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novembro 25, 2006
TERRA PROMETIDA
Foto: Shark
Promete-me que esquecerás o que fomos e entenderás o que somos, sem tristeza nem dor.
Deixa partir o amor para o seu recato, um canto afastado e discreto daqueles onde se guardam as memórias e se perdem as ilusões.
Vira as costas às recordações e abraça um futuro melhor assim, a vida passada sem mim nos teus dias do presente oferecido pela minha ausência.
A pacata inconsciência de um coma, estendida na cama que nunca partilhámos, faz de conta, finge que nunca aconteceu noutro espaço que não um sonho teu. Deixa cair.
Passa pelos locais que me estão associados de alguma forma e aprende como se contorna o desconforto de uma saudade que deves renegar. Uma tesoura imaginária a recortar na fotografia a silhueta que pertencia a quem precisas esquecer.
Sabes que não podes manter ocupado o lugar deixado vago pela desilusão que não choras, agora que esperas pela renovação do teu sentir.
Sei que te queres apaixonar outra vez e acreditar que se fez justiça quando acabou a paixão postiça que te amarrava a um ideal sem sentido, esse amor condenado que agarraste em vão e fugiu da tua mão como um pássaro selvagem, partiu para uma viagem pelo céu e tu sabias que não era teu o coração acelerado que sentias no peito onde adormecias feliz.
Promete-me que também partirás agora para outra vida lá fora, livre de novo para buscar o desejo a que te habituei. Não escondo que sei o quanto custa recomeçar, disponível para amar, a sementeira da entrega num campo arado que sentes rasgado pelas garras do destino que nos afastou. Feridas que o tempo não cicatrizou de forma instantânea, saradas apenas as que a revolta submeteu à cirurgia, pela urgência de salvar o que podia.
Para sobrar de ti o bastante para viveres convalescente um amanhã qualquer nesse corpo de mulher que enrolo em caracol na escada do pensamento, como um cachecol que me resguarda do frio que a saudade provocou quando sorriu, trocista, enquanto se fingia fadista e trauteava canções de amor só para me entristecer.
Promete-me ainda, nesta aventura que finda, que saberás sempre acolher nas tuas promessas o benefício da dúvida que a minha actuação estúpida permitir.
Promete-me acima de tudo que as deixarás por cumprir.
Publicado por sharkinho às novembro 25, 2006 11:57 AM
Comentários
Está prometido, rapaz.
Publicado por: João Pedro da Costa às novembro 25, 2006 03:04 PM
Eu sabia que podia contar com o teu amor.
Publicado por: sharkinho às novembro 25, 2006 03:42 PM
Linda esta escrita. Dorida, a apertar o estômago à medida que vamos observando como se desfazem sonhos antigos, planos ousados, dados adquiridos.
Mas forte ao mesmo tempo. Mostrando que há sempre um futuro desconhecido à nossa espera.
Transmites muito bem a tua essência, Shark. :-)
Publicado por: Mar às novembro 25, 2006 03:57 PM
Achas, parceira? Não deixa de ser curiosa a forma como pode transparecer algo de nosso num simples pedaço de ficção...
É assim, a escrita. Cusca-nos a alma como quem não quer a coisa, virada para outro lado, como se as palavras nos observassem de esguelha com a sua visão periférica.
Publicado por: sharkinho às novembro 25, 2006 05:11 PM
Achas, parceira? Não deixa de ser curiosa a forma como pode transparecer algo de nosso num simples pedaço de ficção...
É assim, a escrita. Cusca-nos a alma como quem não quer a coisa, virada para outro lado, como se as palavras nos observassem de esguelha com a sua visão periférica.
Publicado por: sharkinho às novembro 25, 2006 05:23 PM
Somos todos paredes emboçadas, rebocadas e pintadas, ás vezes revestidas de madeira, de azulejos, de lajotas, e cada camada adquirida constitui-se numa defesa a mais de nosso íntimo, ali onde se refugiam sonhos, frustrações, paixões, decepções, enfim, tudo o que nos faz gente de conteúdo.O poeta é o pedreiro, que entra com seu martelo e talhadeira e abre pedaços de si para a contemplação dos outros...Porisso ele é único, e como tal deve ser visto.
Publicado por: sergio às dezembro 2, 2006 02:32 PM