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dezembro 23, 2006

O CONTO DE REIS - Uma Novela no Espírito do Quadro (Cap. II)

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Natália encolheu os ombros perante o olhar alucinado de Nicolau, convencido como nos anos anteriores de que havia recebido a bênção da paternidade na figura daquele bebé nas palhinhas gelado e agora iluminado pela luz quente da lareira.

- Tás bom, JC? – inquiriu ela sem grande entusiasmo.

Com as gengivas a baterem castanholas, o pequeno visitante respondeu com um aceno afirmativo de cabeça. Entretanto, o velho das barbas ruminava as siglas tentando associar o nome à pessoa enquanto ateava a braseira com um fole.

- Olha lá, ò Gepeto da tanga: tens a coisa organizada para este ano? – perguntou JC, agasalhado com um xaile de Natália (“não babes essa treta outra vez, menino, ou amanhã tenho outra vez uma chusma de beatas a snifarem-me o estendal”).

- As prendas? – retorquiu Nicolau – Sim, sim. Falei com os gajos da Manpower e eles desenrascaram-me um bacano da Associação de Reformados e Pensionistas da Pampilhosa. Eu tinha contactado o Centro de Emprego, mas só me mandam putos novos sem carta de condução de trenó…

- Mas quais prendas, pá? Achas que eu ainda ligo a essa tanga? A malta já nem faz presépios nem o camandro, compram aqueles muita farsolas das lojas dos trezentos e metem-nos num canto…
A passagem de ano, meu! É a tua vez de organizar a cena, lembras-te?

Nicolau esbofeteou a testa.

- Pois é, no ano passado foi o… o…
- O Manitu, sim, e já sei que adorou a tua fatiota e que te chamou irmão, ò pele-vermelha de trazer por casa. Mas já que falaste na cena das prendas, vou abrir o jogo contigo. Ando um bocado chateado com a onda do pessoal andar a curtir o meu aniversário sem me ligar pevas.

Natália levantou os olhos do tricô e fixou o pequeno traquina.

- E o que é que o Nicolau tem a ver com isso, ò fedelho?
- Fedelho? Olhe que o respeitinho é muito bonito. Eu já sou falado há dois mil anos e aqui o barbas ainda nem completou um século de impressão em papel de embrulho…
- Deves-te julgar muito importante… Tu tens é dor de cotovelo. Vai mas é fazer chorar imagens da mãezinha prás missas do galo, ò milagreiro da treta.

Nicolau, aflito, balbuciava palavras de concórdia mas nenhum dos dois parecia querer amainar o tom.
E o pequeno JC prosseguia:

- Ganda lata a sua… É por causa do patrocínio da marca? Mas olhe que também vendem Coca-Cola em garrafa. Se calhar anda distraída a promover o consumo dessa zurrapa para arrotar…

Nicolau apanhou logo a deixa.

- Olhem, e por falar em bebidas: vamos tomar qualquer coisinha?
- O puto bebe suminho. É proibido servir bebidas alcoólicas a penetras de fralda. E desmonta do xaile que tem dona, ò meia-leca!

Natália não suportava o miúdo e via nele uma ameaça à estabilidade financeira do seu agregado. Podia lá agora vir um rapazola dar cabo da reforma dourada ao seu Nicolau…

(continua)

Publicado por sharkinho às dezembro 23, 2006 11:20 PM

Comentários

Pelo que vejo tu continuas bem embebido, dogo imbuído...;-)
O pobre do Santa aqui ainda ficou mais maltratado do que nas anteriores pá...vê lá se tens modos.

Mas o conto tá um espectáculo, o que mais irá acontecer...

Publicado por: Mar às dezembro 24, 2006 12:21 PM

"dogo" é assim uma coisa que os chineses têm para onde vão medidtar. Não percebem nada vocês pá...pfff...

Publicado por: Mar às dezembro 24, 2006 12:33 PM

Graças a Deus todo poderoso e a São Nicolau, estas palavras pecaminoliterárias falsificadas como os artigos do chines, abafadas pelos enormes caminhões da COCA COLA, não terão a menor repercussão...quero ver-te entrar no Céu chupando Pepsi Cola de canudinho...

Publicado por: sergio às dezembro 24, 2006 01:33 PM

Medidtação deve ser uma cena profunda, Mar... :)
Acho que vou fazer isso, pra me expurgar da malvadez com que estou a tratar o Nico.
(Não dói, pois não?)

Publicado por: sharkinho às dezembro 24, 2006 02:17 PM

Enquanto chupar a cena pelo canudinho (cá, mesmo a propósito, chamamos-lhe "palhinha") ainda me falta um pedaço para perder de todo o controle nos meus vícios de boca, Sérgio. :)

(Convém explicar que fizemos as pazes nos bastidores, prá malta perceber como estamos sintonizados no espírito do Quadro, perdão, da Quadra.)

Publicado por: sharkinho às dezembro 24, 2006 02:21 PM

Ainda não sei se fiquei com mais dó do Pai Natal se da rena...lol!

E um Bom Natal para ti, Sharkinho.

Publicado por: celia às dezembro 24, 2006 02:22 PM

É um perigo, andar nas estradas... :) (mas olha que a rena não parece muito incomodada...)
Pra ti também, amiga!

Publicado por: sharkinho às dezembro 24, 2006 03:10 PM

Um Feliz Natal e muitas postas no sapatinho ;)

Publicado por: Kaffa às dezembro 24, 2006 04:37 PM

Tá cheio! E calço o 44...
(Cuida mas é do teu, malandro!)

Publicado por: sharkinho às dezembro 24, 2006 04:45 PM

Convidei o Nicolau mas nem se deu ao trabalho de aparecer aqui por casa. Pois é, melhor Ele nem sabe onde tomar um bom tinto alentejano. Para o ano vou convidar o JC pode ser que apareça. Mas só vai apanhar com um belo queijo de ovelha que de bebidas não pode nem ouvir falar só quando crescer.

Publicado por: susete às dezembro 25, 2006 03:26 PM

Ora essa, Susete. "Este é o meu sangue, derramado por vós.". Era tinto, na última ceia. Talvez não fosse alentejano, pois milagres só mesmo na verdadeira Terra Santa que é a tua... :)

Publicado por: sharkinho às dezembro 25, 2006 04:26 PM

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