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março 20, 2007
PROSCRITO POR ESCRITO
Diz-me de uma vez por todas se aquilo que vês quando me julgas é a imagem de um homem inocente ou a de um carrasco executor.
Define na tua percepção um juízo de valor que te guie os passos perdidos até ao aperto dos meus braços estendidos, o medo ou a confiança, a proximidade ou a distância, uma sentença definitiva que me liberte do banco dos réus e me conduza ao reino dos céus ou em alternativa me condene com a pena capital.
Represento o bem ou o mal nessa avaliação ajuizada da minha alma interrogada pelo teu olhar perscrutador? Culpado ou inocente nesse libelo pendente que simboliza a tua dúvida e castiga a minha estúpida maneira de enfrentar o júri que me quer condenar pelo simples facto de não saber a resposta às minhas perguntas?
Dos crimes que cometi, a punição que já sofri deveria bastar para agora iluminar a tua consciência e garantir a inocência que prometi no momento em que exibi o arrependimento pelo passado expurgado e te juro no futuro não deixar repetir.
Na tua hesitação perdi a absolvição que ambicionava, a questão que se colocava não integra qualquer código penal. A causa era afinal a nossa, a tua escolha que a destroça pela ausência de uma decisão peremptória.
E assim acaba esta história, com o veredicto por conhecer. Aquilo que julgava merecer não passava de uma euforia, quando em segredo te dizia que a justiça seria feita. Mas o júri aproveita a condenação de bandeja oferecida pela tua indecisão.
A ausência de uma intervenção abonatória a sentenciar na minha memória a farsa do alegado perdão.
Ofereço os punhos às algemas e digo-te nada temas, pois não tentarei fugir da consciência penitenciária que me flagela voluntária e te preserva de me castigares também.
Por inerência, em cada segundo de ausência.
A tua pena de prisão perpétua neste amor de que me assumo refém.
Publicado por sharkinho às março 20, 2007 11:01 AM
Comentários
"Diz-me de uma vez por todas se aquilo que vês quando me julgas é a imagem de um homem inocente ou a de um carrasco executor", começas tu assim o teu texto.
Por entre as metáforas, faço a minha alegorese, lendo o texto a partir da minha vivência. E sabes, no meu clamar de inocência, que deixei pelo silêncio, concluí: mesmo sem julgamento, mesmo sem pena, já sofro castigos estúpidos de culpas absurdas. A minha vida é um teatro, ia dizer barroco, mas é mais commedia dell'arte, arlequim de mil cores.
Publicado por: Nina às março 20, 2007 12:22 PM
Os meus textos não são facilmente descodificáveis, Nina, porque não raras vezes persigo mais do que um objectivo no alcance das palavras.
Castigos estúpidos de culpas absurdas são mato, numa sociedade com o dedo tão leve no gatilho...
Não deves por isso deixar-te esmorecer, mas antes aprender as técnicas mais eficazes para te poupares à leviandade punitiva em voga.
Digo eu, que sou rotinado nessas tretas... :)
Publicado por: shark às março 20, 2007 02:32 PM
o cão é um galgo, não?
Publicado por: py às março 20, 2007 02:39 PM
Não, py. É um rafeiro arraçado de podengo.
Publicado por: shark às março 20, 2007 02:40 PM
Olá a este es+aço "Charco".
Penso que não existe nenhum "homem inocente" e quanto a carrascos, ainda por cima executores...só em relação a uma sociedade comum e alheia ao mesmo tempo. Quanto ás pessoas que fazem parte da nossa vida, aliás, da vida de cada um de nós, realmente humana... é só dar valor. E se há um veredicto por conhecer, então, essa história não pode acabar.
Ou melhor, vai acabar...mas com um final feliz.
Publicado por: celia às março 20, 2007 10:18 PM
Fazem falta, Célia, as tuas mensagens tão cheias de luz.
Consegues dar a volta aos meus textos por mais retorcidos e pessimistas, amiga. :)
Publicado por: shark às março 20, 2007 11:22 PM