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março 27, 2007
A POSTA AO ALMOÇO
Foto: Shark
Almoço quase todos os dias num daqueles sítios que o progresso quase exterminou. Um espaço cheio de cromos, gente a sério que (alguns há vinte anos) abanca por ali.
É uma sorte poder almoçar num espaço assim. Sem truques, sem tretas, sem outra coisa para oferecer que não o prazer de comer tão bem ou melhor do que em casa.
Queres mais batatas?
E um gajo diz que sim se lhe faltam ou recusa na boa, tal como aceita sem protesto aquilo que o “patrão” entenda servir-lhe nesse dia.
Hoje há dieta!
E lá aterra na mesa uma travessa king size com um generoso cozido à portuguesa.
Isto tá fraco. Levas com os nitrofuranos.
E o frango na grelha é prato do dia porque na lota a Maria não tinha peixe como deve ser.
O bacalhau à segunda, pela praça fechada. E os vinhos escolhidos a dedo pelo anfitrião que gosta de impressionar. Os queijos de fabrico caseiro, a fruta de encher o olho, a arte na grelha com décadas de refinação.
O respeito quase septuagenário pela tradição, contra todos e contra tudo o que ameaça fechar-lhe a porta. As normas que lhe estrangulam o escasso futuro que ele se esmifra todo para prolongar.
Milho aos pombos é que não!
Um tasco clandestino, na verdade uma cantina. Sempre os mesmos de ontem nas poucas mesas ocupadas amanhã. Sempre o futebol, clientela masculina, mais os escândalos do dia que a televisão anuncia nos poucos momentos em que alguém lhe presta atenção.
Os miminhos do patrão e mais ainda de quem o ajuda, de borla.
Os dramas do dia-a-dia de pessoas como qualquer um de nós. Sem papas na língua que as zangas resolvem-se com dois dedos de conversação. Não há segredos na comunhão de um ritual que é confissão por inerência, no corte da casaca cheio de boas intenções aproveitando uma ausência pontual.
O café de encerramento, um lote especial. Dois dedos de conversa, a notícia que interessa acerca dos dias que a vila viveu, actualizada a informação e complementada a conclusão que se depreende das expressões ou dos tons.
A conta e até amanhã, se a norma e a normalização não empurrarem o patrão para um final abrupto da carreira na qual toda a sua vida investiu.
Publicado por sharkinho às março 27, 2007 04:41 PM
Comentários
Que bem se come nesssas tasquinhas.
E que tal para terminar, ir beber uma ginjinha às Portas de Santo Antão :)
Publicado por: Maria às março 27, 2007 07:03 PM
Que bem! Bons almoços para a semana toda.
Publicado por: Nina às março 27, 2007 07:30 PM
Eu adoro casas de pasto.
Publicado por: claudia às março 27, 2007 07:39 PM
Fica um nadinha fora de mão, Maria. E é daqueles sítios onde eu entro e prova daqui prova dali já só saio demasiado tempo depois... :)
Publicado por: shark às março 27, 2007 07:54 PM
Isso é garantido, Nina, neste "refeitório" que descrevi.
Publicado por: shark às março 27, 2007 07:56 PM
E eu adoro pastar. :)
Publicado por: shark às março 27, 2007 07:56 PM
E que não fique ninguém embuçado nessa sala!
É um privilégio esse que tu tens ao teu alcance. Já eu, saio a correr, por norma uma meia hora depois do horário normal de saída do resto do pessoal e, das duas três: ou vou a casa da mamã receber os miminhos da dita mais respectivo rancho, ou faço eu o papel de mamã e agarro numa pizza pré-encomendada para dar de comer aos filhotes, da qual como umas fatias em pé para poder regressar ao serviço, por norma quase sempre no horário normal de entrada do resto do pessoal...tás a contabilizar, né?
E logo eu, que tanto aprecio os prazeres da gastronomia degustados nas calmas...;-)
Publicado por: Mar às março 27, 2007 08:15 PM
A sério? Essa dos prazeres gastronómicos não fazia a menor ideia... :)
(Tens mesmo que mudar de ritmo de vida, pá...)
Publicado por: shark às março 27, 2007 08:25 PM
Ou mudo ou arrisco-me a perder de vez o ritmo à meada...;-)
Publicado por: Mar às março 27, 2007 09:18 PM
A perder o ritmo. Ponto.
Publicado por: shark às março 27, 2007 10:15 PM