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julho 24, 2007

A POSTA PRÓ BONECO

Perante factos não há argumentos. E as conclusões perfilam-se, cristalinas, sem um esforço mental por aí além.
Claro que todos corremos o risco de deturpar os raciocínios quando os carregamos com os fardos da subjectividade, do palpite, da especulação. Mas em boa medida conseguimos obter um quadro razoável a partir do que se afigura difícil se não impossível de contestar.

Depois é-nos pedido que assumamos uma reacção em conformidade com as ditas conclusões, boas ou más. Ou seja, existem consequências inevitáveis para as reacções, certas ou erradas, às conclusões, idem, que necessitamos assumir para nos sentirmos donos de alguma coisa que seja no destino que nos arrasta a seu bel-prazer.
Quase sempre é nas reacções que a bronca se produz, pois temos a opção de amadurecer as conclusões até um ponto onde a sensatez pode fazer toda a diferença na respectiva interpretação. Mas não a exercemos.

Isto é perverso, se tivermos em conta a bela utopia da sinceridade como um ideal. Se hesitamos em reagir, nomeadamente em fazer perguntas que esclareçam melhor as interrogações que nos esforçamos por suprimir, já estamos perante um dilema quanto à tal obrigação moral de sermos sinceros (pelo menos) com algumas pessoas.
Na blogosfera a coisa amplifica, pois literalmente qualquer pessoa tem acesso às reacções espontâneas e não seria surpresa para ninguém ver esse voyeurismo convertido num exercício de puro deleite canalha.

É assim que as coisas acontecem na vida real que aqui também se faz, em versão “higiénica”. A gente fala demais, os/as vampiros/as de pretextos sugam-nos a fraqueza ou a debilidade e já está. Mais uma boa razão para baixar o nível de prioridade da bendita sinceridade que nos contos de fadas toda a malta respeita e admira.
É chato, bem sei, colocar as coisas nestes termos. Mas até o macaco acaba por ganhar calo onde as coisas acontecem da pior maneira possível.

O silêncio é de ouro e por isso mesmo constitui a alma de qualquer negócio. Mas não do nosso, este de blogar, que se torna invariavelmente fútil quando as brincadeiras de miúdos perdem a piada e quem visita acaba por enjoar o mergulho no vazio.
Claro que podemos sempre abraçar a Cultura, dar-lhe o nosso toque pessoal e inconfundível e aborrecer o “pagante” até ao adormecimento total. Ou podemos inventar personagens, fantasias de nós próprios que pululam alegremente no contexto de uma farsa que só pode produzir histórias curtas com péssimos finais.

Mas poucos de nós possuem a bagagem bastante para impressionar neste meio (por norma) dotado de formação superior e quase nenhuns aliam essa sabedoria ao talento inato para a transmitir de uma forma apelativa.
E são mesmo raros os que conseguem sustentar por muito tempo a máscara de verniz que os/as cobre com um anonimato que cedo ou tarde satura ou acaba por se perder, para desgosto de quem comprou, gato por lebre, a imagem forjada.

As alternativas que restam resumem-se ao difícil encaixe no enxameado mundo da análise política que, em boa medida, abriu o caminho para este benefício de que usufruímos aos milhares. Só os muito bons conseguem destacar-se nessa matéria.
Também há o recurso à “especialização”: cinema, teatro, dança clássica ou moderna. Informática, comunicação, culinária.
Ou à simplificação: futebol, gajas, sexo, coisas das quais todos percebemos o bastante para nunca ficarmos mal na gravura.

E ainda resta a literatura, sobretudo a poesia sempre tão popular, associada ao Amor (esse tema que toda a gente fala mas pouca sabe exactamente de quê) que constitui sempre um assunto fascinante (e que teoricamente pode abrir caminho para um dos itens da simplificação de que vos falava mais acima).

Algo me terá escapado ao longo desta lengalenga, mas acabo por vir parar ao tema que escolhi para o charco e do qual a maioria das pessoas acaba por abdicar (como autor/a ou como visita).
Os blogues pessoais ou intimistas, descaradamente virados para o umbigo de quem os faz (já foi mais o caso por estas bandas), só podem ser uma de duas coisas: verdadeiros ou falsos.

Por verdadeiros entendo os que efectivamente reflectem algo de quem os leva a cabo, os raros genuínos que cometem a leviandade de se descascarem por esta via. Fruta mesmo à mão para a corja oportunista…
Por falsos, não necessariamente com uma conotação pejorativa, encaro os que reflectem a vontade ou a necessidade de alguém se proteger (ou esconder) por detrás de um filtro qualquer. Ser homem em vez de mulher, ser no fundo uma simples caricatura.

Existem pessoas mal intencionadas, para tal bastando terem mau fundo e/ou tomarem alguém de ponta. Com ou sem razão, com ou sem intenção deliberada de exercerem o poder de espalhar ao vento o escárnio, o desdém ou qualquer outra repugnância que se monta tão bem em cima de um lapso, de uma estupidez ou de uma calinada de quem arrisca dizer alguma coisa de verdadeiro e sem rede em vez de investir na diplomacia tão prudente como (desculpem-me a franqueza) hipócrita do segredo, do medo, do faz de conta.

É isso que enfrenta quem precisa de tomar decisões nesta comunidade tão exigente quanto ingrata, tão unida quanto distante, tão porreira até ao momento em que os príncipes encantadores se transformam em sapos por assumirem em público que possuem um orifício igual ao que desenvolve calosidades nos símios que referi (lá para cima, quando ainda havia duas ou três pessoas a ler esta posta).
Perdido o encanto, sobrevém a hostilidade ou a indiferença.

E as reacções, claro, acabam por surgir depois.
A blogosfera dos “comuns”, a minha, está a definhar no lodaçal dessas tretas.

E ninguém me viu apregoar inocência.

Publicado por sharkinho às julho 24, 2007 12:25 AM

Comentários

o meu umbigo ainda continua redondinho
a minha caverna do fazdeconta tem o lodo relativo das comunidades
a mesquinhez é parte da vida geral
a malta só liga o minimo
afinal, tantos passarinhos e passarinhas para fotografar
oh meu, tu caga nisso ;)

Publicado por: j.p. às julho 24, 2007 11:46 AM

Ò minha, atão tu nã vês que estes meus exercícios de purga visam precisamente o efeito laxante que me recomendas? :)

Publicado por: shark às julho 24, 2007 12:03 PM

eheheheh
visam, visam
;)

Publicado por: j.p. às julho 24, 2007 12:42 PM

És uma céptica, pá. E eu sou um lírico.

Publicado por: shark às julho 24, 2007 02:04 PM

Eu tou c'a JP, a malta só liga para se esbaldar a rir com os cromos...;-)))(e és um lírico, sim)

Publicado por: Mar às julho 24, 2007 04:05 PM

Com sorte até pode ser que me faça poeta. Perto da reforma, ou assim... :)
Esbaldar a rir é uma expressão muito porreira.

Publicado por: shark às julho 24, 2007 04:13 PM

(E sempre podias ter confirmado que ao menos de futebol ainda percebo qualquer coisita...) :(

Publicado por: shark às julho 24, 2007 04:17 PM

(É que nem era bem em relação a esse tema que eu te iria recomendar...) ;-)

Publicado por: Mar às julho 24, 2007 05:02 PM

Ah bom (cof cof)...
Parecia que estavas esquecida dos meus dotes culinários (cof cof). :)))

Publicado por: shark às julho 24, 2007 05:08 PM

L00L! Nada! Eu lá me ia esquecer da cataplana de marisco? ;-)

Publicado por: Mar às julho 24, 2007 07:45 PM

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