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abril 24, 2007
DESPORTO RADICAL - A Caça

Nem sempre nos calha falarmos de assuntos que nos interessam. Por vezes até se justifica abordarmos temas que abominamos por esta ou aquela razão, apenas para garantir que não existem temas tabu.
No entanto, e embora a caça seja o desporto radical desta prosa, permito-me (com a vossa licença) não esbanjar o nosso tempo a falar do quanto é fascinante disparar uma arma de fogo sobre um animal qualquer. Ou da injustiça de já quase não haver alvos de determinadas espécies, uma queixa frequente dos que não frequentam coutadas particulares.
(Pode ler esta crónica também na VOX)
É que a caça, como qualquer atirador experimentado o alegará como escapatória para o seu estatuto de “matador”, domina o Homem (sobretudo com minúscula, pois as mulheres em regra só há pouco tempo começaram a vestir o camuflado – muitas vezes precisamente durante a ausência prolongada dos seus consortes caçadores) desde há milénios.
A caça está arreigada nos hábitos e costumes da população, apesar de arriscada, e assim se prova como é radical a postura do portuga contemporâneo. Por outro lado, a modalidade constitui um excelente pretexto para dezenas de milhar de chanfrados (sim, porque um gajo acordar às três da manhã numa noite gelada e deixar a mulher sozinha na cama para ir matar passarinhos num ermo qualquer, enfim…) poderem conservar de forma legal uma arma de fogo com a qual muitas vezes acabam por caçar os passarões que lhes entram pela janela do quarto pela surra enquanto procuram lebres ou perdizes no campo.
Claro que isto é uma caricatura da realidade, pois existem muitas famílias onde é bem aceite este passatempo ancestral que por vezes até dá para poupar uns trocos em carne no mercado da freguesia.
Não faltam as que abençoam o pretexto para verem pelas costas os cretinos que aturam dias a fio, torcendo com afinco pela abertura de uma nova época de tirinhos que lhes desamparem a loja aos fins-de-semana.
A caça pode assim servir de terapia para evitar algumas separações perfeitamente evitáveis (olhos que não vêem…).
E assim proliferam pelo dia a dia as adaptações que a sociedade fez desta popular modalidade para poder praticá-la em quaisquer condições.
Durante as campanhas eleitorais, por exemplo, é frequente encontrar os caçalíticos (caçadores políticos) em plena caça ao voto nas feiras e outros locais onde abundam alvos potenciais.
Mas também é famosa a caça ao “pato”, com variante externa (angariadores de rua do time-sharing) ou interna (caçadores/as telefónicos dos mais variados embustes). Em ambos os casos, o “pato” é aliciado com viagens e outros engodos e quando dá por ela já tem as rodelas de laranja nas margens da travessa onde o irão trinchar, mês a mês.
Em voga nestes tempos de crise, a caça à multa adquire particular relevância e se antes só os agentes da autoridade podiam disparar coimas, a EMEL e outras empresas camarárias de extorsão legalizada podem agora disputar as peças de caça em plena via pública.
Das Caçadeiras
Outra variante mais moderna, conhecida pela caça ao disponível em condições, é praticada em exclusivo por caçadoras e distingue-se pela extrema dificuldade de encontrar alvos adequados que, de acordo com as praticantes federadas, escasseiam. De resto, o disponível em condições é uma espécie em permanente via de extinção na parte inferior da pirâmide etária (solteirus incautus) embora se encontre com relativa facilidade nas camadas mais maduras da população (divorciadus recentis).
Pela lei da oferta e da procura (e porque se alguém os descartou algum defeito lhes encontrou), esta última peça de caça é menos valorizada e normalmente abatida apenas para consumir os cartuchos remanescentes (excepção feita ao divorciadus recentis abastadus entradotis, muito cobiçado como troféu – depois de embalsamado pela sua caçadora ou “recém viúva” fica óptimo numa parede da sala).
Muito mais haveria a dizer acerca deste desporto tão popular, mas ficamo-nos pela recomendação prudente de que se fiquem pela caça aos gambuzinos. Não requer uma licença (nem mesmo dos visados), dispensa armas de fogo, não coloca espécies em risco e, acima de tudo, evita as deslocações frequentes sob o frio da madrugada e evita assim que ao fim de algum tempo mais valha a alguns caçadores dedicarem-se à pesca…
Publicado por sharkinho às abril 24, 2007 10:18 AM
Comentários
Nina, a compulsiva (nem me reconheço...)!
Continuando a tua metáfora da caça, eu não tenho pontaria nenhuma. Raras vezes atiro, que sou menina recatada, e quando o faço, rendo-me aos olhos vidrados da peça ferida. Mas, olha, que a pesca também não é solução. Ao menos, de caçadeira na mão, corres montes e vales e fazes mal ao teu colesterol.
Publicado por: Nina às abril 24, 2007 11:40 AM
A caça...
Parece que faz crescer pêlos no peito a quem a "pratica".E se virmos bem não há nada melhor para a virilidade do que pegar numa arma que pode provocar a morte apenas com um tiro, juntar uns cães treinados para o efeito, aproveita-se e levam-se uns amigos para parecerem muitos e vamos atrás de coelhos, perdizes, javalis ou seja o que for. o que interessa é que sejam animais indefesos e mais pequenos que um dos 25 cães que levamos, sem as mesmas "armas" que nós (pq assim perdia a piada) e depois quando formos para casa vamos exibir orgulhosamente as nossas vítimas por cima do atrelado. Com um arsenal destes o mínimo que se exigia era conquistar Olivença!Ou para quem é ambicioso e gosta de desafios reconquistar a Madeira para Portugal.E não me venham falar em veados ah e tal até são maiores do que os cães...um homem com uma arma é o maior dos animais (em todos os sentidos).
Se me permites vou usar este teu post para a minha cama de solteiro.
Publicado por: Hugo às abril 24, 2007 12:53 PM
Dá-lhe, Hugo, já que prezas tanto esta "prática desportiva" como eu...
(E tendo em conta o texto e o nome do teu blogue, tens justa causa para defenderes a posição da "vítima" potencial...) :)
Publicado por: shark às abril 24, 2007 12:59 PM
Menina recatada, hã? Isso dói? :)
Good girls go to heaven, bad girls go everywhere...
Publicado por: shark às abril 24, 2007 01:09 PM