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novembro 22, 2006
O BLOGUE DO NIM
In “TVI pelo aborto”, por Rui Castro, Blogue do Não.
Escolhi este pedaço de argumentação, mas não faltaria por onde pegar. O blogue do não, um espaço livre de exposição dos pontos de vista dos adeptos da criminalização do aborto, é a face visível da bonomia cristã no folclore costumeiro sempre que a questão se coloca.
Não é preciso dissecar o post para nele encontrar a sensatez e o rigor com que os “defensores da vida” (entre aspas para frisar a ironia implícita em defender a vida por nascer, considerando um nojo denunciar a morte desnecessária de quem a perdeu por culpa da clandestinidade que a legislação impõe) revelam o tipo de campanha que já estão a fazer.
O autor deste desabafo tão self explained esclarece-nos logo na segunda frase a sua condição de telespectador chocado, ao ponto de se interrogar se o programa que (alegadamente) viu de manhã é de facto matinal.
E segue no seu tom cordato e estimulador de um diálogo em clima de paz referindo-se à situação em causa como “miséria humana”. Um “verdadeiro nojo”, como o autor salienta, esta utilização da verdade dos factos que se converte automaticamente (na perspectiva dos que renegam as evidências) num acto de campanha pelo sim.
Faço campanha pelo NIM. Isto porque me assumo no lado oposto da barricada que o dito blogue representa, sem no entanto pactuar com a tradicional e tendenciosa distinção dos que estão contra o aborto e dos que estão “a favor”.
Eu não estou a favor e tenho quase a certeza de que a “miséria humana” que o Manuel Luís Goucha terá identificado no seu programa também não estaria. Ninguém no seu juízo perfeito está a favor do aborto, sobretudo se já passou por tal experiência.
E é essa “subtil” colocação dos “a favor” da coisa por oposição aos que estão “contra” que me impede de assumir o SIM como a minha resposta inequívoca (que votarei) à questão a referendar.
Os canais de televisão, independentemente de quem forem os seus accionistas, são Órgãos de Comunicação Social e possuem por inerência o direito (e o dever) de exibirem os factos mesmo quando estes enojam os que pretendem ignorá-los. Faz parte da crueldade que a liberdade de expressão encerra para quem prefere abafar a realidade no lodaçal do que se sabe que existe mas que se prefere remetido para a masmorra do silêncio pueril.
E acredito que é (também) em nome desse silêncio conveniente que os “defensores da vida” se insurgem contra uma alteração legislativa que evite adicionar a carga de um processo crime aos vários medos que as mulheres se vêem obrigadas a enfrentar nessas circunstâncias. Os medos, as vergonhas e os riscos concretos que o Manuel Luís Goucha terá exposto ao olhar de quem os prefere ignorados.
Se a actual legislação fosse adequada, como defendem os Nãos, o problema estaria resolvido e os canais televisivos não teriam estes exemplos de “miséria humana” para citar. É que é fácil proibir (mantendo ilegal) mas o tempo que entretanto decorreu não nos deu provas de que tenham sido criadas soluções, as verdadeiras contraditas, as alternativas concretas para quem se vê a braços com um problema bem real cuja resolução, em última análise, foi Deus, que inspira a posição da maioria dos “contras”, quem decidiu bem ou mal confiar às suas controversas criações.
Às “boas” e às “más”…
Publicado por sharkinho às novembro 22, 2006 12:16 PM
Comentários
Mais uma vez digo e repito defenderei o SIM à despenalização do aborto, no referendo embora não concorde nem com o referendo, nem com o aborto. O SIM permite a quem o precisar de fazer, cuidados médicos tão essenciais a este problema quer sejam de medicina propriamente ditos, quer sejam psicológicos porque te garanto não é fácil esta tomada de decisão, mas não obriga ninguém a praticar um aborto. O não, pelo contrário, é castrador do direito que todos nós temos de agir com consciência plena dos nossos actos e opções. Mais, o não expõe aqueles que por uma qualquer razão o tenham de fazer a vexames e condições brutais de vida podendo até causar a morte. NÃO ao aborto SIM à despenalização do aborto.
Publicado por: susete às novembro 22, 2006 12:44 PM
Subscrevo-te na íntegra. E preferiria não ter que arrastar o charco para o folclore da cena, mas dei de trombas com o post que citei e concluí que desta vez não podemos manter o silêncio e deixar transparecer a atitude passiva que deu o resultado que deu há uns anos atrás.
Realmente não entendo a quem interessam estes plebiscitos acerca de assuntos que a AR tem competência para legislar...
Publicado por: sharkinho às novembro 22, 2006 01:00 PM
E é por ser contra o referendo que me recuso a votar.
Publicado por: Sirena às novembro 22, 2006 01:39 PM
Eu já estou é enjoada deste debate. Se o país arrumasse com esta questão de vez... Se não fosse o peso da religião no inconsciente colectivo do povo português, estes problemas em torno do aborto já estariam resolvidos há muito tempo. Mas a Virgem e os santos e Fátima e Nosso Senhor e Santa Maria e Santo António que estou na aflição e Santa Luzia que as coisas me correm mal e ...
Publicado por: claudia às novembro 22, 2006 01:44 PM
Charquinho desculpa ter republicado o meu comentário mas como no primeiro o Weblog transmitiu e informação de recusa eu não fui de modas e insisti. Apaga o que está repetido e desculpa mais uma vez
Publicado por: susete às novembro 22, 2006 02:56 PM
Assino por baixo o comentário da susete (duas vezes, se preciso for)
Publicado por: méri às novembro 22, 2006 05:10 PM
NOTA DO EDITOR: O comentário abaixo é o número 15.000 do charco.
A manipulação desta questão por parte dos "Senhores do Não" é precisamente essa, Shark: é que o SIM e o NÃO não se destinam a distinguir se somos A FAVOR ou CONTRA a Interrupção Voluntária da Gravidez. Aí, quem tem que estar contra ou a favor é a pessoa que está grávida e tem que decidir se o faz ou não. E mais ninguém que não temos o direito de andar a dar palpites sobre a vida alheia.
Agora o que os senhores querem branquear é que o SIM e o NÃO se destinam a decidirmos se queremos alterar a actual lei.
Nada mais que isto.
E nem era preciso referendo nenhum porque a Assembleia da República tem competência para legislar, se o quiser fazer.
(alguém nos perguntou num referendo se estávamos a favor ou não da Lei do Código da Estrada, por exemplo??)
Claro que voto SIM, contra a hipocrisia, a favor da liberdade de escolha, contra tornar mulheres criminosas por um acto que só a elas diz respeito, a favor de acabar com a vergonha de ver mulheres no banco dos réus.
Voto SIm pela mudança da lei, pela despenalização.
Ninguém tem nada com isso se eu sou a favorou contra o aborto.
Publicado por: Mar às novembro 22, 2006 08:14 PM
(e já agora aproveito a largueza do weblog para dizer que esta tarde perdi um coment enorme na tua posta sobre pilas...)
Publicado por: Mar às novembro 22, 2006 08:16 PM
Começo por ti, Mar, por duas razões:
1 - És uma tóina! Sabes que esta treta anda marada e não fazes "copy" dos coments grandes, para evitar desgostos. E mais: se tiveres paciência, depois de o "coiso" te dar o internal blábláblá fazes "back" duas vezes e voilá le commentaire... :)
2 - Acabaste de adquirir o estatuto de comentadora 15.000, com o teu penúltimo coment.
Ficas pois na galeria dos notáveis do charco e podes reclamar o prémio no guichet ou podemos promover um evento (A I Gala Charcoment ou assim) onde procederemos à entrega com toda a cagança.
Parabéns, parceira.
Publicado por: sharkinho às novembro 22, 2006 08:38 PM
Não subscrevo essa forma de protesto, Sirena, pelo respeito que me merecem os que lutaram pelo nosso direito a votar.
Mas entendo a motivação inerente.
Publicado por: sharkinho às novembro 22, 2006 08:48 PM
Não podemos enjoar com um debate tão necessário (agora que o referendo é inevitável), Cláudia. Isso seria perder de vista as verdadeiras interessadas no desfecho desta longa metragem.
E isso justifica-nos mais uns mesitos de pachorra para o assunto.
Publicado por: sharkinho às novembro 22, 2006 08:54 PM
Eu também, Méri. A Susete é (mais) uma mulher de causas cuja presença aqui me envaidece.
Publicado por: sharkinho às novembro 22, 2006 09:07 PM
(já agradeci o destaque e tal e alinho na Gala, desde que tenha Moet & Chandom.)
E essa de fazer duas vezes back para ter o coment publicado bem que já podias ter dito. ;-)
Publicado por: Mar às novembro 23, 2006 07:52 PM
Não fica publicado, depois temos que carregar no publicar outra vez. Mas pelo menos não o perdemos (até fazermos o tal copy e desse já te tinha falado - ensino-te os meus truques todos, pá).
E uma Gala sem Moet & Chandom não estaria à altura da tradição festiva da nossa parceria, né?
Publicado por: sharkinho às novembro 23, 2006 08:16 PM
Aproveitamentos da «miséria humana» são o exlibris da vidinha de quem não tem Vida a defender... A polémica questão do aborto ou das variantes que cada vida tem nem devia ser ponto de partida de comentários. A ajuda em compreender os erros cometidos deve passar por serem os mesmos consciencializados e não levados a praça pública para que nos esqueçamos das próprias misérias... Isto dependerá sepre da capacidade própria de cada um por si... Todos nós teremos algo que nos faça parar no tempo e reavaliar acções ou caminhos. É nojento que se aproveitem das fragilidades humanas para cativar simpatias direccionadas para o Sim ou para o Não... É nojento que alguém fragilizado se venda por exposição de privacidade, em troca de sabe-se lá o quê... É humana a necessidade de apoio e compreensão... É tramada a condição humana!
Saudações em Nim até referendada a questão
Publicado por: Nefertiti às novembro 24, 2006 12:43 AM
Nota, Nefertiti, que eu só me refiro ao facto de o assunto ter sido falado e despoletar de imediato uma reacção hostil.
Não sou um adepto de reality shows nem da palhaçada que eles implicam.
Em causa está apenas o angulo por onde o blogue do não atacou o assunto (que me pareceu excessivo e incidindo numa questão melindrosa - a da liberdade de expressão).
Publicado por: sharkinho às novembro 24, 2006 11:48 AM