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setembro 08, 2007

COM O DEDO NO BOTÃO

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O médico olhou de novo para o monitor da mais paciente das suas.
Parada no tempo, em morte lenta, ligada a uma máquina chamada ventilador. Paciência infinita, apatia, o ritmo cardíaco constante de quem já não possui sequer consciência das suas emoções.
Um vegetal.

O médico nada podia fazer mas algo o impelia a espreitar, em busca de algum sinal de melhoras. À procura de qualquer alteração que pudesse reforçar uma réstia de esperança numa forma de recuperação possível.
Que nunca aparecia, distante a paciente dos caminhos de outra fé que não a sua, nenhuma, egoísta, como o companheiro gritara quando pela última vez a visitou em pessoa, revoltado pela dor que convertia em ira e depois se traduzia no consolo periclitante da repugnância aparente pelo que entendia como uma deserção. Uma forma de traição distorcida, pois sabendo-o ausente no momento fatal vestia a si próprio (como outros lhe vestiam) a pele de traidor.

Renegava o seu amor, em vão, tentando esquecê-la. E tanto tentou que um dia afirmou não mais voltaria a falar sozinho naquele velório infinito à beira de uma cama num hospital e conseguiu honrar esse compromisso derradeiro que pelo menos o poupava ao desconforto da inevitável indiferença daquela casca fria que já nada albergava da mulher a quem um dia se ofereceu.
Desde esse dia não mais apareceu, incapaz de testemunhar cada passo doloroso daquela morte anunciada, um simulacro de vida suportado sem lógica de uma forma absolutamente artificial.

O médico olhou de novo para o monitor.

E pela primeira vez sentiu-se tentado a premir, desmentindo o juramento de Hipócrates, as letras “off” gravadas a vermelho e em relevo naquele piedoso interruptor.

Publicado por sharkinho às setembro 8, 2007 12:28 AM

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