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maio 20, 2007

POR FORÇA DAS CIRCUNSTÂNCIAS

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Odiavam-se imenso e isso transparecia em todos os encontros públicos que protagonizavam.
Ela olhava-o com desprezo, segredava ao acompanhante os insultos que gostaria poder dirigir ao fulano em voz alta e reprimia-se apenas para não fazer má figura.
Ele retorquia-lhe com um sobrolho franzido sobre o olhar de desafio que lhe lançava e virava-lhe as costas logo a seguir.

Era esta na essência a relação que mantinham no dia em que a improbabilidade se verificou e o caminho os cruzou isolados da habitual comitiva.
Sozinhos os dois num evento qualquer.
E quando se toparam ela não o desprezou de forma ostensiva, apenas esboçou um enfado que nem a si própria convenceu. E ele não franziu o sobrolho, tal como não desviou o olhar por demasiado tempo daquela figura que queria odiar eternamente.

Aconteceu de repente, quando se depararam frente a frente num canto discreto do imenso jardim daquela mansão.
Olhos nos olhos, corações sobressaltados pela surpresa, movimentos tolhidos pela emoção.
Ficaram alguns segundos naquele impasse, cada um fingindo interpretar o outro quando ambos lutavam desesperados para se interpretarem a si mesmos no caos que a intensidade do momento produzia.

Aconteceu a magia quando se lançaram quase em simultâneo um ao outro e se desequilibraram sobre os arbustos que esconderiam os corpos que batalhavam agora contra a roupa que os separava da pele que deveriam rejeitar.
As bocas a devorar os beijos com a sofreguidão de quem sabe que o mundo acabará no dia a seguir e as mãos apressadas nas barreiras despidas de preconceito tecido pela força da circunstância que algures os afastou.

A força que os arrastou, mais poderosa, demoníaca na insensatez, era o efeito surpresa de uma atracção que nenhum dos dois poderia conceber possível. Um apelo irresistível do instinto animal, a roupa interior desviada e a penetração consumada também na pele arranhada pelas unhas que ela cravou nas costas do seu amante proibido.
Um grito abafado pela mão que lhe apetecia cuspir, o esforço para não se vir tão depressa e assim enaltecer o mérito do macho que não podia aceitar como um homem a desejar daquela forma tão intensa.

Em vão a tentativa, a língua tão activa nos dedos que lhe incendiavam cada ponto do corpo que tocavam no seu caminho desenfreado pela fêmea que ele julgava asquerosa.
Mas a força misteriosa empurrava-o cada vez mais para dentro, cada vez maior o alento, inesperado, para entrar fundo no corpo receptivo daquela bruxa malvada.
A sua vontade enfeitiçada por alguma mezinha que o transtornou.
E ela também pensou num pretexto salvador para a sua falta de pudor quando a boca procurou a conclusão que fantasiou na vertigem alucinada de um orgasmo múltiplo que nem hesitou usufruir.

Ambos atónitos no final da experiência, quando tomaram consciência da gravidade da situação.
O calor na sua mão que a queimou como ferro em brasa quando largou, enojada, aquele pedaço erecto do homem que tanto a magoara numa vida anterior onde reinava o amor no espaço que o ódio invadiu.
A roupa que vestiu em silêncio enquanto ele deitava as mãos à cabeça e tentava encontrar a explicação que acabou por nunca surgir.

Acabariam por se despedir à francesa, ambos agarrados à certeza que precisavam conservar de que iriam odiar-se ainda mais depois desse dia.

Mas nenhum dos dois evitaria a repetição do que se passou, meses mais tarde, noutra ocasião que se proporcionou com a espontaneidade encenada de uma invulgar coincidência.

Publicado por sharkinho às maio 20, 2007 12:51 AM

Comentários

«Aconteceu a magia quando se lançaram quase em simultâneo um ao outro e se desequilibraram sobre os arbustos que esconderiam os corpos que batalhavam agora contra a roupa que os separava da pele que deveriam rejeitar.»

A magia é um gajo ainda conseguir respirar, caramba.

(Dás-me cá uma tusa, Tuby)

Publicado por: João Pedro da Costa às maio 20, 2007 01:52 AM

Sabes que comigo é até lhes faltar a respiração...
Além disso, tenho um compromisso com o Luís Rainha e aproveito estas frases para não o desiludir.
E a cereja no topo do bolo é poder alimentar a minha tusa à conta da ideia da tua (é muito erótica, essa imagem. Pelo menos é o que a minha líbido acha. Se fosse por ela eu já estava a esgalhar uma data de frases muito longas, pomposas e rebuscadas só pela pica do teu hard on).
Dás-me tanto prazer. (Também foi bom para ti?)

Publicado por: shark às maio 20, 2007 10:34 AM

!!! Já os antigos diziam: Quem desdenha quer comprar! Por outro lado os extremos tocam-se e os opostos atraem-se (Amor/Odio/Amor).

Publicado por: ! ! ! às maio 20, 2007 10:27 PM

É um clássico, Espantação. Já ninguém inventa nada e coiso e tal...

Publicado por: shark às maio 20, 2007 11:20 PM