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maio 23, 2007

FRAQUE PRETEXTO

É possível aprender a impor na nossa ideia a coexistência de impressões antagónicas acerca de um mesmo assunto. Ou seja, perante o dilema que este ou aquele tema coloca conseguimos justificar, em processos de raciocínio mais ou menos “sofisticados”, a defesa dos dois extremos de qualquer questão.
Esta gestão das contradições de que qualquer mente flexível (e de alguma forma permeável às distorções de índole emocional) se faz ocorreu-me a propósito do tom de uma peça que li no Sol acerca de uma empresa de cobranças difíceis qualquer.

Soou-me demasiado simpática a abordagem ao esquema da perseguição movida a cada um dos cerca de oito mil(!) envolvidos na carteira de clientes da dita organização.
E aqui entra um caso prático do que acima afirmei.
Se por um lado é fácil vestir a pele de quem se vê alvo de um calote (e essa perspectiva é referida no artigo), desculpabilizando o recurso aos fulanos que, entre outros mimos, “anunciam” à vizinhança do seu alvo o respectivo estatuto, também vale a pena encaixar nesses milhares de assediados alguns exemplos de pessoas de bem a quem a vida correu mal.

Estes últimos casos (talvez a minoria, nesta terra cada vez menos honrada) podem tratar-se de vítimas de um esquema que se orgulha de uma taxa de sucesso na ordem dos 75 por cento mas que pode arrasar o bom nome de uma pessoa ou de uma família.
Desconheço quais são os critérios de selecção para o “assalto” ao devedor nem quais (se existirem) os parâmetros que determinam a razoabilidade e o bom senso dos operacionais deste tipo de empresa, mas num país onde é tradição fazer tudo em cima do joelho sou livre de temer os excessos de zelo em casos pontuais.

Em localidades de província ou quando estão em causa actividades ou profissões que dependam da honorabilidade e do grau de confiança que as pessoas inspiram é fácil de prever o impacto da actuação nada discreta que caracteriza o modus operandi deste negócio naturalmente mais próspero quando uma crise aperta.

Ainda assim, e voltando ao lado menos humanitário da questão, a fatia de leão dos que se vêem confrontados com esta ferramenta moderna engloba um lote dos cada vez mais numerosos caloteiros por “distracção”. Aqueles tipos que se esquecem de honrar compromissos financeiros, distraídos a cuidar da manutenção da sua piscina…
E também lá apanham os caloteiros por natureza, os cravas que se habituam a viver à conta da passividade da maioria dos entalados pela sua habilidade suja.
Morrem assim os argumentos em sentido contrário. Ou melhor, não morrem. Mas colidem entre si, pela oscilação extremada das razões em causa.

É pacífico conviver com estas contradições, com a incoerência das nossas diferentes percepções de cada matéria. Basta aceitarmos a noção de que não é possível um juízo ponderado e isento quando não tentamos entender todas as partes intervenientes na questão e, no fundo, não conseguimos vestir todas as peles envolvidas.

E neste exemplo concreto o que salta à vista é o florescimento preocupante de uma nova indústria nascida para recolher, de entre os cacos dos fracassos alheios, aquilo que sobra de dignidade nos múltiplos desesperos económicos que uma sociedade demasiado endividada produz.

Publicado por sharkinho às maio 23, 2007 12:58 AM

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Comentários

Por princípio, sou sempre contra o uso da violência, mas compreendo o desespero e raiva daqueles que se vêem numa situação de incumprimento por causa da má-fé de outros.

Se, pelo menos, a justiça funcionasse e fosse célere, talvez algumas situações se resolvessem... como não é assim...

E infelizmente, todos conhecemos pessoas que atravessam dificuldades por causa dos calotes. Ainda há pouco tempo, vi um casal de meia idade, emigrar para reorganizarem a vida. Antes, possuiam um pequeno negócio no ramo da construção civil, com razoável sucesso, e viram-se em dificuldades devido às dívidas de terceiros. Não serão caso único, infelizmente.

Publicado por: Kaffa às maio 23, 2007 12:37 PM

Neste caso até só se presume a violência psicológica, Kaffa, mas lá está a dicotomia: a gente pode colocar-se no exemplo que referes ou nos antípodas. E aí a coisa já não parece tão de caras...

Publicado por: shark às maio 23, 2007 02:40 PM

agradecia que me informassem do seguinte caso.
a sogra da minha irma irma alugou um apartamento, mas nao celebraram contracto, a proprietaria pediu que deixassem o apartamento porque necessita dele para habitar, visto o filho estar a viver agora no brasil e nao ter onde ficar.
entretanto como a agua e aluz se encontravam em nome da proprietaria foi saber se havia dividas, e realmente havia so de agua de um mes pagou 250 euros a qual mandou cortar e da luz tambem pagou muito e mandou corta-la tambem.
os inquilinos neste momento nao estao a viver no apartamento, mas nao deixam a casa e ha ja algum tempo que nao pagam a renda. inclusive a inquilina ja agrediu a proprietaria por duas vezes.
gostaria de saber se podemos mudar a fechadura da habitaçao, porque pelo visto é a unica maneira de a reavermos de volta a dona legitima?
se para efectuarmos a mundança da mesma, temos que solicitar apoio a psp, ou se poderemos agir sozinhos?
ou se a vossa empresa resolve um problema desta natureza?

Publicado por: teresa às novembro 19, 2007 10:04 AM

Teresa, este é um blogue individual e não de uma empresa. Não posso comprometer-me com um conselho acerca de uma matéria que claramente compete ser tratada por um advogado e nessa condição.
Espero que tudo se resolva pelo melhor.

Publicado por: shark às novembro 19, 2007 10:20 AM