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fevereiro 06, 2007

A POSTA QUE SEI

Admiro, e muito, as pessoas capazes de conseguirem ser porreiras a todo o tempo, imunes às agressões que as restantes (a maioria, a meu ver) lhes impõem com a sua falta de consideração sistemática perante quem prefere mostrar-lhes um sorriso pepsodent a arreganhar-lhes a dentuça.
Quero com isto assumir que não sou uma dessas pessoas que tanto admiro, serenas, bem dispostas, sólidas o bastante para não vacilarem na sua bonomia. São preciosidades nesta sociedade sem respeito pelos seus melhores.
E eu, repito, não me incluo nesse lote restrito e muito gostaria.

Vale-me nesta questão apenas a dita admiração que me leva a rejeitar o abuso, pelo menos no plano das minhas boas intenções, da boa-vontade alheia.
Todavia, e porque tendo a procurar uma postura mais próxima daqueles que admiro, acabo com frequência em posição similar e à mercê de quem confunde gajos porreiros com lorpas. E essa é uma das afrontas que mais reacções hostis me suscitam e mais me desviam de um ideal de "boa pessoa" que jamais poderei abraçar.

A linha ténue onde equilibro a minha vontade de ser um tipo baril e o meu impulso desaustinado para reagir à bruta é em boa medida traçada pelo cruzamento do meu caminho com o dos que não interpretam uma atitude afável senão como um indicador de flexibilidade que confundem de imediato com um sinal de fraqueza.
Quanto mais me exponho no esforço por conceder espaço de manobra ao gajo bacano mais desgostos e desatinos acabo por enfrentar. E assim me revelo instável, com as inexoráveis consequências a que ninguém poupa os indivíduos incoerentes nas intenções versus actuações.

É o meu mais óbvio calcanhar de Aquiles e a vida ensinou-me, em mais de uma ocasião, o custo dessa debilidade no meu grau de adaptação social, de integração em qualquer grupo ou meio onde a frontalidade seja um pecado, uma excentricidade arrogante, e a volatilidade constitua sinónimo de pouca fiabilidade e, consequentemente, motivo de sobra para a perda de confiança.
São armadilhas que um carácter pode produzir e nada nos resta senão aprender a conviver com elas, pois não conseguimos de todo vencê-las.

De pouco me vale apregoar a vontade de ser uma pessoa de bem, sustentada essa noção pela honestidade, pela incorruptibilidade, por uma vida inteira sem prejudicar alguém de forma intencional ou deliberada. Tudo isto mais uma carrada de boas acções, de gestos meritórios, de motivos de orgulho para mim e para os poucos que me acompanham e me acreditam, tudo isso sucumbe à minha incapacidade para cruzar os braços quando me lixam ou a alguém que me seja próximo.
Aí, perco por completo a vontade de ser fiel a uma imagem que prefiro de mim próprio e assumo-me tão deplorável ou ainda pior do que aqueles que me antagonizam. Porque não tolero ataques injustificados, animosidade gratuita ou meros abusos de confiança.

E é destes últimos que trata esta posta. Ou melhor, são o que a motiva.
Um blogue, como já por diversas vezes referi, serve na perfeição como um mecanismo de terapia, um saco de pancada virtual que permite desabafar e, eventualmente, atenuar a (des)proporção das reacções que dão na gana de uma pessoa.
Tenho em mãos algumas situações desta natureza.

E espero que esta posta, como outros recursos, me ajude a encontrar a paciência que há muito esgotei para as enfrentar sem fazer das minhas.

Publicado por sharkinho às fevereiro 6, 2007 09:52 AM

Comentários

Nunca devemos entrar em confrontos com pessoas estúpidas. Descemos ao mesmo nível e eles acabam por nos vencer pela experiência. Nessas circunstâncias rogo sempre a todos os deuses para me darem muita paciência e muito pouca energia.

Publicado por: Maria às fevereiro 6, 2007 10:52 AM

!!! De facto já tenho verificado em como és capaz de ser gentil, atencioso, carinhoso até, em suma um amigão. Mas também já vi o teu outro lado, a tua "linha ténue onde equilibro a minha vontade de ser um tipo baril e o meu impulso desaustinado". Porém o tipo baril que mostras é superior ao tipo desautinado que num impulso perde esse equilibrio. Daí que somando os prós e os contras ficas a meu ver como és. Uma pessoa de bem e sim, estou de acordo contigo quando dizes que: um blogue "...serve na perfeição como um mecanismo de terapia um saco de pancada virtual que permite desabafar e, eventualmente, atenuar a (des)proporção das reacções que dão na gana de uma pessoa." Bom dia amigo.

Publicado por: ! ! ! às fevereiro 6, 2007 11:10 AM

Não creio que seja uma questão tão simples como a estupidez, Maria. Antes fosse. Mas fico com a noção de que se trata mesmo de má-fé, pela multiplicação de casos sempre que lido de forma mais pachola com as pessoas.
Parece que só entendem o discurso de bulldog...

Publicado por: shark às fevereiro 6, 2007 11:16 AM

Como a maioria das pessoas sou feito de aspectos positivos e de outros que nem por isso, Espantação.
Esforço-me por fazer a balança tombar para os que privilegio, sobretudo quando lido com pessoas que o justifiquem, embora nem sempre seja bem sucedido por via da minha forma extremada de sentir tudo quanto me implica.
É por isso que falo de um preço a pagar pelas falhas que o carácter de vez em quando evidencia, ou até pelos erros de interpretação que derivam de excesso de zelo na análise dos espaços em branco (a malfadada especulação...).
Mas lá que andam a abusar da minha pachorra, lá isso... :)
Bom dia, amiga!

Publicado por: shark às fevereiro 6, 2007 11:21 AM

Eu tenho andado a aprender cada vez mais a deixar de ser a gaja do sorriso pepsodent...precisamente porque a maioria daqueles com que temos que privar ao longo dos nossos quotidianos confundirem as duas realidades que descreves: simpatia com tóinice. Para não utilizar um vernáculo um bocadinho mais chocante..
Resultado. Cada vez menos gente me vê os dentes.
E tenho pena. Não porque tenha uns dentes esplendorosos mas pelo que de perda de inocência isso implica. É doloroso deixar de acreditar nas pessoas. E, por incrível que pareça, ao longo de quase 40 anos de vida eu consegui acreditar. De repente, acordei.

Publicado por: Mar às fevereiro 6, 2007 12:37 PM

Eu sabia que tu ias entender do que falo, Mar.
Pelos vistos é mal que anda na fruta...
A gaita é que o reverso da medalha é ficarmos iguais aos que nos provocam tal reacção e cada vez haverá menos gente com vontade de ser (de se mostrar) baril.

Publicado por: shark às fevereiro 6, 2007 12:42 PM

É triste quando se perde a capacidade de acreditar nos outros. Mais ainda porque isso nos pode levar ao mesmo, e deixamos de nos dar...
A paciência é mesmo uma virtude a cultivar.
Beijinho

Publicado por: sofia às fevereiro 6, 2007 03:31 PM

É triste mas necessário, Sofia, perante a sucessão de evidências. E se não nos dermos é porque não encontramos quem nos saiba receber.
Quanto ao cultivo da paciência, estou farto de secas e de geada nessa minha lavoura... :)
Outro.

Publicado por: shark às fevereiro 6, 2007 03:37 PM

!!!Mar e Shark não sou melhor que ninguém e se calhar até sou idiota mas ao contrário do que dizem e embora já tenha uma vida longa, continuo a acreditar nas pessoas mesmo naquelas que de alguma forma me decepcionam. Sei que se deixar de acreditar nos outros chegará um dia em que não acreditarei nem em mim. Assim tenho sempre a sensação de que existe ainda um luz ao fundo do tunel, pelo menos enquanto acreditar em mim vou acreditar nos outros. !!!

Publicado por: ! ! ! às fevereiro 6, 2007 06:23 PM

!!!Mar e Shark não sou melhor que ninguém e se calhar até sou idiota mas ao contrário do que dizem e embora já tenha uma vida longa, continuo a acreditar nas pessoas mesmo naquelas que de alguma forma me decepcionam. Sei que se deixar de acreditar nos outros chegará um dia em que não acreditarei nem em mim. Assim tenho sempre a sensação de que existe ainda um luz ao fundo do tunel, pelo menos enquanto acreditar em mim vou acreditar nos outros. !!!

Publicado por: ! ! ! às fevereiro 6, 2007 06:26 PM

Só falo por mim, mas a fé tem limites. E se o preço para não ser constantemente lixado fôr perder a fé em mim próprio, estou receptivo a considerar tal hipótese.
Isto não invalida que não partilhe a tua percepção nesse particular, Espantação. Os outros são os outros e cada um sabe de si...

Publicado por: shark às fevereiro 6, 2007 06:33 PM

Se calhar não nos estamos é a expressar da forma mais correcta:

É óbvio que eu não deixei de acreditar NAS pessoas. Entenda-se, NAS como significando TODAS e de forma geral. Se há duas coisas que não faço é generalizar oualinhar em fundamentalismos. Claro que há pessoas e PESSOAS.
O que eu queria dizer, é que fui descobrindo que estas últimas são cada vez menos do que aquilo que eu acreditava anteriormente. Antes das secas e das geadas como diz o Shark. A generalidade só quer é lixar o parceiro e esta é uma triste realidade. PESSOAS a sério e que valham a pena são uma ínfima minoria e é preciso tempo e trabalho para as descobrir. Porque as outras, se há coisa que dominam, é a arte do fingimento e quando estamos convencidos acbamos por descobrir que o que parecia ser...não é.

Publicado por: Mar às fevereiro 6, 2007 07:33 PM

Mais uma vez passou-me ao lado. Sou mesmo naif. Eu ando nesta casa da Blogosfera há pouco tempo.
Neste Charco vi muitas palavras humanas. Falhas, virtudes, erros, vitórias, fracassos, avanços e um mar de sentimentos e ainda um céu de razões mesmo sem elas, talvez ...ou não. Mas sempre inerentes a um ser humano.
Eu, com todas as virtudes e defeitos, revejo-me.
É que um Charco também pode ser um espelho...

Publicado por: celia às fevereiro 6, 2007 08:07 PM

Subscrevo-te na integra, Mar. E acrescento que já há quem nem se dê ao trabalho de disfarçar coisa alguma.
Por outro lado, muita gente boa (e este pressuposto desmente que eu não acredito nas pessoas) protege-se não deixando transparecer a tal debilidade que refiro até ter a certeza de com quem está a lidar.

Publicado por: shark às fevereiro 7, 2007 09:41 AM

Não vejo o que te escapa, Célia. Tanto a posta como os comentários dizem respeito à vida real, ainda que neste mundo virtual seja ainda mais fácil e frequente confrontarmo-nos com as realidades que descrevi (por via de ser possível pintar o cenário que se quiser).
O que está em causa é o facto de estar a generalizar-se uma tendência para o abuso ou mesmo para o desprezo relativamente às pessoas porreiras, neste mundo onde a lei da selva volta a imperar e a bonomia é interpretada como uma fraqueza (ou aproveitada como tal pelos vermes de duas pernas que se multiplicam a um ritmo assustador).
Mas pessoas impecáveis continuam a existir e por isso manifestei a minha grande admiração por conseguirem preservar-se assim.

Publicado por: shark às fevereiro 7, 2007 09:48 AM

!!! Continuo na minha. Acredito em mim, acredito nos outros. Tenho vivido assim, vou morrer assim! Eu sou 100% optimista e enquanto viver vou acreditar que é possivel pressistir nesta crença. Se assim não for de que serve viver? Para nós mesmos? Não! É triste demais, só demais, doentio demais, os outros é que me dão alento para viver e lutar por um mundo melhor. Pensem nisso.

Publicado por: ! ! ! às fevereiro 7, 2007 10:33 AM

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