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julho 11, 2006

ORGULHOSAMENTE NÓS

novo rumo.jpg
Foto de autor desconhecido, recebida por email

O orgulho é uma característica simultaneamente rígida e flexível. Verga mas não parte, acompanhando-nos até ao fim e mesmo quando somos enterrados e nos tornamos esqueletos cheios de certezas e de convicções, com um metatarso orgulhosamente erecto a apontar para o céu onde esperamos encontrar tudo menos setenta e duas virgens à nossa espera como prémio para um comportamento exemplar (nos termos d’Ele e não de outros como nós, ou piores).

Quem não se olhou já ao espelho, cheio de orgulho por este ter prevalecido sobre todas as insofismáveis perdas associadas à sua preservação? Que atire a primeira pedra a este incréu.
É visto por uns como um acto digno, corajoso, esse assentar arrais do nosso amor-próprio em detrimento de tudo aquilo de que mais precisamos e nos dispomos a abdicar quando o nosso orgulho está em causa. E por outros como mais uma deplorável manifestação da estupidez humana, responsável por conflitos evitáveis e antagonismos estapafúrdios.
É polémico, então.

Mas consensual nalgumas matérias. É sabido que nós, gajos, somos quase unânimes na forma como sobrevalorizamos o orgulho em temas como o sexo (só para citar um exemplo qualquer que me ocorreu). E depois na vida profissional. E talvez no amor.
Ser desprezado pela amada é péssimo, ser menosprezado pelo chefe é horrível, falhar na cama é uma tragédia de dimensão colossal.
Coisas nossas, nas quais abrimos poucas excepções e sempre nos arrependemos.
Orgulhosos, prezamos a nossa dignidade e tentamos defendê-la das mazelas a que o triunvirato acima nos expõe.

Ficamos uns fulanos sem jeitinho nenhum, quando deixamos vergar demais (e aqui já tou a tomar partidos pela surra, não sei se tão bem a ver…) esse limite para o poder de encaixe de que a natureza nos dotou. E também tem a ver com o resto com que essa Mãe Gaia nos ofereceu na lotaria genética que determina se somos parecidos com o George Clooney, divertidos como o Woody Allen ou simplesmente uns trambolhos que não interessam a ninguém. Assim, na proporção directa dos atributos que nos reconhecem ou acreditamos desesperadamente possuir.
Vergam mais os que precisam, nesta estranha cadeia alimentar de egos e de consciências onde ninguém se assume presa e não faltam candidatos a predador.

O orgulho cega. Eu seja ceguinho se assim não é. Não raras vezes me perdi pelo meio dos intrincados raciocínios e dos comportamentos idiotas que se desenvolvem de forma autónoma como mecanismos de protecção do queixo para a cabeça nunca parar de se erguer. O sexo, outra vez, mas em sentido figurado. A nossa principal ralação. E o chefe, cabrão, a impor-me os galões? Mas eu sou muito homem e não me deixo vergar. E pela companheira também não, era só o que faltava...
Flop, despedimento e divórcio (ou separação). São esses os preços a pagar por alguns excessos nesse particular.
É que ninguém se condói nestes dias por um falso invisual.

E por isso, em jeito de conclusão, afirmo-vos com natural satisfação que me orgulho do gajo que às vezes consigo ser e outras vezes não. E basta-me assim, capaz de fazer elevações sem mãos com o toalhão de banho em dias bons e calar a proeza num sorriso imbecil e solitário ou de me deixar enxovalhar durante algum tempo pelos contornos intensos de um amor sem explicação. Rígido e flexível, em simultâneo, o orgulho tal como o defini mais acima. E eu.
Somos parecidos, afinal.

Não é um bom augúrio…

Publicado por sharkinho às julho 11, 2006 05:38 PM

Comentários

somos
sem orgulho não era quem sou
sem orgulho jamais seria capaz de me olhar ao espelho.
tens lá um sol, da cor doorgulho de sermos aquilo que nos fazem ser

Publicado por: j.p. às julho 12, 2006 01:39 AM

Que ganda pinta de comentário, Jotapê. Palavra. Mas não achas que às vezes nos deixamos arrastar longe demais por essa característica, que pecamos tanto por excesso como por defeito?

Publicado por: sharkinho às julho 12, 2006 09:49 AM

(Já lá fui e fiz-te uma pergunta que deriva da minha apreciação ao que vi.)

Publicado por: sharkinho às julho 12, 2006 11:15 AM

às vezes
e nem sempre
nasci com uma especie de ética quase indestrutivel
lambo as feridas abrigada
e volto sempre mesmo que seja tarde
;-)

(já respondi em forma de post na 1º tasca)

Publicado por: j.p. às julho 12, 2006 05:13 PM

Eu também já tive isso da ética quase indestrutível mas a puta da vida tem um jeito do caraças para dar cabo desses emaranhados de valores que nos (des)orientam.
E não lambo as feridas, arranho-as para me flagelar até à exaustão. Só depois me fortaleço e volto, sempre, mas só quando vale a pena.

(Até me ia engasgando, mas depois li o post até ao fim e reprimi à força toda essa sensação desconfortável) ;)

Publicado por: sharkinho às julho 13, 2006 12:24 AM

pois eu lambo mesmo,
assim tomo-lhos o sabor, saboreio-lhes as células para as detectar, arranjo assim anti-corpos de borla.
arranhá-las só provoca sangramento, é essencialteres força restante
A exaustão, deriva do conhecimeno do sabor e do cheiro
facilmente farejáveis ao longe
dá-te tempo de pegares na tábua
e de lha enfiares no focinho

Publicado por: j.p. às julho 15, 2006 07:25 PM

Às vezes vontade não falta...
Porque tresanda, de facto, mas certos sabores funcionam como heroína para o paladar. Preguiça, no fundo, essa falta da (vontade de ter) força que se esgota em exercícios de autofagia da consciência de nós. Depressão, talvez.
E a tábua não tem comando à distância.
Já eu...

Publicado por: sharkinho às julho 15, 2006 08:09 PM

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