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julho 11, 2007

A POSTA QUE LHE DEU NA BOLHA

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A princípio deixou-se apoderar pela apreensão quando se descobriu no interior daquela aparente prisão que inviabilizava uma vida em pleno lá fora.
Gostava de acreditar que fazia falta a alguém no exterior da fina película transparente que agora delimitava o seu espaço pessoal. Depressa percebeu que não passava afinal de mais uma ilusão sua, a malta que andava na rua (como chamava ao direito do avesso em que se acreditava) seguia o seu caminho imperturbável e olhava de soslaio, indiferente, a sua figura flutuante que pairava a escassa distância do chão.

Depois foi caindo em si, livre de intromissões ou de interferências, de ralações ou de ingerências que pudessem desconcentrar a sua atenção do que agora se colocava como o mais pertinente dos assuntos a ponderar.
Aos poucos começou a apreciar aquela distância artificial, aquela prudência natural perante o que percebia tratar-se de uma forma bizarra do desconhecido de quem avisavam na infância para nunca dar conversa.

Percebeu que conversava demais e foi sentindo os sinais de forma cada vez mais clara, enquanto observava em silêncio o ruído de fundo que os outros produziam e a sua esfera protectora não impedia de ver ou de ouvir.
Habituou-se com o passar dos dias a essa postura diferente, cada vez mais evidente a conclusão precipitada, a decisão equivocada com base em argumentos nascidos de uma fonte cuja água há muito fluía com vestígios coliformes.
A nascente de ilusões que desaguavam na foz do realismo sumário, sempre ausente uma bandeira azul que garantisse a pureza cristalina que bebia quando a esfera não filtrava o que via nem aquilo que lhe era dado a beber.

Sentia-se agora à vontade no interior daquela cela fictícia, onde passaria a voluntária a detenção quando naquilo a que chamava prisão deixou de procurar uma porta de saída.

E ainda melhor ficou no dia em que constatou que, apesar de algo diferentes da sua e mais ou menos dissimuladas, tanta gente flutuava em redomas invariavelmente muito parecidas…

Publicado por sharkinho às julho 11, 2007 03:39 PM