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julho 23, 2007

FADO VADIO

A senhora, septuagenária ou suficientemente estragada pela vida da noite para o parecer, fora fadista (ou alternadeira, ninguém conseguiu afiançar).
Dela sabiam também que vivera durante anos com a filha e um homem da noite até ao dia em que ambos resolveram alterar a política (e a estrutura) de alianças no seio da família e deixaram a senhora fadista sozinha a cantar.

A senhora, absolutamente conformada ou apenas desempoeirada o bastante para o parecer, exibe-se feliz. Cheia de palheta, ar de diva, cuidado na aparência e dignidade na expressão, encheu a sala com a sua presença e ainda lá terá ficado umas horas a dar música ao proprietário do tasco, seu velho conhecido, algo que, de acordo com as suas palavras de cavalheiro para quem a discrição nunca se renega, não teria dado em nada…

E eu retenho, desta pequena lição que uma hora de almoço me proporcionou, o quanto o tempo consegue relativizar as histórias mais dramáticas e os passados mais controversos ao ponto de soarem gargalhadas onde antes as lágrimas e a reprovação faziam a banda sonora dos filmes das vidas que só os cromos deste calibre conseguiriam, com o seu calo e estaleca para enfrentar a desdita, protagonizar com tanto à-vontade para vestir ou despir qualquer tipo de pele que o acaso algures lhes colou.

Publicado por sharkinho às julho 23, 2007 11:58 AM