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dezembro 22, 2006

O CONTO DE REIS - Uma Novela no Espírito do Quadro

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O vento soprava a neve lá fora enquanto o velho Nicolau terminava a decoração do seu pinheirinho. Tinha começado a tarefa onze meses atrás, pois a sua provecta idade já não lhe permitia acelerar em demasia e o médico de família até já lhe tinha proibido o consumo dos milagrosos comprimidos azuis.
O tempo não perdoava, Nicolau bem o sabia. E por isso só fazia aquilo que o corpo deixava, nas calmas, pois as costas davam-lhe cabo da boa disposição e a sua maria há muito o havia avisado que os tempos eram outros e se não se punha a pau dava de frosques e ele tinha que se desenrascar na cozinha se quisesse comer uma filhós.

Só ao terceiro berro da esposa o velho Nicolau percebeu que alguém tocara os sininhos da porta.
“A esta hora?” – pensou, enquanto fazia ranger as articulações pelo esforço de se levantar do chão.

- Ò Natália, onde é que está o gorro?
E ela lá de dentro resmungava que o gorro sempre ficava no sítio do costume.

- Ò Natália, onde é que puseste o roupão?
E ela, possessa, disparava um palavrão. E depois a ladainha habitual, “és sempre a mesma coisa, nunca sabes de nada, deixas tudo em todo o lado, blá blá blá, blá blá blá…”

Mas Nicolau já não a ouvia e depressa desistia de a questionar acerca dos óculos sem os quais via pior do que uma toupeira. “Já vai, já vai!”, gritava ele enquanto se arrastava até à porta onde os sinos não paravam de tilintar.
Quando lá chegou e finalmente a abriu apenas distinguiu umas manchas à distância, perdidas no meio do breu.
- Afinal é só um pastor, querida, mais as suas ovelhinhas…

- Tás cada vez mais pitosga, méne! Aquilo é o gajo da DHL com os sacos das encomendas…

Estremeceu com o susto e dirigiu o olhar para baixo. Sob um halo de luz, um lindo bebé sorria encaixotado nas palhinhas deitado (que o stock de esferovite esgotou).

- Ò Natália, é um milagre! – dizia o ancião, emocionado pela chegada do filho ambicionado que a vida sempre lhe negou.

“Pitosga e senil, é todos os anos a mesma merda…”. Concluiu em silêncio o bebé, cada vez mais enregelado. Fixou Nicolau nas cataratas e esclareceu:

- Olha lá, méne: E que tal levares-me para dentro que está um barbeiro do caraças e eu não quero passar o Natal ao relento! Ou deixaram-me na sede da CAIS por engano, hã?

(Continua)


Nota: Qualquer semelhança entre os eventos e os personagens de ficção desta novela e quaisquer outros eventos e personagens de ficção resultam apenas dos insondáveis desígnios do acaso, são pura coincidência e não dão abébias para processos judiciais, excomungação por heresia ou outras modernices que só servem para atafulhar ainda mais o Sistema Judicial.

Publicado por sharkinho às dezembro 22, 2006 11:00 AM

Comentários

LOL!

(pelo texto, espectacular, e pelos àpartes pessoais)

Publicado por: Mar às dezembro 22, 2006 01:33 PM

Ai, ai... que isto vai acabar mal... :)

Publicado por: kaffa às dezembro 22, 2006 02:10 PM

É o espírito do Quadro, sócia. :)
Jingóbél!

Publicado por: sharkinho às dezembro 22, 2006 02:53 PM

Nada disso, Kaffa! Uma estória de Natal tem sempre um final feliz.
Por falar em feliz: Boas Festas, pá! :)

Publicado por: sharkinho às dezembro 22, 2006 02:55 PM

Música alternativa...oopss...texto alternativo para esta quadra Jingóbél? Foto idem aspas? Fico à espera da promessa do final feliz. É que de presentes infelizes está este mundo farto seja com quadras ou sem elas.

Publicado por: celia às dezembro 22, 2006 03:16 PM

Isso mesmo, Célia. Viródisco mas toca a mesma! Dá-se só uma roupagem mais light pra não enjoarmos de velhinhos de barbas e palhinhas deitadas... :)

Publicado por: sharkinho às dezembro 22, 2006 03:19 PM

Obrigado mas, a mim podes-me desejar Bom Natal que não fico ofendido :) .

Umas Boas Festas para ti e para todos os que por aqui passam. Um abraço!

Publicado por: Kaffa às dezembro 23, 2006 01:12 PM

Recém nascido falando e ainda por cima gíria? Ganda vigarice deste autor...vou logo pra 2007, que aliás o natal só no ano que vem...

Publicado por: sergio às dezembro 30, 2006 01:29 PM