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julho 27, 2006
CONTO COM UM FINAL FELIZ

O velho Baptista, muito tempo depois, ainda frequentava todos os dias o tasco onde ambos se encontravam anos atrás. E ela também.
Cruzavam-se em silêncio, magoados. Estavam separados pelas divergências inconciliáveis de uma relação que nunca deveria ter acontecido. Mas aconteceu, para desassossego dos dois.
Não voltaram a falar depois, mas todos os dias cumpriam o estranho ritual ressentido. Ele sofria e não sabia se com ela se passaria igual. Nenhum deles encontraria uma forma de contornar a situação derradeira, aquela que os havia empurrado para longe um do outro, como carrinhos de choque em permanente rota de colisão. Batiam e fugiam, batiam e fugiam. Até que a última volta chegou.
Um dia os seus feitios embateram sem pára-choques e os danos não se ficaram pela mossa habitual. Foi perda total e a pista fechou.
O velho Baptista, no entanto, olhava para o tempo que restava e torcia-se por dentro de cada vez que a observava sem poder trocar uma palavra sequer. E aquela mulher, tudo em si o gritava, tornara-se uma parte importante, essencial até, do seu quotidiano. Algo que não conseguia explicar, vinha de dentro, incontrolável. Achava-se cheio de razões para nada mais querer daquela pessoa e entendia que assim fosse também do outro lado da questão.
Um dia entrou pelo tasco cheio de determinação. Passou de raspão pela mesa dela, linda como sempre, e deixou tombar sobre o tampo um pedaço de papel.
Depois saiu, mirando à distância a expressão desdenhosa que ela exibira quando lera o que ele havia escrito, antes de o amarrotar e deitar para o chão.
O papel dizia apenas “Não”.
Dias depois, o velho Baptista repetiu a graça.
Outro papel amarrotado, outro esgar incomodado. Mas ele não desistia do que abraçara como uma missão. Trazia o papel na mão, saturado do afastamento que entendia como um cruel castigo.
O segundo papel dizia “Consigo”.
Durante uns tempos, o ancião não apareceu no tasco e ela temeu o pior. Mas não deixava transparecer, orgulhosa, mantinha-se ciosa da sua razão.
Recordava cada uma das asneiras que ele cometera na sua perspectiva. E não reconhecia a sua parte da culpa. Pelo menos não a admitia.
Mas também ela sentia a necessidade de o ver de vez em quando, sozinho, numa mesa qualquer daquele espaço comum.
Disfarçou a alegria que sentiu quando o viu regressar, com um ar abatido, estivera doente talvez. E ele passou pela mesa devagar, olhos nos olhos dela, e deixou o terceiro recado com uma expressão de dor.
Dizia apenas “Viver”.
E ela, intrigada, fingiu-se amuada e machucou-o como aos anteriores enquanto ele espreitava pela montra e seguia o seu caminho habitual.
No dia seguinte ele apareceu outra vez. Parecia desanimado, mas insistiu. Com um aspecto cansado, aproximou-se sem pressa e parou durante uns segundos a curta distância, como que a contemplá-la. Ela fez de conta que não percebeu, conversou com o parceiro da mesa do lado e ignorou o velho Baptista como se ele não estivesse ali.
Pela primeira vez ele não deitou de imediato o papel na mesa. Dirigiu-se ao balcão e pediu uma caneta emprestada, vermelha, e escreveu algo no papel que no caminho de saída deixou tombar mais uma vez.
A última, percebeu ela quando reparou que pela primeira vez eram duas as palavras sem sentido que ele lhe entregava, uma a vermelho e a outra de cor azul.
Esta mensagem dizia “Sem Ti”.
Nos dias que se seguiram ele voltaria, como sempre, ao tasco para a ver. Mas já não escrevia coisa alguma, apenas se sentava em silêncio e bebia o seu café.
Depois saía e olhava-a por detrás do vidro antes de seguir.
Cada dia que passava ela notava o esforço que ele fazia para insistir na sua presença naquele local, vexado e visivelmente desgastado pela ausência de uma reacção.
Ele perdera a esperança, dias depois da última entrega do que considerava uma tentativa de aproximação. A possível, naquelas circunstâncias.
Notava-se no seu olhar perdido numa esquina da mesa ou nas pontas dos pés, na sua apatia, a tristeza que lhe provocaria a incerteza de ela ter entendido ou não o seu recado infantil.
Ela resistia, teimosa, mas sentia-se receosa que ele deixasse de aparecer de vez.
Nessa tarde decidiu oferecer-lhe algo em troca, um sinal qualquer que lhe desse a entender que talvez houvesse uma forma de reatarem a comunicação.
Levantou-se da mesa depois de escrever algo num guardanapo e de o embrulhar em torno de algo que falaria por si.
Passou de raspão na mesa do velho Baptista e deixou cair o guardanapo com um gesto gracioso. E seguiu para a porta, altiva, sorriso nos lábios que dissimulou no momento em que o espreitou enquanto ele abria o guardanapo que dizia apenas “Prova-o” e quatro pedaços amarrotados de papel espalhados à sua frente lhe arrancaram o primeiro sorriso que lhe via desde o dia em que se haviam beijado pela última vez, demasiado tempo atrás.
Publicado por sharkinho às julho 27, 2006 12:41 AM
Comentários
Cá pra mim, esse recado teria merecidos, da parte dela, que lhe agarrasse a cara e lhe pespegasse um chocho que deixasse o tasco em peso a bater palmas de pé. :-)
Publicado por: Mar às julho 27, 2006 01:38 PM
Olha que isso dava outra alma à história, pá!
Mas eu não quis dar um ar muito optimista à coisa, para ser plausível... :)
Publicado por: sharkinho às julho 27, 2006 02:06 PM
Vá lá, deixa-os ter aprendido com o tempo e a vida, com o olharem-Se e um ao outro. Essa é a (suprema) graça do narrador, temperar as agruras e os erros do passado, de um modo verosímil, e terno.
:)
Publicado por: LN às julho 28, 2006 12:50 AM
eu gosto, gosto dos jogos, do fio de prumo a tremelicar, do final que se torna nosso
Gosto desta tua escrita
Publicado por: j.p. às julho 28, 2006 08:59 AM
Olá, LN, long time no read... :)
Não concebo relações sem ternura. Por muito que seja por vezes hercúleo o esforço de conjugação das características que são nossas mas podem afastar-nos de quem nos é essencial, é fundamental dar uma hipótese à emoção. Contra qualquer lógica, à força se necessário no combate pela amizade ou pelo amor. E falo da força que só o carinho sabe alimentar.
O passado é letra morta nos pergaminhos de uma vida como a sugeres: em formação contínua da vontade, do desejo e de tudo o que ansiamos partilhar com alguém.
Publicado por: sharkinho às julho 28, 2006 11:18 AM
Tentei imitar a tua técnica de pintura, Jotapê. Não topaste a mudança progressiva do cinzento desmaiado para o rosa avermelhado? ;)
Publicado por: sharkinho às julho 28, 2006 11:21 AM
Mudança não. Transição...
Publicado por: sharkinho às julho 28, 2006 11:24 AM
Topei pois!
Os chamados crescendos, Shark
;0)
Publicado por: j.p. às julho 28, 2006 05:49 PM
Upa, upa...
Publicado por: sharkinho às julho 28, 2006 06:32 PM