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dezembro 27, 2006
A POSTA QUE A CULPA É DOS OUTROS

Preparava-me para almoçar, no restaurante do costume, quando o bacano começou a elevar o tom de voz duas mesas à minha esquerda.
Fazia parte de um grupo de oito pessoas e berrava indignado:
- Mas há alguém aqui que não faça o mesmo que eu, algum de vocês pode afirmar que nunca fugiu aos impostos? Deixem-se de merdas, faço-o eu como faz toda a gente!
Nenhum dos restantes o desmentiu.
E eu até rangi os dentes com a gana que me deu de entrar na conversa à bruta. Não sou um menino de coro em muitas matérias, mas respondo pelo meu comportamento nas questões fiscais. Não, nunca fugi aos impostos e sim, estou-me nas tintas para os maus exemplos que os outros possam dar nesse domínio.
Farto-me de afirmar que adoro pagar impostos. Quem me dera, aliás, pagar muito mais. E nunca arranjei esquemas para me furtar a esse compromisso, nem permiti a qualquer contabilista que o fizesse por mim para me tranquilizar a consciência.
Esta mentalidadezinha de treta que arrasta provavelmente a maioria dos portugueses para jogadas que fintam os cofres do Estado das mais engenhosas ou descaradas maneiras é uma das explicações para vermos o resto da União Europeia a distanciar-se de nós na pirisga.
Isto não é moralismo da tanga. O bacano estava a gabar-se por conseguir enganar o fisco. A gabar-se, como se isso constituísse um indicador da sua brilhante inteligência. Poucos dias antes apontava o dedo ao Sistema Nacional de Saúde, que utiliza sem hesitar e que sobrevive à custa dos impostos que chicos-espertos como ele se gabam de evitar.
Provavelmente trata-se de um dos patriotas de pacotilha que forraram a varanda com bandeiras nacionais quando a moda pegou.
Este “orgulho” parolo dos habilidosos que defraudam o Estado de toda a maneira e feitio é um cancro da sociedade que estamos a construir, não há volta a dar à falta de ética implícita nestas manobras de diversão por parte de quem na prática se recusa a custear os serviços que utiliza e defende como direito inalienável.
Fujo a este tipo de conversas com pessoas que me sejam próximas. Porque me enojam estas atitudes e porque fico entalado entre o conhecimento factual de uma ilegalidade e o facto de não me predispor a ser o “chibo” que mete a boca no trombone.
Conheço um que viveu mais de dois anos à conta da Segurança Social, numa baixa fraudulenta, enquanto acumulava riqueza num esquema de economia paralela a fazer o mesmo que a saúde não lhe permitia fazer ao serviço do patrão, há mais de dez anos atrás.
Conheço dois que depois dos cinquenta anos de idade conseguiram um “tacho” na Função Pública apenas com o fito de mamarem uma reforma à conta. Nunca se safariam através das vias normais, caso se candidatassem aos cargos que ocupam.
Conheço um que utilizava a viatura de serviço de uma empresa pública para durante o horário de trabalho exercer uma actividade comercial bastante lucrativa e que lhe garantiu um nível de vida bem acima daquele que o seu imerecido salário permitiria. Agora ainda tem a lata de receber uma reforma mensal.
Conheço outro que pagava o seguro contra todos de um carro bem melhor do que o meu endossando-me cheques do então denominado Rendimento Mínimo Garantido.
São apenas quatro exemplos, dos muitos que coleccionei ao longo de uma vida a assistir à forma mesquinha como milhares de portugueses traem o seu país, sonsos de merda que têm a lata de se considerarem honestos apenas porque “toda a gente o faz”. Como os ratos de Hamelin, seguem o trilho uns dos outros e em vez de exigirem aos políticos e aos governantes que apliquem bem o dinheiro dos impostos servem-se deles como maus exemplos a seguir. “Ah, isto é tudo a comer e tal…”
E assim tranquilizam as consciências.
Deviam ter vergonha, estes parasitas da sociedade.
São estes cidadãos comuns tão “exemplares” e “decentes”, estes pequenos bandalhos que transformam o meu país numa realidade onde cada vez mais hesito ser boa ideia criar a minha filha.
Publicado por sharkinho às dezembro 27, 2006 10:39 AM
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Comentários
Adoraria que este teu post fosse escrito em minha terra, pois refletiria justamente o contrário do que por aqui acontece. Posto que pagamos impostos - aliás de toda natureza, à luz do dia ou embutidos - era de se esperar que os serviços mínimos de Saúde, Educação, Segurança e correlatos fossem uma realidsade brasileira. Infelizmente, aqui só funciona a iniciativa privada. Do que depende das classes dirigentes é safadeza, é má política, é deboche e omissão...
Em Portugal pela tua indignação, a coisa deve ser bem diversa...assim, vale a pena pagar os impostos...
Publicado por: sergio às dezembro 27, 2006 11:29 AM
Não é tão diversa assim. Porém, não é seguindo os maus exemplos "de cima" que servimos os interesses da Nação.
Temos que forçar a correcta aplicação do erário público. Fugir aos impostos nunca será uma solução para problema algum.
Publicado por: sharkinho às dezembro 27, 2006 11:40 AM
Eu pessoalmente também ía adorar pagar muitos, muitos impostos.
Mas há casos em que fico sem argumentos. Conheço uma pessoa que possui dois imóveis: um alugado (penso que herança dos pais) e outro que comprou e ficará a pagar nos próximos 20 ou 30 anos. O correcto seria colocar na sua declaração de IRS o valor que recebe do imóvel arrendado bem como o que paga pelo imóvel onde vive. Na totalidade.Mas quanto a este último ele só pode declarar uma pequena quantia da realidade bancária que lhe é imposta anualmente. Na pele dele também pensaria duas vezes...
Publicado por: celia às dezembro 27, 2006 02:43 PM
Tens razão eu também nunca fugi aos impostos, mas também conheço quem tenha declarado pagamentos para além dos que na realidade fazia só porque além de trabalhadora dependente também era empresaria em nome individual já que vendia livros do Circulo de Leitores, estava isenta de contribuições para a Segurança Social mas declarava como pagamento à segurança social a mesma verba que declarava em "Deduções especificas" resultado recebia do IRS sempre à volta de 300 contos. Agora já passaram mais de 5 anos já nada podem fazer. Aliás já está aposentada.
Publicado por: susete às dezembro 27, 2006 03:02 PM
O exemplo que dás, Célia, é um daquele tipo de aberrações que podem ser corrigidas.
Qualquer legislação pode ser alterada pelo empenho dos cidadãos. Mas uma mentalidade mesquinha de salve-se quem puder, cada um por si, é o princípio do fim de qualquer organização. E de um país também, a longo prazo...
Publicado por: sharkinho às dezembro 27, 2006 03:03 PM
São os chamados chico-espertos que não compreendem que só quando todos pagarmos o que nos compete deixarão de haver as assimetrias que hoje existem.
Publicado por: susete às dezembro 27, 2006 03:07 PM
Lá está, Susete: se a máquina fiscal possui imperfeições temos que as corrigir. Não podemos é permitir que o Estado seja cada vez mais uma realidade "exterior" a cada um de nós.
O Estado somos todos nós, ou não é?
Senão, qualquer dia privatizam a coisa... :)
Publicado por: sharkinho às dezembro 27, 2006 03:07 PM
São os chamados chico-espertos que não compreendem que só quando todos pagarmos o que nos compete deixarão de haver as assimetrias que hoje existem.
Publicado por: susete às dezembro 27, 2006 03:07 PM
Exacto, e entretanto vão servindo de bandeja o pretexto para os Governos se desresponsabilizarem de áreas que lhes compete acautelar.
Publicado por: sharkinho às dezembro 27, 2006 03:10 PM
Há um país em que se foge aos impostos porque "todos fogem, até os grandes", não se paga a TV Cabo, porque "são uns chulos", fazem-se downloads ilegais, porque é tudo muito caro, etc... eu também não vou nesta conversa.
Apesar de tudo, julgo que as coisas estão a mudar (lentamente), muito por "culpa" da melhoria eficiência da máquina fiscal (tinha que ser à bruta)...
Publicado por: Kaffa às dezembro 27, 2006 04:22 PM
Exacto, e entretanto vão servindo de bandeja o pretexto para os Governos se desresponsabilizarem de áreas que lhes compete acautelar.
Publicado por: sharkinho às dezembro 27, 2006 04:31 PM
O comentário anterior foi feito mais de meia hora antes da que aparece referida. Destinava-se à Susete.
Estão a mudar, Kaffa, mas são poderosas as forças do bloqueio (nas mentes pequeninas de quem se desculpa com os outros para justificar as suas atitudes de gosma)
Publicado por: sharkinho às dezembro 27, 2006 05:18 PM
Olha outra:
Idoso de 92 anos, paraplégico a residir num lar e que tem uma reforma que nem dá para o pagar. Adicionando enfermaria, médicos, fisioterapia, medicamentos e fraldas, pior ainda. Em conjunto com a família resolve alugar a sua casa para ajudar nas despesas. Será que vão declarar esse rendimento na repartição de finanças? Ou fogem ao fisco?
Estas situações são muito difíceis de serem corrigidas pelo Estado e o empenho também se fica pelo caminho...
Publicado por: celia às dezembro 27, 2006 06:55 PM
Privatizam a coisa ???!!! Pois. A bem dizer que já está privatizada. Então não é que quem vai gerir a Função Publica é uma empreza privada criada para o efeito ? Pois é. Só que ainda vão ver se funciona. Isto quer dizer que vão haver uns senhores a receber uma pipa de massa (Directores subdirectores Vogais e outros que tais) da dita empreza para chegarem à conclusão (após arrecadarem a massa toda) que a coisa não funciona. !!! Pois.
Publicado por: susete às dezembro 27, 2006 10:21 PM
Somos as cobaias e ainda pagamos pelo privilégio, Susete...
Publicado por: sharkinho às dezembro 27, 2006 11:59 PM
Claro que existem situações excepcionais, Célia.
Mas a excepção confirma a regra... :)
Publicado por: sharkinho às dezembro 28, 2006 12:02 AM
Para esses Shark, as coisas só mudam quando começarem a sentir as consequências das infracções que praticam e, nesse particular, a máquina fiscal começa a demonstrar uma vitalidade inédita. É bom, mas ainda insuficiente...
Publicado por: Kaffa às dezembro 28, 2006 03:50 PM
Já me contento com o insuficiente, depois de anos a assistir ao inexistente...
(Atão e essa preguiceira, não acaba?)
Publicado por: sharkinho às dezembro 28, 2006 04:07 PM
(Eu sou do norte, mas devo ter uma costela alentejana :) )
Publicado por: Kaffa às dezembro 28, 2006 11:06 PM
Um ano tem 12 meses, como diria o Conselheiro Acácio.O brasileiro, por força de taxas e impostos variados, trabalha 5 meses só para pagar seus impostos...Ah! sim, nós gostaríamos de pagar ainda mais impostos, h=eróicos patriotas dalém mar, SE TIVESSEMOS ADMINISTRAÇÕES DIGNAS, DINHEIROS BEM EMPREGADOS, TRANSPARÊNCIA NOS GASTOS, SEGURANÇA, ENSINO, SAÚDE DECENTE,SALÁRIOS DA CCLASSE DIRIGENTE E POLÍTICA E JUDICIÁRIA AQUÉM DA LUA (ao passo que os humildes recebem um salário mínimo ridículo).
Aí sim, eu queria pagar 12 meses de impostos e não 5.
Publicado por: sergio às dezembro 30, 2006 12:34 PM
Um ano tem 12 meses, como diria o Conselheiro Acácio.O brasileiro, por força de taxas e impostos variados, trabalha 5 meses só para pagar seus impostos...Ah! sim, nós gostaríamos de pagar ainda mais impostos, h=eróicos patriotas dalém mar, SE TIVESSEMOS ADMINISTRAÇÕES DIGNAS, DINHEIROS BEM EMPREGADOS, TRANSPARÊNCIA NOS GASTOS, SEGURANÇA, ENSINO, SAÚDE DECENTE,SALÁRIOS DA CCLASSE DIRIGENTE E POLÍTICA E JUDICIÁRIA AQUÉM DA LUA (ao passo que os humildes recebem um salário mínimo ridículo).
Aí sim, eu queria pagar 12 meses de impostos e não 5.
Publicado por: sergio às dezembro 30, 2006 12:39 PM
Um ano tem 12 meses, como diria o Conselheiro Acácio.O brasileiro, por força de taxas e impostos variados, trabalha 5 meses só para pagar seus impostos...Ah! sim, nós gostaríamos de pagar ainda mais impostos, senhores patriotas d'além mar, SE TIVESSEMOS ADMINISTRAÇÕES DIGNAS, DINHEIROS BEM EMPREGADOS, TRANSPARÊNCIA NOS GASTOS, SEGURANÇA, ENSINO, SAÚDE DECENTE,SALÁRIOS DA CCLASSE DIRIGENTE E POLÍTICA E JUDICIÁRIA AQUÉM DA LUA (ao passo que os humildes recebem um salário mínimo ridículo).
Aí sim, eu queria pagar 12 meses de impostos e não 5.
Publicado por: sergio às dezembro 30, 2006 12:40 PM
Quem pode tirar-te a razão, Sérgio?
Mas o nosso filme é menos negro, até por força do espartilho de uma União Europeia que não tolera latinices...
Publicado por: sharkinho às dezembro 30, 2006 05:05 PM
Eu não gosto especialmente de pagar impostos, já que em cada ano que passa, e como trabalhadora a recibo verde, pago mais. Mas é uma inevitabilidade e dever pagar aquilo que devo. E nunca sequer me passou pela cabeça arranjar esses esquemas de que falas só para sugar o Estado. E irrita-me ver algum do fausto de quem trabalha directamente nos vários ministérios, que existe. E a quantidade de benefícios de que usufruem e dos quais pessoas como eu nunca verão. De qualquer maneira, se cada um de nós falha nos deveres e subverte as regras do sistema, o sistema começa a acumular pedras e encrava de vez. Essas pessoas fraudulentas nem se apercebem de como o seu comportamento influencia as vidas de todos os outros. Não têm ideia do que é uma sociedade, não entendem o que é o respeito pelo outro.
E nem merecem conversa porque dificilmente mudarão de ideias. Só quando o Estado lhes meter as mãos em cima e os punir exemplarmente, que é aí que as coisas andam a falhar e que parecem ter vindo lentamente a mudar.
Publicado por: Cátia aka Isobel às dezembro 31, 2006 04:20 PM
Brindo a isso. Sábias palavras, amiga. Sábias palavras...
(Diz-te um parceiro na cena dos recibos cor da esperança)
Publicado por: sharkinho às dezembro 31, 2006 06:32 PM
Brindo a isso. Sábias palavras, amiga. Sábias palavras...
(Diz-te um parceiro na cena dos recibos cor da esperança)
Publicado por: sharkinho às dezembro 31, 2006 06:33 PM
(Vamos entrar em 2007 com este eco irritante na mesma...)
Publicado por: sharkinho às dezembro 31, 2006 06:36 PM
Um momentinho, estou indo ao banheiro...Ganda tempestade se aproxima...sem recibos em technicolor.
Publicado por: sergio às janeiro 4, 2007 11:49 AM
kRslJn hi! hice site!
Publicado por: nick às julho 29, 2008 03:27 AM