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setembro 19, 2006
PELA (ES)CALADA

Irrita-me esta propensão da populaça no mundo islâmico para pegar por tudo para fazer granel nas ruas, para atacar os “infiéis” por mais absurdo que seja o pretexto.
Por tudo e por nada, toca a queimar bandeiras, igrejas, automóveis e a berrar aos tiros o ódio do momento como se esse ódio lhes alimentasse o estômago e a fé.
Ou porque o escritor tal insultou o Alcorão, ou porque uns Zé-ninguém da Dinamarca fizeram umas caricaturas insultuosas para o Islão ou porque o Santo Padre (que não foi tão “bento” como o pintam) citou um imperador bizantino que insultou o Profeta séculos atrás.
Matam pessoas com base nesta reacção de virgens ofendidas que apenas tem servido para lhes criar uma imagem no mundo ocidental que em nada serve a causa de que fazem a apologia.
Uma freira sexagenária que trabalhava num hospital somali foi abatida a tiro por causa do insulto que serviu para mais uns incitamentos dos líderes religiosos fundamentalistas.
Isto cabe na cabeça de alguém?
Se por cada disparate que sai das bocas descontroladas de alguns fanáticos fossem executados membros das respectivas Igrejas o mundo transformar-se-ia num imenso faroeste. E essa, paradoxal, é a versão que veste melhor os bushes deste planeta panela de pressão, a gente boa que se pendura nos receios com a segurança para transformarem aos poucos o ocidente cristão numa imensa fortaleza e o oriente islâmico numa gigantesca, (in)discriminada e ameaçadora horda de talibãs.
Por outro lado, não se papa o grupo de que o Sumo Pontífice e seus conselheiros nem faziam ideia de que aquelas palavras proferidas nesta altura provocariam o estardalhaço que ainda mal começou. Como alguém dizia algures, ou foi de propósito ou foi uma tirada imbecil e despropositada. Qualquer das duas opções, num Estado a sério, democrático, deixaria o líder em péssimos lençóis e provavelmente conduziria à respectiva destituição do cargo.
Mas no Vaticano só mesmo a morte pode destituir um incapaz que o acaso (pois, a vontade de Deus…) imponha e os factos confirmem nesse particular.
Também me irritam os paninhos quentes com que (quase) toda a gente neste nosso santo bastião da cristandade civilizadamente hipócrita se apressa a cobrir as causas e os efeitos da “boca” desnecessária que os santos lábios não quiseram ou não souberam reprimir.
Os dois lados da barricada estão à mercê de líderes que não inspiram fé alguma na sua capacidade de resolução do problema que se agrava dia a dia com gestos cobardes, palavras insensatas e novas revelações do esterco ético em que se atolam uns e se conspurcam outros.
E a nós, cidadãos comuns de cada um dos extremos cada vez mais opostos, resta aguardar que esta gente perceba que a ninguém interessa um conflito destas dimensões e ainda menos interessa que dêem à costa alguns figurões que o agudizem. Em nome de qualquer fé, pois a fé principal consiste em termos uma vida em paz e sem mais medos do que aqueles que derivam, por exemplo, das calamidades naturais associadas ao aquecimento global ou do desespero que se vive em boa parte do hemisfério sul e cujas consequências se desenham negras nas fronteiras duma Europa encravada no seu papel de eminência parda que não sabe para que lado cair no meio dos interesses específicos de cada uma das nações que a integram.
Nós aguardamos, que remédio, pelo bom senso desta gente que manda.
Mas a avaliar pelo que está (e pelo que não está) à vista é melhor esperarmos sentados…
Publicado por sharkinho às setembro 19, 2006 11:00 AM
Comentários
Excelente post!
Aliás, estás cada vez mais afinado a identificar sem papas na língua os interesses que governam este mundo alucinado, onde nos cabe cada vez mais, apenas o papel de espectadores, à espera (passe o pleonasmo) que não nos caia em cima a consequência de uma qualquer calinada de um qualquer dos nossos líderes, políticos, religiosos, o raio que os parta.
Publicado por: Mar às setembro 19, 2006 12:54 PM
Sinceramente não sendo eu religiosa (Católica Muçulmana, Budista ou de qualquer outra religuião ou seita, respeito as ideias de quem as pratica)e não querendo já entrar na mais que falada guerra religiosa imposta durante séculos pela igreja católica, gostaria que alguém me explicasse: Deus de acordo com a Igreja Católica é um Deus de amor,porém a própria Biblia está cheia de guerras e conflitos. É um Deus de amor mas só se fizermos a coisa como Ele quer caso contrário o Inferno é uma sentença sempre em cima das pobres cabeças humanas e enquanto a fome e a miséria graçam por esse mundo fora, o Papa vive num Castelo e até a sua confiança em Deus é tanta que lhe reforçaram a segurança. Como vigário de Cristo na terra vive na abastança enquanto que o próprio Cristo, segundo reza a Biblica apenas tinha um vestido e umas sandálias. Com tudo isto onde é que ficamos? Agora atira achas para a fogueira? Como papa deveria medir as palavras para não vir dizer depois que foi interpretado erradamente, não pode nem deve dar-se a esse luxo.
Publicado por: susete às setembro 19, 2006 01:39 PM
É a minha costela anarca, Mar... :)
Ando um bocado saturado de assistir a estes episódios que dizem muito do quanto estas coisas se decidem nas movimentações de bastidores.
E sendo agnóstico não acredito em milagres.
Nem em lapsos tão flagrantes.
Publicado por: sharkinho às setembro 19, 2006 02:25 PM
Também não acredito que haja alguém a agir inocentemente no meio de tudo isto. E cada vez mais penso que estamos é bem tramados com estes «líderes», todos eles...
Um abraço.
Publicado por: Andy às setembro 19, 2006 02:43 PM
Também não acredito que haja alguém a agir inocentemente no meio de tudo isto. E cada vez mais penso que estamos é bem tramados com estes «líderes», todos eles...
Um abraço.
Publicado por: Andy às setembro 19, 2006 02:45 PM
Isso daria pano para muita manga (de batina), Susete...
Já nem vou por aí, cada um sabe de si.
Basta-me pegar pelo que a História nos ensina acerca das relações entre Igreja e Poder(es) para me sentir no direito de suspeitar de mais uma ligação perigosa entre os interesses das partes (agora ainda mais) envolvidas.
Por isso me custa engolir aquele "foi sem querer" que não cola entre os muçulmanos como não pega entre os cristãos...
Publicado por: sharkinho às setembro 19, 2006 02:56 PM
É aí que (não) quero chegar, Andy.
Não sinto que tenhamos algo a ganhar com esta alegada defesa dos nossos interesses. E os nossos irmãos muçulmanos também não...
Publicado por: sharkinho às setembro 19, 2006 03:06 PM
Depois disto. Deste Post. Tinha mesmo que voltar. O cansaço (falta de sono bem dormido) impede-me um melhor comentário ao profererido pele Sharquinho.
No entanto, quero aqui deixar, a minha convicção, do que acaba de dizer.
Insuspeita, eu, por não nutrir sentimentos anti seja o que for, Confesso, que concordo com o que diz.
Soube muito bem, dizer tudo, verdadeiramente. Referente aos dois poderes.
É evidente. Mais do que evidente que o Vaticano sabia bem o que fazia, na figura deste homenzinho que ocupa um lugar que lhe não pertence.
Mas, também é evidente, que o imediato aproveitamento dos fanáticos, que realmente parecem agarrar todo e qualquer pretexto, que lhes surja do Ocidente ambicionado, serve para incendiar o Mundo, mais do que ele já está! Fazendo-se de vítimas. (que todo o Universo me perdoe! mas de facto, assim não dá!)
Como disse estou cansada e o meu comentário não é o que devia ser. Mas, senti-me na "obrigação" de o fazer.
Peço ao Sharquinho, que me desculpe tão fraco comentário, nada à altura, de tudo o que li do senhor. Mas, talvez possa voltar. Agora que entendi, melhor.
Por mim, não deveriam existir, nem uns nem outros. Fontes da mesma fonte. Subversivos Poderes a manipular a mente humana. E, eu gostava que o ser humano pudesse viver em Paz. Tem esse direito. Se não tem, devia-o ter. E, deixava-se toda a EUROPA livre. Mentalmente livre. Unicamente para, tentarem ainda SER.
Infelizmente o Vaticano fica na Europa e "deus" passa o tempo a eleger Papas.
E, no Islão, se não são os Papas, os escolhidos, são o Povo, cruxificado o Baluarte da mesma e única fé.
Que confusão! Que mundo estranho e assustador! Vale a pena lutar?! São muitos ou poucos os que como o Sharquinho, chegam um pouco mais longe? Entendem a profundidade das coisas?
E eu que era, humanista. Mas Universal.
Estou também horrorizada, com tanto jogo de poder. É demasiada coisa, sórdida! Parece que todos dormimos ao som e actuação de todos aqueles que pretendem, unicamente governar a Alma Humana.
Até quando?!
Peço desculpa, pela intromissão, se calhar não muito conveniente. Mas, sinceramente, estou cansada e o raciocinio, é coisa que me falha com sono, quanto mais o não tendo.
Obrigada pela clareza do seu comentário.
A mim ajudou-me e em muito!
Publicado por: SemNome às setembro 19, 2006 09:27 PM
Bem vinda de volta, SemNome, e muito obrigado pelas diversas referências elogiosas que "embutiu" no seu comentário.
Confesso que se trata apenas de uma opinião emocional, mais baseada na percepção que os acontecimentos transmitem do que na análise de alguma perspectiva histórica ou de encadeamento de qualquer forma.
Por outras palavras, tentei não tomar partidos. Mesmo que em determinados momentos a balança penda mais para um ou outro dos lados em disputa. E aqui começa o erro colossal. Não existem dois lados, existem centenas. E se eu opto claramente por um estilo de vida muito próximo do modelo que definimos por ocidental (cristão ou não), não me sinto hostilizado pelas escolhas de outrém nessa matéria.
Na teoria.
Na prática vejo uns e outros a recorrerem à indignidade, ao terror, à perfídia e ao falso pressuposto de que existem de facto apenas dois mundos em conflito, duas perspectivas opostas. Não compro essa ideia que tanto facilita a vida aos beligerantes e aos fanáticos.
Há é gente encurralada pelo papel que a sua "tribo" pode ou tem que assumir. Com ideias e perspectivas distintas entre si, mas reféns do que "lá em cima" se decide quanto ao destino dos povos. E lá em cima não está Deus, estão os tais líderes que a partir de um patamar bem alto o tentam substituir à medida das suas conveniências.
O martírio começa aí, onde as crenças e a fé sucumbem aos desígnios de dois amantes inseparáveis. O dinheiro. E o poder.
Espero que usufrua de um sono retemperador. E aconselho-a a nunca, mas nunca clicar no botão "Submeter" sem antes fazer "copy" de um comentário extenso.
É de ir às lágrimas, quando a plataforma se engasga e o comentário pura e simplesmente desaparece... :)
Publicado por: sharkinho às setembro 20, 2006 12:25 AM
Olá, amigo sharkas!!!!
Impossível resistir a comentar qualquer coisinha... :PPP
Há largos meses, por motivos académicos, estudo a religião islâmica. Posso assegurar-vos que quanto mais leio, quanto mais estudo mais apaixonada fico pelos muçulmanos e pela forma séria e respeitosa como vivem a religião.
O muçulmano, o verdadeiro muçulmano é homem de paz e de grande religiosidade. Contudo, como qualquer religião ou corrente tem facções mais violentas; a igreja católica também as teve, também as tem... só não é mais noticiado como devia e não convém.
O Al-Corão fala de Maria com todo o respeito. Jesus Cristo é tido por um homem excepcional, um Profeta como houve tantos antes que antecenderam Maomé. Dentro da religião muçulmana, para quem não sabe, há adeptos de Jesus Cristo. A diferença é que crêem que Este escapou da cruz, foi escondido com ajuda dos amigos, rumou à Índia e instalou-se em Caxemira... e disto, como é óbvio, a igreja católica não fala.
O Papa citou um imperador bizantino? Podia ter citado pares seus, homens de paz e ecumenismo, como, por exemplo, o Papa Pio XII que "observou como era consolador saber que, por todo o mundo, havia milhões de pessoas que, cinco vezes por dia, se curvavam perante Deus" ou mesmo bispos católicos da Nigéria que, em uma Carta Pastoral, referem: "Expressamos os nossos sentimentos de amor fraternal para com os nossos concidadãos muçulmanos... Apreciamos o seu profundo espírito de prece e jejum... Estamos unidos contra a ameaça do materialismo e do secularismo".
Todos sabemos que o Mundo não está "para brincadeiras"... no faroeste já nós estamos há muito tempo, creio eu, amigo sharkas... e acho, sinceramente, desnecessárias as sucessivas mensagens católicas provindas de um homem eleito Sumo Pontífice constantemente citando o nome de Maomé ou de Alá quando, o verdadeiro muçulmano não o faz. O muçulmano não cita nomes divinos da forma leviana como o cristão faz, por exemplo, "Juro por Deus" e muito menos joga ao "toma lá promessa, dá cá milagre" como nós conhecemos.
E, afinal, o que é isso do "católico não-praticante"? Para o muçulmano esse conceito não é apreensível... e não é, decerto, por ser menos inteligente do que o cristão. É, simplesmente, porque o verdadeiro muçulmano vive a religião e não faz dela uma trapalhada sem nexo, nem a vive porque não tem mais nada para fazer.
As palavras dos "eleitos" têm poder... religioso e, como todos sabemos, político... e esse poder não pode nem deve ser descurado. O Papa sabe, com certeza, de todas estas questões e do respeito que deve aos muçulmanos... sabe que muito facilmente os atinge onde lhes dói mais. Assim como as facções mais radicais islâmicas que, de forma indesculpável e criminosa, atingem os ocidentais onde lhes dói mais!
Amigo sharkas... perdoai-me o abuso do lençol :P
Jinhus grandes e continuação de uma boa semana **
Citações: STODDART, William, "O Sufismo", Lisboa, Edições 70, 1976, p. 33.
Publicado por: Sue às setembro 20, 2006 01:03 AM
Quem havia de dizer, Sue, que serias tu a botar palavra em abono dos nossos "inimigos"? :)
E sabe bem, ler algo que contrarie o espírito das cruzadas que aos poucos se vai apoderando das alas radicais a quem interessa meter o bedelho nesta altura.
Não duvido que o caminho da diabolização generalizada dos "outros" é errado, tal como nem hesito em acreditar que a maioria dos muçulmanos, tal como a maioria dos cristãos, querem é paz e sossego e que os diplomatas que nos custam um dinheirão façam o seu trabalho de forma eficaz.
Mas todos sabemos que na origem disto tudo não está religião alguma mas sim meia dúzia de seitas. A seita dos sagrados combustíveis fósseis, a ordem dos pistoleiros e outros grupos minoritários de candidatos a milionários que não acreditam em coisa nenhuma mas dispõem de marionetas capazes de aldrabar e até de martirizar em nome de um ideal de fachada.
É tão "romântico" o ideal do martírio em nome de Alá como o do grande polícia do mundo que nos salvará das garras dos gajos maus que querem esconder a Angelina Jolie por detrás de uma burka...
O Papa comportou-se como um Ayatollah, embora de forma algo mais comedida.
E os fanáticos das diferentes seitas aplaudiram de pé.
Publicado por: sharkinho às setembro 20, 2006 08:54 AM
Quanto á seita dos sagrados combustíveis fósseis, só gostava de acrescentar mais uma coisinha:
Não sei se acompanharam uma série na RTP 2 sobre os atentados de 11 de Setembro.
Sobre os registos de voz desse dia, dos envolvidos no cenário de combate ao incêncio.
Sobre os misteriosos desaparecimentos das caixas negras.
Sobre o não menos misterioso voo 93 e inexistência de respectivos destroços...
Sobre o silenciamento, a falta de explicações, as atrapalhações, as contradições entre os vários responsáveis políticos nos comentários ao sucedido.
A ser verdade, o que isto pressupõe, desculpem-me mas a administração americana, tinha que ser julgada por crimes de guerra, e só. Impensável mas possível, é a conclusão a que vão chegando so vários inquéritos, estudos e investigações oa sucedido...
Publicado por: Mar às setembro 20, 2006 01:19 PM
(perdoem as calinadas à pressa...)
Publicado por: Mar às setembro 20, 2006 01:22 PM
Olá!!!
Vi essa série e olha que não é desprovida de sentido e lógica. Abordaram questões pertinentes, algumas das quais eu já tinha pensado nelas... e é tudo, no mínimo, perverso!
Jinhus gandes **
Publicado por: Sue às setembro 20, 2006 01:44 PM
Eu acompanhei, Mar. E se nunca alinho em teorias da conspiração de forma leviana, deixo sempre a porta aberta para, por exemplo, me permitir suscitar a dúvida legítima perante as questões sem resposta.
Publicado por: sharkinho às setembro 20, 2006 03:46 PM