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julho 03, 2007
LAST PICTURE

O olhar recusou-se a fugir da expressão daquele homem cuja boca fechada contrariava a sua óbvia intenção de berrar.
E se calhar até berrava, lá dentro, no interior daquele corpo vergado ao peso da pressão que não conseguia libertar.
E a testemunha a observar em silêncio o percurso do olhar daquele homem que seguia os pássaros no seu voo sem ver mais do que a versão de negro por si estampada naquele céu azul.
A revolta abafada como um princípio de incêndio sufocado por cobertores, panaceias sem sucesso para a vontade irreprimível de abrir a boca e soltar os demónios cujas garras retalhavam, sem piedade, o centro nevrálgico da dor.
Mas a boca permanecia fechada e a loucura progredia aos poucos na sua lenta caminhada até à demência total.
Nenhuma ajuda possível por parte da pessoa estranha que percebia, do outro lado da linha, a iminência medonha de uma coincidência horária no ponto de saturação.
E o homem sentado num banco da estação, a sós com o seu desespero mudo, incapaz de encontrar uma saída naquele labirinto isento de luz.
O outro, preocupado com a sua impotência, massacrava a consciência pelo dilema entre a indiferença prudente e a intervenção que lhe parecia urgente se de alguma forma quisesse protagonizar uma salvação.
Ou um simples adiamento de uma cena macabra, marcada no calendário sem folhas daquele homem que não berrava pelas forças esgotadas demais.
O bando de aves já desaparecia no horizonte, acaso foleiro, quando o olhar que recusava fugir seguiu o impulso inconsciente de procurar uns metros adiante, por uma fracção de segundos, a silhueta crescente do comboio que avançava sobre a linha rumo à hora de ponta de outra estação qualquer.
Publicado por sharkinho às julho 3, 2007 04:03 PM