa forma ideal. Ela chegou e ele sorriu, lábios humedecidos pela sede de beijos proibidos, incapaz de virar a cara e recusar a cedência ao apelo que o coração lhe gritava por detrás de um peito a galope que a razão se esforçava, sem sucesso, para travar.
Sentiu-lhe o cheiro do cabelo e estremeceu. Tinha a noção de que perdia nesse instante a batalha interior contra a violência de um amor que o agredia. Mas impossível de renegar.

Masoquista, avançou. E no empenho que dedicou estava a certeza adquirida de que nenhuma esquina da vida o libertaria daquela prisão emocional. Amou-a até o corpo lhe pedir clemência, condenado, o pescoço marcado pelo ferro em brasa de um chupão. Daquela boca sempre sua que vestia o rosto da mulher nua com sorrisos despidos de pudor, marotos.
Cumplicidade que se fez em muitos momentos de nudez, da alma também.

A felicidade simples da emoção adolescente num adulto consciente da sua reclusão mal assumida. Pregava-lhe uma partida em cada troca de olhares, raios de luz rasgando o espaço entre ambos como o prenúncio de uma tempestade de Verão. O calor que os derretia, no amor que os fundia como vidro pronto a moldar.
Cálices de cristal, reflexos coloridos pela luz intensa do sol que os iluminava abraçados mesmo à beira de uma mesa posta para dois.

Vinho gelado a arrefecer as gargantas que aquecia depois, com as palavras que devolvia embriagadas de fantasia mas controladas pela lucidez. Choque térmico de correntes opostas numa ligação paradoxal, fios descarnados, pontas soltas, a energia desperdiçada no desnecessário acerto das contingências e limitações. Imensas discussões, para nada. Acertos das agulhas magnéticas com pólos sobrepostos, atraem-se os opostos quando não falha o sentido de orientação.

Mas ele fez-se esquecido do tempo investido a alimentar uma ilusão. Ela partiu e ele sorriu, lábios abertos de par em par, promessa renovada, na separação forçada, de um reencontro inevitável algum tempo depois.
Ela não negava aquilo que a arrastava para os braços que agora a envolviam sob a tez alaranjada do ocaso que os despediu.

E a mente dele partiu desarvorada rumo à alvorada do dia em que estariam juntos outra vez.

Publicado por sharkinho às junho 23, 2006 04:02 PM

Comentários

Gosto muito destas histórias que contas e que encerram, cada uma delas, ensinamentos nas entrelinhas.
O desta, acho que é a descoberta de que o segredo da felicidade está nas coisas singelas da vida. :-)

(e a foto, ah a foto...um espanto)

Publicado por: Mar às junho 23, 2006 04:42 PM

Como a beleza que tive a sorte assistir in loco e de captar na foto, num desses dias feitos de coisas felizes.
E singelas, ok, porque não? ;)

Publicado por: sharkinho às junho 23, 2006 04:51 PM

Consigo lembrar-me de tantas que, embora singelas, têm um valor inestimável...:-)

Publicado por: Mar às junho 23, 2006 10:51 PM

É uma sorte, Mar. A vida faz-se disso.

Publicado por: sharkinho às junho 23, 2006 11:32 PM