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novembro 20, 2006
CAIS EM TI

Foto: Shark
A esperança num futuro distante era mais forte do que o desespero presente naquilo que o passado lhe serviu.
Por isso não partiu quando a oportunidade lhe foi concedida. Rejeitou a despedida e abraçou a fé que assomava, discreta, no prenúncio vago de um evento que contrariava o fim que renegou com a sua teimosia militante.
De malas aviadas em redor dos pés bem assentes no cais, acendeu um cigarro enquanto assistia à largada de outros participantes na corrida que abandonou mesmo antes de começar.
A embarcação a zarpar para outro destino e ela insistente na receita que originava a maleita que lhe atormentava o coração, uma estranha opção que o instinto lhe impunha.
Sentenciada pela emoção julgada improcedente na primeira instância da análise racional, recurso interposto pela inteligência emocional que traía as decisões impulsivas das que se arrependia depois.
O barco a partir e a sua existência a prosseguir em terra firme, a lembrança de um nome que não conseguia esquecer.
Gaivotas reunidas no mastro de um arrastão, testemunhas alinhadas da sua indecisão aparente. Afinal apenas cedia num instante alucinado pela ira passageira que nunca implica que se queira embarcar numa alternativa qualquer.
Arremedos de mulher e nada mais.
Sorria no cais por entre uma baforada que se via misturada com o fumo das chaminés de muitos navios que não temiam os desafios e avançavam sem medos, flutuavam por entre os segredos que os oceanos escondiam no fundo da sua alma inconstante que oscilava ao ritmo das marés, barcos alheios à incógnita submersa sob a espuma dos receios provocados pela ondulação.
Sorria pela constatação inevitável da verdade expressa naquela bagagem pousada, outra viagem adiada, impossível.
A quilha na proa que antes rasgava raivosa a superfície do mar cedia à força da âncora que se agarrava na popa, teimosa, à vontade de ficar.
Publicado por sharkinho às novembro 20, 2006 03:07 PM
Comentários
"A quilha na proa que antes rasgava raivosa a superfície do mar cedia à força da âncora que se agarrava na popa, teimosa, à vontade de ficar".
Dois anseios diametralmente opostos..prevaleceu a âncora, a prudência, o instinto, que sei eu?...
És muito denso no que escreves, mas aproxima-te um pouco mais do estilo Hemingway, ou adoça-te em Georges Simenon e seu inesquecível inspetor Maigret...doçura, contemplação, simplicidade do dia-a-dia...
Publicado por: sergio às novembro 20, 2006 07:55 PM
e em tempo, fiz com esta foto o primeiro Webshot sharquiniano...
Publicado por: sergio às novembro 20, 2006 07:58 PM
Vejo que conseguiste apanhar a essência do texto no meio da sua densidade, Sérgio.
E recordo-te que tal como na fotografia não passo de um escriba amador e não tenho pretensão a igualar os melhores. :)
E perdoa a minha ignorância: o que é isso do Webshot e onde posso observar um?
Publicado por: sharkinho às novembro 21, 2006 09:04 AM
Denso ou transparente, gosto do que escreves e só não digo mais vezes porque o weblog boicota. ;-)
Publicado por: Mar às novembro 21, 2006 01:00 PM
E eu, que nunca o escondi, gosto de ti e dos teus elogios mais teimosos (os que furam o boicote sem hesitar). :)
Publicado por: sharkinho às novembro 21, 2006 02:25 PM
Quando te comunicares pelo e-mail secoreb@uol.com.br estender-me-ei sobre este tema webshots. É preciso que já hajas acessado o site e feito o download free. Webshots.com
Quanto ao teu estilo, enganei-me, é denso, vêm as frases como ondas sucessivas, mansas,ao nosso encontro, nós transformados aqui em pilares de um (no meu caso) velho cais...
Publicado por: sergio às novembro 24, 2006 07:48 PM