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julho 15, 2007

EM PARALELO

brook watson and the shark.jpg

Como numa rasteira das que o destino nos prega para testar a capacidade de cada um para lidar com os seus trambolhões.
Como num simples cruzamento de linhas que pode originar a coincidência fatal ou a conversa inicial de uma relação proibida.
Como em todas as manhas do azar ou da sorte na vida que determinam o caminho a seguir sem que alguém possa intervir de forma esclarecida para mudar a agulha.

No prato, a deslizar, diamante, sobre as pistas traçadas no vinil. As músicas tocadas ao gosto de quem manda afinal nisto tudo e compõe os arranjos como impõe a natureza do tom, a pureza do som que se torna roufenho quando na melodia alguns acordes despertam para a realidade inevitável de uma generalizada surdez.

Como num sonho concretizado dos que flutuam inacessíveis no limbo que a utopia oferece para nos seduzir.
Como numa fita antiga, a preto e branco, sublimada a magia da imagem pelo mais belo aproveitamento da luz.
Como na maioria daquilo que se vê, exactamente o que alguém produz a partir da sua visão subjectiva depois de renegar a natural alternativa noutro olhar que não o seu.

Na tela, a contracenar, amante, sobre as linhas definidas pelo guião. As cenas interpretadas ao sabor das palavras simples de um escritor, adaptadas às exigências dramáticas e às imagens capazes de agarrarem uma audiência quando nas bilheteiras se faz sentir o longo braço da lei, numa terra de cegos quem tem um olho é rei, da oferta e da procura num mercado global.

Como numa dimensão paralela, num mundo secreto onde a vida acontece exactamente como a pretendemos e até conseguimos ignorar os pecados deixados por limpar no planeta distante que deixámos para trás.

Como numa mentira, mas daquelas tão compensadoras que qualquer consciência consegue na boa aceitar.

Ou simplesmente ignorar.

Publicado por sharkinho às julho 15, 2007 04:49 PM

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Comentários

A pintura é um pouco lúgubre mas, de certa forma, é perfeita para o texto, não me perguntes porquê.
Talvez porque, lá atrás, toda aquela luz pareça mesma uma dimensão paralela á tragédia que em primeiro plano se desenrola...não sei mas parabéns pelo efeito. ;-)

Publicado por: Mar às julho 15, 2007 08:17 PM

Foi exactamente o que achei quando me ocorreu este quadro como ilustração, sócia.
O texto possui o mesmo contraste na "luz". :)

Publicado por: shark às julho 15, 2007 09:18 PM

Pois é :-)

Publicado por: Mar às julho 15, 2007 09:44 PM

Bom texto. Bom texto mesmo. E... o quadro... À primeira vista, pensei
- O Sharkinho anda a fazer das dele, está a querer papar alguém e outros andam a tentar salvá-la.
Olha só o que fui pensar...

Publicado por: claudia às julho 15, 2007 10:09 PM

Obrigado. Obrigado mesmo.
E o quadro, enfim, essa seria uma leitura possível. Em todo o lado um shark como eu pode dar com empatas... :)

Publicado por: shark às julho 15, 2007 10:38 PM

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