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junho 21, 2007

UM PASSO DE CADA VEZ

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Este é um blogue daqueles que costumo ver rotulados de “intimistas”, o que quer que isso na prática traduza.
É seguramente um blogue pessoal, o meu, e gira em torno do meu umbigo como todos os blogues giram de alguma forma em torno dos umbigos dos donos (ainda que dedicados a temas específicos).
Basta a vaidade que sentimos no nosso trabalho para justificar a afirmação anterior.

Isto para introduzir o desabafo que se segue e que tem a ver com esta semana blogueira que entendi dedicar ao problema das crianças desaparecidas, com especial enfoque naquele que é para mim o rosto mais emblemático dessa tragédia, o do Rui Pedro.
Como é fácil depreender pelo que já reflecti de mim neste e noutros espaços, sou um fulano de pendor emocional. E isso reflecte-se no meu melhor como no meu pior, provocando nos outros reacções de grande proximidade como de afastamento total.
Entendo-o como uma consequência natural do tipo de homem que sou.

Se assumo as debilidades que consigo distinguir com clareza no meio da névoa subjectiva que tolda mesmo os mais sinceros (e ninguém pode acusar-me de me limitar a afagar o ego ao longo destes quase três anos), também é normal que dê conta das que têm a ver com a minha sensibilidade relativamente a algumas matérias.
As que por regra se exprimem no meu discurso mais contundente e, mea culpa, chegam a roçar o fundamentalismo.

É o caso concreto deste pesadelo que tenho trazido para os vossos dias neste espaço e por isso mesmo tem marcado de forma significativa os meus.
Vou direito ao assunto: se a simples ponta do icebergue a que tenho tido acesso por via do que busco na net é capaz de me destabilizar ao ponto de ontem não ter conseguido escrever uma linha acerca de tudo isto, não consigo sequer imaginar a intensidade do fenómeno vivido na primeira pessoa.

E esse é um dos aspectos que mais mexem comigo em tudo quanto este problema implica de medonho, sobretudo na pele de pai.
É doloroso, mergulhar num tema que não possui contornos positivos por onde agarrar senão os escassos milagres de que a Imprensa vai dando conta. Na verdade, tudo o resto são informações perturbadoras.
E de entre essas, acredito que podemos ter um impacto directo óbvio numa delas: a da indiferença generalizada a que os dramas em causa são votados, depois de passada a euforia mediática que apenas contempla alguns, deixando as famílias à mercê da sua capacidade de resistência e as vítimas com poucas ou nenhumas hipóteses de conhecerem a salvação possível de quem experimenta realidades assim.

Tudo isto para entenderem que esta opção desconfortável de concentrar a atenção num assunto que arrepia não nasceu do ar nem vai passar por mim sem deixar mossa. Como tem que ser, porque é preciso acordar para o que se passa. O meu umbigo, como o vosso, é absolutamente irrelevante neste contexto excepto naquilo que possa extrair de satisfação pelo cumprimento de algo que não posso descartar como imperativo moral.
E não bastam as iniciativas pontuais para descansarmos as consciências.

É preciso agir e depressa. É fundamental reagir com firmeza à rejeição instintiva que este problema nos provoca e oferecer algo de nós a quem precisa. E neste caso precisam os que foram atingidos pelo pesadelo como os que o podem ser no futuro.

O medo não constitui resposta e a única opção é enfrentar o mal olhos nos olhos, nem que seja com a estalada sem mãos da atitude mais correcta.
A única opção é deixarmo-nos de tretas e arregaçarmos as mangas de uma forma mais actuante e determinada.

Ainda hoje vos darei conta do primeiro passo possível para dar início a um movimento sério e efectivo de apoio às vítimas e, por tabela, de combate aos agressores.

Peço que pelo menos dispensem uns minutos para apreciarem essa opção ao alcance de qualquer um de nós.

Publicado por sharkinho às junho 21, 2007 10:41 AM

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Comentários

Antes de mais, aproveito para te dar os parabéns pela iniciativa, independentemente do êxito que venha a alcançar.

Não é fácil abandonar o conforto do nosso quotidiano e mergulhar numa causa tão dramática como a luta contra a pedofilia. Estou desde o início da semana para tentar escrever um comentário e acabo sempre por abandonar a ideia. Realmente, é um tema que me deixa desconfortável e só penso como reagirei no próximo verão, quando for de férias com a minha filha de dois anos e meio. Sensação estranha...

Espero que esta iniciativa vá ganhando dimensão (ainda que lentamente) e outras se juntem a esta. Mais uma vez, parabéns e se a minha pequena ajuda servir para alguma coisa, não hesites em requerê-la.

Publicado por: Kaffa às junho 21, 2007 07:03 PM

Podes crer, Kaffa, que não alimentei expectativas exageradas pois há muito não possuo neste meio a capacidade de mobilização de outrora.
Porém, acredito que há causas que se impõem por si. E esta, como pai ainda mais concordarás, integra-se nesse lote com toda a certeza.
A blogosfera anda fútil e anda murcha, naquilo que por este caminho acabará por determinar o seu fim.
E lá fora a coisa anda assim também, mas não faltarão ideias exequíveis para pequenos gestos cuja multiplicação pode mesmo fazer toda a diferença.

Obrigado por te "chegares à frente" nesta caixa vazia.

Publicado por: shark às junho 21, 2007 07:35 PM

Publicado por: José M. N. Azevedo às junho 22, 2007 02:38 AM

Obrigado, colega. Quantos mais, neste caso concreto, melhor.

Publicado por: shark às junho 22, 2007 08:16 PM

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