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julho 12, 2006

ENFIARAM-LHE O BARRETT

discografia do ceu.jpg


Tinha nove anos quando ouvi Pink Floyd pela primeira vez, no sopé da Serra da Estrela, à luz de uma fogueira em redor da qual rodavam baforadas intensas de “boi” (a erva angolana que tomou conta do país no início dos anos setenta).
Eu não fumava na altura, mas acredito que fiquei under the influence com o nevoeiro instalado ao alcance do meu nariz bisbilhoteiro.
A música bateu. Deitado no lençol de carumas de pinheiro, olhei as estrelas e abandonei em definitivo “A Pandilha” e outros sucessos pimba da canção infantil.

A partir desse dia outra música tocou no velho gira-discos onde aprendi a apreciá-la. Os Queen, os Genesis, os Supertramp e tudo dos Pink Floyd a que conseguia deitar a mão. Esperava horas numa discoteca ao pé dos Bombeiros de Benfica pela chegada do vinil que a proprietária me avisava vir a caminho.
A minha adolescência irrompeu rebelde por entre os sinais do buço que começava a despontar precoce, tal como as erecções por justa causa e não apenas involuntárias.

A sonoridade de Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason, Rick Wright e a alma criativa do Syd estimulou a minha evolução num sentido diferente do que me destinavam.
Descobri que os outros eram um factor a ter em conta quando prestei atenção à letra do tema Dogs, do álbum Animals. Entendi o quanto a amizade pode ser próxima de um amor ao ouvir a obra-prima Dark Side of the Moon e o magnífico Shine On You Crazy Diamond. Consolidei a minha loucura pela Ficção Científica ao som de Set the Controls to the Heart of the Sun.
E foi numa viagem alucinada pelo meio do ambiente criado pelo Meddle que me vi num planeta completamente azul na maior moca que apanhei ao longo da primeira metade da minha existência maluca.

A morte do Syd incomoda-me. Trata-se de um homem que influenciou a minha vida e deixou rasto nas vidas de milhões como eu.

É uma perda que sinto, um prenúncio do final de uma geração que o mundo nunca poderá apagar da memória.

Voa, méne! Instala-lhes a balbúrdia no céu com a tua loucura alada.

Publicado por sharkinho às julho 12, 2006 10:59 AM

Comentários

Tinhas 9 anos? Eu , 12 pra 13, início de adolescência em São Paulo, dividida entre um certo regime militar lá de casa ( tudo em ordem, tudo arrumado e certinho ) e a paixão pelo desconhecido, pelos rapazes malucos ,pelos amigos que conheciam de perto muitas drogas ( que feliz ou infelizmente passei incólume -podia ter sido uma experiência )..tudo ao som de Pink Floyd e...Jethro Tull..Bj!

Publicado por: agatha às julho 12, 2006 11:45 AM

Foram uma geração brilhante na criatividade, Agatha, e em boa medida porque os rapazes davam-se ao luxo de serem malucos e de se libertarem do padrão "arrumadinho" e politicamente correcto.
Eu bebi essa poção mágica (e outras, a que não passei incólume - felizmente) e adquiri uma forma de estar na vida que me tem trazido, no balanço, inúmeras compensações.
São marcas que perduram.
Beijo meu, tb.

Publicado por: sharkinho às julho 12, 2006 11:51 AM

Eu admito que nunca ouvi muito Pink Floyd... não sei porquê, mas nunca senti qualquer espécie de chamamento nesse sentido... até este ano!!! Sinto que agora sim, faz sentido ouvir as melodias e letras dessa grande banda, a meu ver, intemporal.

Jinhus **

Publicado por: Sue às julho 12, 2006 10:31 PM

Ouves The Dark Side of the Moon duas ou três vezes e nunca mais queres outra coisa, Sue.
Depois, o Wish You Were Here (para lhe conheceres o lado soft).
A partir daí, soam-te todos bons (menos um pouco a partir da saída do Waters).
Devolvo-us com juros. :)

Publicado por: sharkinho às julho 12, 2006 11:16 PM

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