« FLOWER POWER | Entrada | H2O »

janeiro 06, 2007

A POSTA NO ARGUMENTO DOS FETOS

E pronto. Em Oliveira de Azeméis foi distribuído o primeiro folheto verdadeiramente sincero dos defensores do não.
Um padre (who else?) concebeu mais um daqueles aglomerados de fotos chocantes para convencer a sua paróquia a votar de acordo com os princípios que a sua igreja (sim, com minúscula) defende nesta matéria.

Fetos desmembrados e tal. O costume. E os defensores do sim, esses sanguinários assassinos de pré-criancinhas, revelam-se incapazes de contra-atacar com umas fotos à maneira de adolescentes ensanguentadas vítimas de uma hemorragia às mãos de uma parteira obscura qualquer. Mortas, de preferência, para enfatizar a cena e ombrear com as tradicionais iniciativas do catolicismo fundamentalista.

O argumento dos fetos, particularmente querido para o sector radical (e mais sincero) da seita clerical que impulsiona os esforços dos defensores do não, é apenas uma face mais pictórica das frases de choque que adornam tantos placares nas ruas do país.
Sem o poder de outros tempos, em que bastava o cura dar um pum para todos os fiéis erguerem o nariz em profunda reverência, os padrecos de treta (frontais) apelam aos serviços das tipografias para converterem os papalvos mais impressionáveis e, em simultâneo, darem início ao circo costumeiro que desmobiliza quem quer discutir o assunto com a seriedade que os desarma.

Ainda mal começou, a palhaçada. Os médicos também já entraram na dança, incapazes de aguardarem pelo resultado do referendo para adoptarem os critérios que a sua consciência ditar. Querem interferir no processo, também eles cientes do poder que detêm sobre uma camada menos esclarecida da população.
Os mais abastados, regra geral muuuiiiito crentes, já deram sinal por via da recusa antecipada de alguns dos principais hospitais e clínicas privadas do país em darem sequência a uma lei que resulte de uma derrota das suas “cores”.

Pouco mudou desde o último referendo na atitude dos que pretendem que tudo fique na mesma.

Resta saber se ao argumento dos fetos as pessoas de bem correspondem com o argumento dos votos e provam a este tipo de gentinha que a Democracia lhes acabou com a vitória fácil do obscurantismo e do medo dos papões.

Resta saber quantos se dignam levantar o rabinho do sofá e exprimirem nas urnas aquilo que padre nenhum conseguirá desmentir. A maioria da população não papa grupos e a argumentação medieval só prevalece nos bastidores beatos do seu cada vez mais reduzido séquito de seguidores.

Publicado por sharkinho às janeiro 6, 2007 03:50 PM

Trackback pings

TrackBack URL para esta entrada:
http://charquinho.weblog.com.pt/privado/cha-tb.cgi/150154

Comentários

Tens razão e põe palhaçada nisso. Então se o sr 1ª ministro tinha ou tem a convicção de que deveria legislar-se favorávelmente a despenalização do aborto porque enveredou pelo referendo? Porque não submeteu uma lei à discução na Assembleia de Republica? Eu sou dos que vão estar de fachina numa Assembleia de Voto, vou receber mas não vou ficar com os 70 e tal euros, essa era uma verba que poderia ter sido poupada. Esses milhões que se vão gastar eram desnecessários não fosse a hipócrisia do referendo. Quanto aos defensores do não gostava de saber o que fazem quando uma criança é encontrada morta dentro de um qualquer contentor de lixo ou deixadas num hospital à morte em consequência de maus tratos ou ainda o que fazem por aquelas que todos os dias passam fome umas por não terem pais, outras porque os pais ficaram sem o ganha pão despedidos que foram dos seus postos de trabalho. NÃO SEJAM HIPÓCRITAS é que que me apetece dizer. E os senhores padres deviam ser os primeiros a dar o exemplo Cristo, segundo a Biblia apenas tinha uma tunica e umas sandálias pois comparem ao que tem o vigário de Cristo na Terra. A propósito a palavra vigário será da mesma familia da palavra vigarisse?
NÃO ao aborto SIM à despenalização do aborto.

Publicado por: susete às janeiro 6, 2007 05:37 PM

Cum caneco, ninguém a agarra! :)

Publicado por: sharkinho às janeiro 6, 2007 07:37 PM

Cum caneco, ninguém a agarra! :)

Publicado por: sharkinho às janeiro 6, 2007 07:39 PM

(E a mim também não, pelos vistos...)

Publicado por: sharkinho às janeiro 6, 2007 07:40 PM

Para estes padrecos o aborto pode continuar a existir clandestinamente para que os cristãos mantenham o peso na consciência. E lá vão os eles subservientes em busca do perdão. É esta a forma dos padres continuarem a exercer o poder sobre eles. E porque é dramático perderem o poder, vão lutar de todas as formas. Para os médicos passa mais por uma questão económica. Pura hipócrisia.

Publicado por: Maria às janeiro 6, 2007 11:00 PM

É o síndroma da cruz...

Publicado por: sharkinho às janeiro 6, 2007 11:48 PM

Comentei sobre isto hoje à tarde mas já vi que não entrou. Na classe política não me vou dar ao trabalho de escrever.A religião não me diz nada. Aliás esses palhaços, enganei-me, esses religiosos que não permitem o uso do preservativo nem percebo como têm seguidore/as. Da treta mas pronto.
Nunca fiz um aborto mas sinto que se o fizesse eu nunca mais seria a mesma. Quer fosse clandestino ou legalmente permitido.
Mesmo a favor da despenalização o que é triste é não ver nada feito de preventivo desde o último referendo. E tratam se de VIDAS! Num aborto estão sempre duas vidas em paralelo e indissociáveis.

Publicado por: celia às janeiro 7, 2007 12:08 AM

É apenas uma faceta da gigantesca farsa em que tudo isto se tornou.

Publicado por: sharkinho às janeiro 7, 2007 01:57 AM

Shark, já tens uma ideia do que penso em relação a esta matéria. Só acho que não se deve generalizar, a partir de acções de campanha concretas, rotulando de hipócritas milhões de pessoas que, tendo a mesma posição, o fazem muitas vezes partindo de uma base de sustentação diferente.

Aliás, isso passa-se dos dois lados da campanha (campanha a que não tenho dado grande importância, confesso, talvez porque não espere nada de bom dela).

Para além disso, continuo a achar que em todas as argumentações, quer dos pró despenalização quer dos contra à despenalização, se encontram incongruências (em maior ou menor grau).

Cabe, por isso, a cada um votar em função da sua análise da questão e das suas convicções. E ninguém merece ser apelidado de hipócrita por isso.

Publicado por: Kaffa às janeiro 7, 2007 01:08 PM

Eu apontei o dedo com clareza aos excessos com que me confrontei, Kaffa. E não tenhas dúvidas que também conheço hipócritas do outro lado da barricada.
Mas a cena dos fetos dá-me vontade de vomitar.

Publicado por: sharkinho às janeiro 7, 2007 01:21 PM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)