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novembro 16, 2006
A POSTA NOVENTA POR CENTO

Pois é. Ninguém o grama, muitos acham que o gajo não tem nada de especial enquanto blogueiro. Mas bastou o homem enfiar nove em cada dez blogues no saco do lixo para a blogosfera lusa se agitar em convulsão, com uns a tentarem desesperadamente desautorizar o fulano (para prevenirem um desgosto estatístico), outros a assobiarem para o ar (“faço parte dos dez por cento, aquilo é para tomar como um elogio”) e outros ainda a aproveitarem o ensejo para fecharem as portas antes que o tipo metesse a boca no trombone e publicasse a lista que serviu de base ao seu cruel tratamento dos números.
Eu faço parte do grupo daqueles que não reconhecem autoridade ao insigne colega para proferir tais sentenças do alto do pedestal em que os noventa por cento o colocaram (que os da “elite” não lhe ligam pevas), embalados pela projecção mediática que não é tudo mas dá um jeitão nestas coisas do estatuto de quem bloga.
E esta minha (irrelevante) posição nem passa necessariamente pelo facto de eu não ter pachorra para o blogue dele (que originou centenas ou milhares de “réplicas” pseudo-intelectuais assinadas por todo o tipo de cidadão anónimo com pretensão ao estrelato), ou ainda menos por ter a lata de o julgar incapaz. Não é. É um gajo inteligente, com uma bagagem cultural acima da média, não escreve com os pés e fazem falta pessoas assim na blogosfera, nem que seja para a arraia miúda ter alguém com visibilidade a quem apontar o azedume.
O meu esforço de desautorização passa pela certeza de que ele disparou um número ao calhas (“aquilo são nove em cada dez, tudo trampa”) e não possui qualquer base fiável para o afirmar. Por exemplo: ninguém sabe qual é a dimensão da amostra que ele analisou e quais os blogues que serviram de bitola para a sua avaliação. E a margem de erro, hum?
Por outro lado, ficámos sem saber onde se integra o blogue dele nessa afirmação caceteira. E isso é batota, claro está.
Aliás, toda a batota é possível quando se fala de números sem definir os critérios. Ou seja, eu, que não frequento o ilustre espaço do paizinho desta cena (só porque o Zé Magalhães adormeceu à sombra dos louros e lixou-se), posso muito bem concordar com o bacano e truncha, enfiar o blogue dele na faixa maioritária do meu top cem…
Mas claro que eu não pinto nada nesta comunidade virtual e sei que noventa e nove vírgula noventa e picos da blogosfera está-se nas tintas para os bitaites de um Zé-ninguém (excepto se ele os integrar no lote dos magníficos). E esse reconhecimento da minha irrelevância remete-me sem apelo para os tais contentores onde os famosos (e muitos anónimos, admito-o) enfiam o lixo blogueiro.
Contudo, resta-me sempre a hipótese de me deixar iludir pelas tais estatísticas dos contadores que toda a gente desdenha na sua implacável franqueza mas ao quais ninguém liga qualquer importância (instalam-nos porque fica bem do ponto de vista estético).
Ou, pelo contrário, posso sempre alegar que o número de visitantes não reflecte a qualidade do que se publica (o que faz todo o sentido e deveria ser aplicado a outros domínios da vida – o meu Glorioso entrou para o Guiness por ser o clube com mais sócios do planeta mas toda a gente sabe que quem merecia essa distinção era o Cascalheira FC que até oferece um lanche à massa associativa no final dos jogos).
Mas a vida é assim, injusta. E acabam por ser os gajos que blogam para milhares de leitores a ditarem as regras e a enxovalharem os verdadeiramente bons mas pouco divulgados que debitam diariamente pérolas a torto e a direito para menos gente do que a que participa na assembleia de condóminos lá do prédio.
E é esta certeza que faz com que noventa por cento dos noventa por cento que o outro lixa não se revejam nessa maioria anónima (e arrogante) que não mete na cabeça a ideia de que nisto da blogosfera como no resto só dá nas vistas quem merece e que, por muito que insistam na tónica de que “não querem ser demasiado populares” ou que “escrevem para si próprios” e outras preciosidades do género, enquanto continuarem a exibir publicamente em vez de enfiarem na gaveta as evidências da sua real valia expõem-se à crueldade dos factos (dos números) e às bocas foleiras de quem, mal ou bem, conquistou por mérito próprio um lugar ao sol na esplanada vaidosa que esta actividade representa.
Publicado por sharkinho às novembro 16, 2006 10:55 AM
Comentários
Não pesquei nada do que disseste, porque não sei a que caramelo te referes...
Agora no que toca ao princípio, que é a história da legitimidade para enfiar tudo num mesmo saco, ou para julgar quem é bom ou mau e por aí, concordo contigo que ninguém a tem, nesta comunidade virtual. Era preciso que a amostra fosse constituida por tudo quanto é blogue, pequeno, médio ou grande, e que o dito caramelo fosse um "expert" incontestável, o que não me parece que venha a acontecer...
Publicado por: Mar às novembro 16, 2006 12:20 PM
O caramelo é o ganda (a)bru(p)to a que todos atribuem a importância que espelham na insistente citação do fulano, mas ninguém aceita enquanto "outsider" do fenómeno que em muito contribuiu para se proliferar.
É um reconhecido defensor da teoria das elites, homem de enorme valor em muitos aspectos e nem por isso dotado de um talento inquestionável ou de uma atitude louvável em relação aos colectivos que o integram.
Eu, labrego confesso, assumo que não tenho saco para aquele tipo de intelectualidade ostensiva.
E por isso assumirei sempre (e sem complexos por isso) que faço parte da maioria que ele desdenha, sem no entanto vestir a pele do frustrado incapaz de se reconhecer na sua verdadeira (e sempre muito relativa) dimensão (que há de haver forma de medi-la nisto, como em tudo).
Publicado por: sharkinho às novembro 16, 2006 12:36 PM
Ahhh...tou esclarecida.
É claro que o homem tem valor e sabe um balúrdio de coisas. Foi o único gajo que se dedicou a escrever a história do Álvaro Cunhal, por exemplo, o que é positivo, àparte alguns considerandos menos isentos que para lá debitou, relacionados, claro, com o facto de ser militante do PSD.
Mas essa mania de que tem autoridade maior que a minha na blogosfera é que eu não entendo...
Publicado por: Mar às novembro 16, 2006 01:49 PM
LOL, comuna inveterada!
O problema está em confundir-se autoridade com visibilidade, coisas que rimam demais neste meio.
É que a visibilidade até pode implicar reconhecimento legítimo do talento invulgar (vidé os Gato Fedorento), mas não confere a tal autoridade de que ele se arvora para distinguir o "trigo do joio" de forma qualitativa e (ainda mais absurdo) quantitativa.
E não se safa por causa da história do Cunhal, ò comuna! :)
Publicado por: sharkinho às novembro 16, 2006 03:12 PM
(claro que não, foi apenas uma atenuantezinha que eu lhe conferi...) LOL
Publicado por: Mar às novembro 16, 2006 07:50 PM