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agosto 18, 2007

SOLIDÃO DISFARÇADA

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O cerco apertava enquanto o passado acumulava detritos em seu redor.
Cada vez mais alto, o resíduo deixado pela passagem do tempo em cada momento desperdiçado, em cada passo mal dado, cobria o horizonte visual e distorcia a imagem dos outros enquanto cuidava de lhes turvar a sua.

Lembrava-se do dramaturgo Samuel e entretanto acumulava papel no muro crescente das coisas que emparedavam a sua consciência entre os pesos que criava ao sabor da maré que oscilava entre a mais implacável lucidez e uns assomos de estupidez tão grande como a de um tijolo.
Mais um, somado aos detritos do passado e firme na estrutura que cimentava sem cessar com as mazelas por sarar que lhe infectavam a percepção.

Como bolas de sabão, explodiam-lhe no rosto os capítulos já escritos e perdiam-se por detrás do muro os trilhos abertos para os capítulos por escrever.
Perdia-se sem saber como naquele espaço exíguo que lhe restava para se perceber, numa espécie de clausura que obrigava a viver os outros à distância.
E assim se expunha ao medo do desconhecido e vestia a pele de lobo como couraça e depois constituía-se uma ameaça latente para cada pessoa distante que há muito desistira de se empoleirar do lado de lá da barreira que crescia inexorável.

Afirmava-se sensível mas ignorava a sensibilidade alheia, centrava os considerandos na imagem de si que especulava sem contar, que as desprezava como hostis, com as recomendações demasiado sinceras que poucos insistiam.
E eram cada vez mais escassas as imagens que lhe transmitiam, lá de fora, para o fundo do poço em que se tornara aos poucos o seu chão.

Buscava a solidão disfarçada como se aplica uma pomada num hematoma superficial e com isso só acrescentava mais uns quilogramas de entulho ao cerco que apertava e não dava mostras de ceder.
Aos poucos deixou de doer, substituída a decepção por uma raiva generalizada às gentes do lado de fora da barricada em que se entrincheirou.

E foi assim que desapareceu do mundo teimoso que aconteceu indiferente à sua ausência.

No dia em que apenas os mirones espreitavam em silêncio o poço sem fundo e escutavam atentos os fracos gemidos do que lhes era descrito pelos outros como uma mera aberração.

Sem alguém que insistisse em desmentir essa versão, vergada a resistência dos que acreditavam e ainda esgatanhavam o muro em busca de um fio condutor.
Dos que se afastavam para longe, para um sítio sossegado onde o seu próprio cerco não tardava a apertar.

Enquanto o passado acumulava detritos em seu redor.

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Publicado por sharkinho às agosto 18, 2007 04:54 PM

Comentários

Há opções, assim, tomadas contra tudo ao que aos olhos dos outros é que é o "normal".

Bonitos efeitos de fotografia. :-)

Publicado por: Mar às agosto 18, 2007 05:07 PM

Pois há e são tão aceitáveis como quaisquer outras.
Mas num texto ficcionado o autor pode dar-se ao luxo de transmitir uma interpretação subjectiva e eu sou muito dado a luxos, como sabes. ;)

Ainda andas pelo litoral?

Publicado por: shark às agosto 19, 2007 12:18 AM

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