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maio 04, 2007
A POSTA SONHADA

Naquele sonho as caras não se viam e as palavras que se liam falavam apenas de coisas que ninguém queria saber.
Imagens difusas de situações confusas e a pessoa que sonhava não conseguia interpretar a mensagem escondida na garrafa à deriva pela orla de um naufrágio qualquer.
Imagens imensas com cores intensas no lado de fora de uma barreira transparente que separava na mente as duas verdades por conhecer.
A sensação desconfortável de um enigma indecifrável nos gatafunhos gravados a fogo na pele de um animal. O alerta naquele sinal que não despertava a pessoa que sonhava mergulhada num desconcertante torpor.
Falava-lhe de amor aquele fantasma pintado, os olhos em movimento num quadro pendurado na barreira transparente por um dos pregos manchados pelo horror da crucificação.
Uma pessoa condenada naquele cruzamento de dois paus, o lamento dos seus irmãos e de repente uma vontade premente de se deixar embalar pelo desabafo de um chorar em seco no corpo adormecido da pessoa que sonhava e tanto queria acordar.
A figura aparvalhada de um observador, um transeunte inesperado naquele retrato sonhado de um turbilhão de emoções. Parado diante da máquina de filmar que substituía o olhar da pessoa que sonhava e entretanto registava para mais tarde somar dois e dois.
Acordaria depois, como intuía naquele sonho disparatado que se via desmascarado pela incongruência do guião. A estranha sensação de ausência no interior de uma experiência que o observador (participante) levava a cabo para escrever um tratado acerca da vida para lá da morte de que se afirmava conhecedor.
Um cientista do amor que provava tratar-se de um sentimento imortal. A prova final no acerto da equação, a hipótese testada e o conhecimento a fluir no rolo de papel da máquina que imprimia os resultados enviados do céu.
A fantasia exagerada naquela banda desenhada que prendia a atenção inconsciente da pessoa que sonhava num instante todos os medos sentidos num período de tempo que enquanto acordada, essa pessoa só queria esquecer.
O sonho tão belo transformado num pesadelo e o cientista maluco calcando as fórmulas pelo gargalo da mesma garrafa que a memória conservara de uma imagem anterior.
A matemática do amor, ciência exacta, explicada em números dourados no anexo ao relatório enviado pelo escritório de uma empresa de certificação.
A venda de uma ilusão, depois de cobertos os olhos por detrás daquela lente que registava na mente os pequenos retalhos de informação dissimulados por entre o espalhafato de um estranho ritual.
Naquele sonho, os profetas não acertavam e as tretas abundavam até ao momento libertador.
A pessoa que sonhava, estremunhada, recebeu como uma bênção o som estridente do seu despertador.
Publicado por sharkinho às maio 4, 2007 11:36 AM