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abril 15, 2007

MÁSCARA DE FERRO

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Tentou perscrutar a verdade naquele olhar por detrás da máscara que escondia a realidade que queria nua. Mas a hipocrisia cobria-o com um véu e apenas conseguia ver o céu, encoberto pelas nuvens da mentira por contar.
Faz de conta o amor, um dois três, e agora é a tua vez de brincar. Um sorriso a despontar por debaixo da cara coberta, o final da madrugada naquela boca rasgada em vão sem reflectir o coração apagado como o pavio de uma vela soprada pela brisa fresca da manhã.

O Outono naquele olhar cinzento, a magia de um momento pintado pelo tom carregado da ameaça de um temporal. A aurora boreal num reflexo de luz enganador, a promessa de um amor esquecido, nas folhas perdido de um calendário do ano que já passou.
Mascarada a consciência de foliona sem prudência, sentimentos de fantasia naquela boca que sorria à espera de um beijo com sabor a troféu.

E a loucura naquele céu por detrás do disfarce, o voo de um milhafre em busca da sua presa distraída a fazer pela vida, à cata das migalhas que a existência lhe oferecia de vez em quando e dos milagres que sonhando quase pareciam acontecer.
A boca irresistível, o apelo carnal de uma aventura de Carnaval, temível pelas consequências, tamanhas as exigências que deixava de valer a pena arriscar pelo prazer de beijar aquela boca em forma de anzol.

Os olhos traiçoeiros que ocultavam arpões certeiros mais as palavras que seduziam como redes que envolviam num abraço a vítima da tentação.
E ele tentava acordar antes de a armadilha o encarcerar num beco sem saída naquela fêmea escondida por detrás de uma cobertura apetitosa, uma máscara gulosa que aliciava pelo mistério e prometia um caso sério na sequência de um beijo naquela serpente em forma de anel.

Lucrécia Bórgia, Medusa, lábios de mel e a mão estendida como uma serpente escondida por detrás da pele embebida em cianeto, o encantador aspecto de uma ratoeira para o primeiro a abandonar o navio e a enfrentar as águas revoltas da traição arquitectada.
O beijo da perdição, evitado no último instante pela recusa do amante potencial que desperta para o mal que o seduz e vira as costas à luz do farol que o atraía com a sua luz para as rochas afiadas, um naufrágio a menos nas contas da matreira com a sua pose traiçoeira que a máscara tombada frustrou num olhar demasiado sincero.

A verdade assim exposta, a perfídia à mostra na identidade revelada pela expressão contrariada de uma predadora convicta, conquistadora invicta até ao dia de um não primeiro no rosto trocista do pioneiro que a derrotou quando elegante a cumprimentou e saiu porta fora e a cavalo foi embora, muito bem acompanhado, para longe do palácio onde a festa aconteceu.

E até hoje ninguém descobriu o nome daquele homem mascarado que permaneceu disfarçado nessa noite de Carnaval e fugiu com a rival da poderosa anfitriã, a mais bela cortesã que o reino conheceu.

Publicado por sharkinho às abril 15, 2007 06:16 PM

Comentários

O fim-de-semana fez-te bem, pelo menos para a escrita. As Lucrécias são terríveis... Este texto é um misto de Carnaval com venenos renascentistas.

Publicado por: claudia às abril 15, 2007 09:20 PM

As pessoas mais bonitas são as que não usam máscaras. Quanto a estas, as mais bonitas são as de Veneza. Mas só no Carnaval!:)

Publicado por: celia às abril 15, 2007 09:50 PM

Concordo com a Célia e tudo isto me faz recordar um livro... Morte em Veneza. lol.

Publicado por: claudia às abril 15, 2007 10:02 PM

Muita traição, muita falta de lealdade de gente que é melhor ficar sem rosto, até no Carnaval!

Publicado por: Maria às abril 15, 2007 10:09 PM

Tudo serve de pretexto para contar uma história, Cláudia. Ao domingo prefiro isso a qualquer outra opção para uma posta. Manias... :)

Publicado por: shark às abril 15, 2007 11:00 PM

Sem máscaras funciona tudo melhor, Célia. Para quem usa e para quem olha de fora.

Publicado por: shark às abril 15, 2007 11:06 PM

Ora, Maria. Isto é pura ficção, não existem pessoas assim. :)

Publicado por: shark às abril 15, 2007 11:09 PM

As tuas ficções são muito realistas. Até visualizamos a sala e o baile e os mascarados todos. ;-)

Publicado por: Mar às abril 15, 2007 11:38 PM

Mas visualizam meros personagens de fantasia, no caso concreto.
Às vezes temos que inventar pessoas para um texto ter alguma "carga dramática". E de resto, menina Mar, quem é que me ensinou a recorrer à ficção nisto dos blogues? :)

Publicado por: shark às abril 16, 2007 12:44 AM