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dezembro 20, 2006
OLHOS DESERTOS

Pálpebras abertas à força, os olhos não podiam fugir à realidade que não queriam transmitir a um cérebro cansado da vergasta que a verdade empunhava.
A visão inevitável da razão impossível de ignorar depois, quando a mente processava a informação e concluía um desgosto que a cobardia evitava a custo sob as cotoveladas nervosas da lucidez.
E os olhos abertos recebiam o impacto das imagens a sangue frio, coração apertado pelo terrível resultado do raciocínio mais elementar. A vida a revelar a verdadeira dimensão do problema no focinho de cada hiena disfarçada que lhe oferecia outra dentada numa ferida por sarar.
A mente não conseguia abraçar a hipocrisia necessária para impor aos lábios o sorriso circunstancial e depois todos levavam a mal os desabafos sinceros que atraíam outros animais, predadores, em busca de fraquezas por explorar.
Não conseguia imaginar uma realidade alternativa e pintar cor-de-rosa a parede da masmorra onde aprisionava a sua vontade de ripostar. Amordaçada a boca que silenciava a revolta e os olhos proibidos de lacrimejar, vendados por dentro para filtrar o nojo crescente que lhe inspirava aquela gente que encenava sentimentos de brincar.
E afinal era a sério que doía o desmascarar da fantasia que se diz no instante em que se reabre a cicatriz com o cutelo de uma reiterada traição a um princípio qualquer.
Aquilo que lhe dava a ver o mundo, um cenário hediondo que incitava a fugir perante as bocas a sorrir que lhe mostravam as fauces aguçadas, pouco ou nada dissimuladas, por detrás da primeira fila da dentição. Os rostos da desilusão que frustrava por não ser capaz de a esconder.
A vida a doer em cada episódio da novela sem graça, os contornos da farsa que parecia alastrar como uma epidemia global.
A vitória do mal que se esgueirava pelas janelas entreabertas de quem ignorava os alertas que o instinto produzia, a trincheira que se abatia sobre as tropas que enfrentavam o inimigo de peito aberto, desarmadas, e se viam soterradas pela avalancha de constatações.
Somavam-se caveiras na fuselagem dos aviões imaginários que bombardeavam os mais otários na rectaguarda das suas linhas Maginot.
E os olhos fechados para sempre já não informavam a mente alienada da morte anunciada em cada etapa do calvário social.
O óbito da esperança em cada gesto foleiro, em cada impulso traiçoeiro que suscitava a rapina das emoções alheias. A cedência às tentações mais feias que depois urgia cobrir sob um cândido capote cuja água se sacode com uma mentira piedosa ou um falso pretexto de ocasião.
O milagre da ressurreição da alma envenenada pela mensagem inquinada que anuncia a banha da cobra redentora que se alega professora da arte de sobreviver a um pecado qualquer, imaculado por uma espécie de benzina a fingir. E nem a pior nódoa lhe consegue resistir, perdoada a ofensa pela contrapartida que quase equilibra a parada na consciência de cada prevaricador.
As desculpas de mau pagador que os falsos espertos utilizam para fintar o espanto da razão.
Mas os olhos abertos reagiram e não lhe permitiram ignorar o desencanto do coração.
Publicado por sharkinho às dezembro 20, 2006 12:25 PM
Comentários
bom natal para si e todos os que ama...
visita de médico
Publicado por: blackangel às dezembro 20, 2006 02:49 PM
Um médico assim é sempre uma visita agradável. O mesmo para si, com as portas desta casa virtual abertas de par em par para as consultas que calharem em caminho.
Abraço, Angel.
Publicado por: sharkinho às dezembro 20, 2006 03:34 PM
Texto bonito. Muito bonito Sharkinho. Um pouco inatingível para mim. Serão desilusões sobre o que escreves? Também não interessa, não temos que saber e explicar tudo para gostar.
Publicado por: celia às dezembro 20, 2006 06:41 PM
Travo amargo em palavras belas...
Mas sabes que os desencantos "enrijessem", como os banhos gelados que se dão aos putos nos países nórdicos para os ajudar a ficar saudáveis.
E a malta sobrevive. Gelada mas sobrevive. :-)
Publicado por: Mar às dezembro 20, 2006 07:21 PM
Tal como a Mar também acho que que os desencantos nos dão a força para nos sobrepormor e seguir em frente. Pessoalmente sou do genero que deixo passar a primeira desilusão à segunda fico de pé atras e já não sinto mais nenhuma desilusão porque ignoro se me mal fazem pela terceira vez só que aí quem me maltrata já para mim morreu ou melhor pura e simplesmente nunca conheci nunca existiu. E olha que não me tenho dado nada mal com esta forma de pensar.
Publicado por: susete às dezembro 20, 2006 10:06 PM
Nem sempre, Célia, podemos dar-nos ao luxo de escrever de uma forma muito clara e perceptível quando blogamos sem a cobertura do anonimato. E esse é o meu caso, pois já dei o nome e a cara neste espaço.
Mas se te deu gozo a ler, já mereceu mais este tempo que dedicaste ao que fiz.
Agradeço-te por isso.
Publicado por: sharkinho às dezembro 20, 2006 10:39 PM
Pois é Mar, sobrevive-se. Mas acumula-se uma carga de descrédito capaz de transformar-nos em eremitas, quando à nossa inépcia para entender (e com o tempo até acabamos por rejeitar) boa parte do que nos rodeia se soma o facto de nós próprios acabarmos assimilados pelos outros como o "outro lado" da mesma questão.
Isto por miúdos: desconfiamos todos e ficamos mal no boneco uns dos outros porque parecemos empenhados em enfernizar-nos mutuamente as existências pelos medos e pela hostilidade que estes desencadeiam.
Tudo isto me baralha um bocado, confesso. E por isso gosto de escrever acerca do tema.
Publicado por: sharkinho às dezembro 20, 2006 10:50 PM
Já eu, Susete, nunca consegui atinar num modelo que safe os outros das minhas limitações e me preserve das suas reacções inesperadas.
A minha vida tem sido rica em processos de ruptura e parca em oportunidades de reconciliação.
Mas nem é disso que este texto fala, bem vistas as coisas...
Publicado por: sharkinho às dezembro 20, 2006 10:55 PM
Se tirassem os pincéis do Salvador Dali, e lhe dessem uma caixa de letras, sairiam coisas como este post.Parece uma salada de frutas sem frutas, regada a sangue sem sangue, num sorvete quente, numa geleira de rochas, numa sucessão de beijos sem bocas,numa sucessão de finais sem início...
Tudo temperado por uma grande dose de inquietude interior. Habet pacce in tuo cuore!
Publicado por: sergio às dezembro 21, 2006 01:05 PM
O meu coração está habituado a emoções fortes e a perturbações sistemáticas, Sérgio.
A minha cabeça também. E o texto, surrealista de facto, exprime a realidade dos factos tal como os interpreto.
Publicado por: sharkinho às dezembro 21, 2006 03:09 PM
Eu já tinha percebido isso por tudo o que tenho lido que tu escreves e também do que escrevem sobre ti. Não te conheço, mas reconheço em ti uma mente sã ou já teria deixado de visitar esta tua casa. És brincalhão quando a oportunidade se te apresenta mas falas sério muitas vezes e ainda por cima tens uma alma sensivel, que aprecia o belo e é capaz de ver para além do horzonte. Só que o mundo não está feito à tua medida meu amigo e és tu que tens de procurar as melhores soluções para te protegeres. Já vivi mais anos que tu e a minha experiência diz-me que é muito bom viver em harmonia com os outros mas, muito mais importante é vivermos em paz connosco mesmos, com ou sem processos de ruptura com ou sem reconciliações.
Um abraço
Publicado por: susete às dezembro 21, 2006 04:32 PM
Dizem que os olhos são o espelho da alma. Se os da posta forem os teus, faço votos para que a tua alma nunca fique deserta:-)
Publicado por: celia às dezembro 21, 2006 05:12 PM
Essa experiência de vida encheu-te de sabedoria, Susete. E revejo-me no que afirmas.
Não vivo em paz comigo mesmo e isso explica alguns desacertos que transparecem aqui como na minha realidade analógica. Talvez o tempo resolva.
Já agora peço-te o favor de esclareceres um equívoco que te envolve por tabela na caixa de comentários da posta "Grão a Grão". Não gosto de confusões e ainda menos as que envolvam pessoas sem o conhecimento e possibilidade de intervenção das mesmas. Desculpa maçar-te, mas depois me dirás se se justifica ou não.
Abraço também.
Publicado por: sharkinho às dezembro 21, 2006 06:10 PM
Obrigado pelo oásis dos teus votos, Célia. :)
Publicado por: sharkinho às dezembro 21, 2006 06:29 PM
"Já agora peço-te o favor de esclareceres um equívoco que te envolve por tabela na caixa de comentários da posta "Grão a Grão".'(p/susete)
Irmão, aguardam-te no próprio post Grão a Grão sob o nº 30 as minhas considerações sobre este assunto que te poz em polvorosa. De uma brincadeira inocente e destituida de qualquer maldade eu 'agredi uma senhora' com maneira de referir-me inconsequënte e imprópria(sic). Leia meu arrazoado. Não chiaste quando das tantas vezes que te elogiei - foram sinceras - recebendo-os com a pança estufada e ronronante de um adorador do próprio umbigo...é claro que o blog é teu, não precisavas jogar-mo na cara, sr. sargento de milícias...Mas por certo não és juiz nem dono de todas as verdades, aqui.
Publicado por: sergio às dezembro 21, 2006 11:29 PM
"Até sempre e desculpe".
Não quer dizer a mesma coisa no Brasil?
Publicado por: sharkinho às dezembro 21, 2006 11:38 PM
Não, aqui no Brasil esta expressão não tem significado...entende-se, até mas não se usa...
"Só que o mundo não está feito à tua medida meu amigo e és tu que tens de procurar as melhores soluções para te protegeres"(susete).
É de bom feitio cruzar a linha de chegada DEPOIS da cabeça do cavalo...
Grande abraço...
Publicado por: sergio às dezembro 24, 2006 12:38 PM
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Publicado por: viagra às março 15, 2009 12:18 PM