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maio 06, 2007

O VENTO QUE SOPRAVA UTOPIAS

caravela utópica.gif

Que ventos sopram ao longe as velas da caravela que foge no horizonte distante daquela memória?
Talvez sejam os ventos da história (mal contada) que um dia será recordada como um capítulo que ninguém conseguiu encerrar.
Uma tragédia, se calhar, o destino transportado pelas ondas até à frágil estrutura da embarcação. Destruída por uma borrasca que aos deuses oferece a voz para gritarem à casca de noz que num momento de fúria seria tão fácil de afundar como um castelo de cartas à mercê de um furacão.

Ou talvez naquela história soprem os ventos de uma glória deserta, uma ilha toda coberta pelo nevoeiro que o medo instalou nos corações. O frio nas emoções congeladas das âncoras fundeadas na desolação de um cais ou na aridez de uma doca seca qualquer.
Uma corda a amarrar os sonhos de uma vida dedicada à exploração dos confins do coração cujo mapa nenhum navegador logrou um dia desenhar.

A descoberta de uma vida melhor nas traseiras do quintal onde assistimos ao nascer do sol e percebemos a dimensão da pequenez que nos caracteriza.
O sopro de uma brisa tão perto de qualquer peito feito deserto, tão suave que nem uma vela consegue apagar, as migalhas de existência debicadas sem consciência de que morrem no tempo as hipóteses de um dia zarpar.
A estrutura envelhecida da nau que jaz esquecida por entre os escombros da frota que outrora integrou, nos dias em que navegou sem olhar à prudência com o rumo traçado pelo ocaso pintado como uma pista laranja nas águas serenas onde sopram ao longe os ventos que arrastam a caravela que foge no horizonte distante que a noite agora cobriu.

A caravela que fugiu de uma forma de prisão que era a sua condição de transporte público regular sem nunca arrojar uma viagem destemida em que o dia da partida parecia nunca mais chegar e a chegada apetecida acontecia numa ilha de onde ninguém desejava partir.
Um ponto minúsculo nas cartas interpretadas pelas gentes embarcadas como um baralho de tarot. Uma vontade que germinou numa ansiedade incontrolável de enfrentar o desafio e renegar aquele frio que enregela quem prefere atracar nas lembranças para recordar de uma história marcada pela desistência.
O amor de um marinheiro a bordo daquele navio tão afastado, um corte inesperado no fio condutor.

A caravela a desaparecer por detrás da curvatura enquanto a terra gira sem que nada para ela pareça importar na sorte ou no azar de quem embarca algures e depois aporta em nenhures ou mesmo de quem nem chega a atingir objectivo algum.

A noite a chegar e o marujo a mergulhar dando início à perseguição mais louca enquanto da sua boca brotam gritos de amor que disfarçam a dor pelo choque da água fria, o prenúncio da hipotermia que arrasta o corpo para o fim.

Mas nem uma nortada pelo vento descarregada arrefece uma alma assim.

Publicado por sharkinho às maio 6, 2007 08:14 PM