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maio 27, 2007
OLHOS FECHADOS
Sentiu-o pela primeira vez numa festa e perdeu de todo a vontade de festejar.
Decidiu ignorar esse sinal, relegando-o para o dormitório dos sobressaltos sem explicação onde repousam essas preocupações fugazes e por isso mesmo encaradas como secundárias.
Viveu uma vida normal, apesar da sua sensibilidade anómala, exagerada, até ao dia em que o voltou a sentir.
Na sala de espera de um hospital onde deixaria internada em definitivo a sua capacidade de estar próximo de outras pessoas.
Era um indivíduo discreto, embora de trato agradável e sem problemas de integração. A única excepção ocorria quando se manifestava a sua natureza susceptível, sobretudo quando se via exposto a cargas emocionais mais intensas.
Lidava mal com o excesso de emoções e por isso refugiava as suas numa postura de aparência distante e reservada que o poupavam à partilha das emoções dos outros e às partidas que a sua pudesse pregar-lhe.
Receava sentir por julgar que isso poderia levá-lo à loucura um dia, tamanha a repercussão dos sentimentos dos outros, apenas os piores, na estrutura frágil que albergava os seus que o pressionavam sem cessar.
Como vozes interiores, mas caladas. Mais como olhares expressivos demais que lhe diziam tudo o que jamais quereria saber e o agrediam de cada vez que se abriam como janelas sobre a alma de alguém.
E ele fugia aos poucos dos muitos que o perturbavam nessa perspectiva, buscava os indiferentes, os ausentes ou os mais frios que conseguia encontrar.
Foi conseguindo viver assim, numa luta contra o tempo que restava no pensamento que sentia fraquejar. Um sacrifício pensar, os seus olhos teimosos que enchiam de imagens a mente que as convertia depois em dolorosas sensações que o dilaceravam, emoções que ultrapassavam o limite da resistência à dor que tanto nascia de um grande amor como de uma tragédia passada.
A sua ou as de outras pessoas que o feriam com a tristeza reflectida num olhar. Cada vez pior, à medida que o tempo passava e o mundo se transformava num viveiro de infelicidades adubadas pelas mais absurdas motivações.
Envelhecia prematuro perante o horizonte tão escuro nos corações da maioria, a multidão que nesse dia o apanhou sem alternativa de fuga.
À espera da tão adiada consulta de urgência que aguardava na lista de espera de uma especialidade cada vez mais sobrecarregada pelos desequilíbrios em constante mutação nos sintomas como na bizarria das suas manifestações.
A ele tocava-lhe aquela, a sensibilidade às mensagens transmitidas pelos olhares das outras pessoas. Ensandecia, enquanto a sua visão percorria um a um os sentires dos pacientes que o rodeavam.
O rapaz que se revoltava por algo que não conseguira ainda obter, o velho zangado por algo que tinha obtido mas perdera depois.
E ao lado dos dois uma mulher desesperada com a morte traçada num diagnóstico confirmado pela segunda opinião. Um homem calado, na outra ponta da sala, de olhar perdido no vazio da solidão interior que o emudecia enquanto se evadia de uma culpa penitenciária para uma loucura que equivalia ao perdão divino, eterno, que apenas no céu poderia encontrar e já não conseguia esperar pelo momento de lhe encostar, a esse céu mesmo à mão, a arma de caça carregada com uma anestesia final.
Era com esse que mais se identificava, o que mais acentuava a sua preocupação com a estranha evolução do seu problema ainda por identificar pela ciência rudimentar que estudava a cabeça das pessoas.
Conversa de treta e uns comprimidos indutores da estupidificação, cobaias voluntárias em experiências aleatórias de cientistas condenados a pouco mais do que uma bola de cristal para acertarem nas suas previsões.
E ele sozinho no meio de tanta gente incapaz de calar sob as pálpebras a agressão latente da sua perturbação específica. Numa câmara de tortura individual, construída em segredo pelo cancro do medo nas traseiras das células mais sedentas de crescer porque o tamanho confere poder e a morte de um cobarde não angaria nos outros a vontade de o chorar no momento do fim.
E ele sozinho a senti-lo germinar a cada impacto de um olhar revelador.
Acabaria por fugir antes do seu nome soar nos altifalantes fanhosos.
Preferiu a deserção para o degredo da solidão onde poderia escolher a melhor forma de sucumbir à demência.
Preferiu a inconsciência à sanidade cruel e optou por vestir a pele de um eremita.
Ainda hoje habita num monte isolado, esse homem derrotado pela força temível de uma dor impossível de ignorar.
O brilho ausente no reflexo descrente do seu próprio olhar.
Publicado por sharkinho às maio 27, 2007 05:17 PM
Comentários
A linha que divide os dois lados é tão ténue que muitas vezes é difícil saber de que lado estamos. E muitas vezes passa-se para o lado de lá voluntariamente por uma questão de defesa. E qual é o lado mais certo?
Publicado por: Maria às maio 27, 2007 08:25 PM
Olha que boa pergunta, Maria...
Publicado por: shark às maio 27, 2007 08:53 PM
Gosto deste estilo. E da inevitabilidade de ficar a pensar depois de te ler. Boa questão mesmo, a da Maria...
Publicado por: Mar às maio 27, 2007 10:59 PM
Gosto tanto de te ler assim...
Publicado por: Partilhas às maio 27, 2007 11:05 PM
Eu também gostava de conseguir escrever sempre mais ou menos assim, Mar.
E gosto acima de tudo de saber que algo de interessante resta para lá da leitura, acima de tudo essa vontade de pensar que referes.
(Responda quem quiser que eu voto em branco...) :)
Publicado por: shark às maio 27, 2007 11:39 PM
Obrigado, Partilhas. E eu gosto imenso de escrever neste ritmo, mas nem sempre sai...
Publicado por: shark às maio 27, 2007 11:43 PM
este site esta muito muito bom
Publicado por: anabela às junho 14, 2007 09:57 AM
Fico feliz por sabê-la agradada, Anabela.
Publicado por: shark às junho 14, 2007 04:26 PM
Fico feliz por sabê-la agradada, Anabela.
Publicado por: shark às junho 14, 2007 04:29 PM
Tão feliz que até sai um bis...
Publicado por: shark às junho 14, 2007 04:32 PM