« HAVE A NICE DAY! | Entrada | (LIS)BOA TODOS OS DIAS »

abril 19, 2007

SWING THE BLUES

a traccao.jpg

A mulher comprometida lançou-lhe um olhar que lhe pareceu combinar com o sorriso malandro que a sua boca tentadora compunha naquele rosto quarentão.
Lembrou-lhe o anúncio que colara no vidro traseiro de um carro que queria vender mas a lei proibia de anunciar à descarada. E o marido dela, pensou, quem podia autuar naquela circunstância, ficou sem argumentos para exercer o direito de preferência pois não descobriu à despedida, na falsa saudade prometida, a intenção prevaricadora.

A esposa sedutora, tão discreta, escrevia com os olhos uma proposta secreta para o alvo da sua cobiça. Um homem diferente para cada noite ausente em negócios, o marido atarefado demais para evitar a cama vazia. Um homem que a despia em sua substituição, não queria saber de paixão mas apenas do desejo e da companhia em cada noite fria naquela cama que era o palco das suas mais incríveis actuações.
Aquelas que o (des)interessado não via, tão ocupado a magicar a melhor forma de a enganar com uma outra que o deslumbrava como ela não conseguia.

E o homem desse dia, seleccionado pela matadora, avançava destemido para o contacto inicial. A confiança fundamental que o seu rosto transmitia era como a garantia de uns meses para a viatura que queria vender, a fulana que ia comer precisava de o sentir inofensivo sob qualquer ponto de vista. Era apenas um malabarista na gestão das maçãs que lhe calhavam na rifa, as dentadas doseadas em função da sua perspectiva subjectiva (que cada um, nestas coisas, cuida de si).

E ela ali, controlando as testemunhas em seu redor, tentando afastar a hipótese de alguém descobrir naquela forma de sorrir uma oferta pública de aquisição temporária. O fim daquela história traçado, adeus e obrigado que fica o segredo na lembrança e aquela aliança no anelar do fulano acautela a sua preservação.
Os dedos daquela mão, proibidos, percorrendo-lhe a pele e o corpo anónimo a fornecer-lhe o calor tão humano e natural.

O homem escultural, um amante ocasional, descontraído, que hesitava no preço pedido pelo carro que queria vender e nisso pensava em segundo plano sem imaginar a dimensão do seu engano, a bronca garantida por uma coincidência assim, quando se apresentou à esposa do homem de negócios que a sua aguardava numa esplanada próxima dali.

Publicado por sharkinho às abril 19, 2007 10:41 AM

Trackback pings

TrackBack URL para esta entrada:
http://charquinho.weblog.com.pt/privado/cha-tb.cgi/155393

Comentários

parabéns...

Publicado por: blackangel às abril 19, 2007 11:36 PM

Obrigado. E tenho a certeza de que se não fosses tu esta caixa iria acabar tão vazia como quase todas em que arrisco em temas menos consensuais.
E nesse caso, obrigado outra vez.

Publicado por: shark às abril 19, 2007 11:49 PM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)