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maio 24, 2007

DO PENSAR COM A PILA

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Eu tive um cão, um rafeiro meia leca, cuja reputação no Bairro do Charquinho assentava em duas características mais destacadas: era estupidamente guloso e comia três ou quatro queques por dia no café do Bairro, pensava com o estômago; e era o macho canídeo com maior taxa de sucesso na finta aos donos incautos de cadelas, também pensava com a pila.
E é nesta última expressão que me debruço, pois tudo aquilo que verdadeiramente interessa já está a ser minuciosamente dissecado por uma chusma de especialistas e de pensadores e ninguém liga aos pequenos nadas que também fazem a realidade terra a terra do nosso quotidiano.

Pensar com a pila é uma expressão idiomática que aplicamos aos gajos que, como o meu cão acima citado, concentram o raciocínio numa prioridade específica (determinada pela pila) e deixam dominar o comportamento em função do objectivo primordial. Ou seja, tomam as suas decisões de acordo com a premissa de que mais vale uma passarinha na mão do que duas a esvoaçar fora do alcance do predador.

Tentando perceber a origem deste popular conceito, chama a atenção o facto de existir uma associação de ideias entre aquilo que definimos como a cabeça da pila (onde na verdade quase tudo acontece em matéria sensorial e isso para o povo só pode ser prova da existência de uma inteligência superior) e a capacidade de pensar.
Faz sentido. Se existe uma cabeça, não a vamos presumir acéfala. E considerando o imediatismo da reacção da pila a certos estímulos, é natural que a entendamos como um órgão autónomo e dotado de vontade própria. Às vezes até dá essa impressão...

Claro que a evolução do estudo anatómico já permite afiançar a inexistência de um cérebro (no sentido convencional) na mais polémica extremidade humana, mas à sabedoria popular pouco interessam os avanços científicos nesse particular (excepção feita ao domínio da investigação de fármacos e de utensílios capazes de melhorar o desempenho e/ou o tamanho do objecto de estudo – viagra, enlarge your penis e afins).
Daí à constatação empírica de que existem indivíduos cujo discurso e atitude parecem absolutamente condicionados pela vontade suprema do falo é um passo, na forma simples e prática que o povo encontra para distinguir os traços mais marcantes das partes que o compõem.

E é nas partes que incide a reflexão espontânea do pensador de rua quando analisamos a génese da associação pila/pensamento, mais do que no encéfalo dos visados (onde sabemos afinal produzir-se o toldar do raciocínio perante um ombro desnudo ou um olhar mais sensual).
Se por um lado isso implica um estudo ao nível da observação comportamental (de esguelha), também revela o cuidado com o eventual processo cognitivo de uma porção particularmente reactiva da anatomia masculina.

O povo é quem mais ordena também no sentido da vida e isso comprova-se com a fertilidade do terreno de onde brotam as conclusões que permitem explicar de forma lógica e elementar os mais intrigantes mistérios que esta Humanidade tão profunda consegue produzir para posterior decifração.
E assim conseguimos identificar peculiaridades e traduzir as suas repercussões num condensado de palavras que fornecem todas as respostas necessárias para uma existência sem dúvidas naquilo com que lidamos de perto em cada dia.

O meu cão actual só pensa com o estômago. E por isso é virgem.
Essa relação causa/efeito denuncia o preconceito que me leva de forma instintiva a considerar o bicho estúpido como uma porta.

E esta conclusão basta-se a si própria para fundamentar o pressuposto de que na sabedoria popular existe sempre uma verdade intrínseca que não se compadece das certezas relativas de uma abordagem mais científica.


Bibliografia

A Mitologia Embrionária do Homem das Tabernas (Edições Reguengos Tintos), por Zé Móinas
Do que Falo (Edições Pi'), por Zé Bastos
Neulocilulgia da Glande, Vol II (Edições Chao Chao), por Dr. Zé Pili Lau

Publicado por sharkinho às maio 24, 2007 11:58 AM

Comentários

Vejo que andas a aplicar bem o tempop...na pesquisa científica, digo. Pela excelente bibliografia, comprova-se perfeitamente a tua preocupação em aliar a prática às bases teóricas da coisa. Quando completares a tese, avisa. ;-)

Publicado por: Mar às maio 24, 2007 09:55 PM

Temos que investir um pouco de nós nestes temas aparentemente irrelevantes, Mar.
E quando digo "temos", falo de gajos como eu que se vêem perdidos no meio de tanta gente a falar de assuntos complexos e de primeira água.
Hoje deu-me para as coisas pequenas e a que ninguém presta atenção ou dá o devido valor... :)

Publicado por: shark às maio 24, 2007 11:36 PM

Apreciei sobretudo a bibliografia :)) .

Publicado por: Kaffa às maio 24, 2007 11:48 PM

Ou não fosses tu um homem atento ao pormenor... :)

Publicado por: shark às maio 25, 2007 12:13 AM

onde é que arranjas estas imagens?
lol :)

Publicado por: Maria Porto às maio 25, 2007 04:58 AM

Foi nalgum desses "bate-fundos" do underground da net... :)

Publicado por: shark às maio 25, 2007 11:01 AM

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