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agosto 11, 2007
RAÍZES NO SUL
Foto: Shark
Aqui e além a paisagem, quase sempre a paisagem, exibe as cicatrizes da passagem efémera da presença humana na pele da terra que depois a cobre de vegetação.
Mas impõe a vontade da Mãe Natureza que a veste, a terra, na esmagadora maioria dos lugares que a vista consegue alcançar. O verde, imenso, mais o dourado intenso nos campos onde a água escasseia ou a espiga se arrebita alentejana ao vento que a agita mas não consegue arrancar.
Desta terra que é força, uma terra tenaz cuja vida acontece nos locais mais imprevisíveis. A semente que sobrevive numa pedra, sequiosa, mas aguenta paciente o momento mais adequado para agarrar o lugar e depois levantar um sinal de resistência no meio do que às vezes sentimos desolador.
E depois encontramos a linha costeira, onde o mar castiga os flancos de um Alentejo que desafia os elementos e resiste com uma parede de rocha ao avanço das águas salgadas de muitas lágrimas escapadas dos olhos tristes das viúvas de pescadores.
O oceano que se arrepende depois e amansa nas praias escondidas, discretas, difíceis de alcançar e as beija com o doce ondular de uma maré vazia da vontade de converter em areia a rocha litoral que o pó interior condensou.
O calor que o queimou e ainda queima sem misericórdia, salpicos de branco caiado com uma faixa de amarelo ou de azul. A vida pachola do sul onde o esforço se quer doseado, pois nem a terra à mercê de si própria consegue acelerar a criação de vida por já não conseguir transpirar. Quando o calor se instala nos invólucros da dor que se cala à maneira das gentes, poucas, que insistem como as sementes na pedra sobreviver a um clima tão hostil.
A força de um sul onde a planície predomina mas também se revela alentejana cada uma das suas elevações.
O poder das paixões que nascem sob a luz do seu ocaso vermelho, o apelo dramático do amor que surge como um imperativo para contrapor a beleza da esperança à fatalidade que emerge nos olhares de velhos apoiados em cajados na orla dos montes ou à beira das estradas nacionais secundárias.
O Alentejo cheio de histórias para contar.
E eu cada vez mais arrastado pela força da corrente que me prende por uma insuspeita costela alentejana.
Publicado por sharkinho às agosto 11, 2007 05:30 PM
Comentários
!!! Da mesma forma é a força e o carácter dos Homens e Mulheres do Alentejo. Rudes, integros, de carácter, sábios pelos ensinamentos da vida, despertos e ávidos pelo progresso mas avessos a algumas modernisses. E a dolência que trespassa no seu cante não é mais que o contraponto da força das suas vozes, só coparável à dureza do seu trabalho. Provincia que foi sempre desprotegida a enteada de um país que se chama Portugal. Alvo da troça de alguns convencidos, sabe responder com argúcia e riso desarmando quem os tenta ofender.
Publicado por: ! ! ! às agosto 11, 2007 06:44 PM
Tá tudo dito! :)
Publicado por: shark às agosto 11, 2007 07:48 PM
"O calor que o queimou e ainda queima sem misericórdia, salpicos de branco caiado com uma faixa de amarelo ou de azul."
Ao ler esta frase, lembrei-me do ano passado em que percorri pelo menos duas vezes o Alentejo e reparava muito nessas faixas que aliás diferem do Algarve para o Alentejo.
Publicado por: claudia às agosto 11, 2007 08:17 PM
Ah, a minha estimada "concorrente" já percebeu que parte do segredo tá na atenção ao pormenor... :)
Publicado por: shark às agosto 11, 2007 08:21 PM
Ai os pormenores...
Publicado por: claudia às agosto 11, 2007 08:36 PM
!!! Queridos amigos no alentejo essas faixas chamam-se (os baixinhos das casas) e antigamente eram bem definidos : região de Beja = azuis; Évora = amarelos; Serpa = cinzentos; e havia outra zona já não me lembro de Santiago do Cacem se odemira em que eram verdes. Agora está tudo misturado.
Publicado por: ! ! ! Susete às agosto 11, 2007 09:36 PM
Obrigada pela informação, Susete.
Publicado por: claudia às agosto 12, 2007 08:37 PM