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setembro 23, 2007
DE UMA RELEVÂNCIA CAPITAL
O sol encoberto por uma nuvem de pombos assustados pelo grito de um pregão. A luz reflectida no branco sempre mais branco que o das vizinhas no lençol desfraldado num minúsculo e ferrugento estendal. Os pescadores amadores à beira do rio, olhares distraídos numa regata de veleiros que recorta no horizonte a outra margem no extremo da ponte com nome de revolução.
A cidade desnivelada, pelas colinas espalhada em misturas de estilos que o tempo esculpiu em betão. Mulheres à janela em busca de uma alternativa à novela nas vidas dos que as vivem do outro lado da rua, tão perto, à mercê da indiscrição de paredes com ouvidos e de pessoas curiosas com olhares de falcão.
E os maridos reunidos, todos eles bem bebidos, na esquina de um edifício ou à porta de uma taberna ou de um café.
Crianças que brincam num jardim e eu a lembrar-me de mim tão pequeno como eles na minha infância alfacinha, na existência que caminha sempre depressa para os dias nostálgicos de quem busca no que passou a força para aquilo que lhe resta viver.
E eu a lembrar-me da promessa de nunca aceitar qualquer passado a assombrar o futuro que desejasse diferente neste momento presente que me compete moldar à medida dos meus sonhos de então.
O fim de uma tarde de Verão neste Outono que começa.
E eu a cumprir a promessa, cada vez mais distante da influência nefasta que um passado arrasta quando lhe concedemos demasiada atenção no instante em que preparamos o melhor caminho a percorrer amanhã, se tal existir, ou mesmo depois, se a vida o permitir, sem tempo para gastar com memórias que só empatam a criação das novas histórias que o tempo igualmente cuidará de arquivar num canto do baú.
A luz inconfundível desta Lisboa que às vezes me atordoa com uma ou outra imagem impossível de repetir. Mas que me obriga a decidir, iluminado pelas decisões do meu passado, que este é o melhor momento da vida (porque está a acontecer) e tudo aquilo que fizer faço-o agora e não num tempo irrepetível ou num outro, imprevisível, com o qual não posso alimentar mais do que ambições que podem tornar-se ilusões quando não concretizadas em consonância com as expectativas criadas sempre cedo demais.
O tempo da mudança de folha no caderno como nas árvores deste Outono que hoje não esteve presente na Lisboa que se ofereceu luminosa e se revelou igualmente generosa na inspiração daquilo que a razão às vezes não faculta mas o instinto, pela surra, nos diz.
E o meu insiste, quase me empurra, para as pessoas e os locais que me fazem sentir sem reservas (pela luz que nos afasta das trevas) um lisboeta que se acredita mesmo muito capaz de ser feliz.
Publicado por sharkinho às setembro 23, 2007 09:56 PM
Comentários
Este texto é lindo e somente o compreende o lisboeta ou aquele que ama lisboa....
Publicado por: rosa silvestre às setembro 24, 2007 10:33 PM
Logo por galo, Rosa, este blogue tem sobretudo "clientela" de fora... :)
Obrigado por teres partilhado comigo o facto de entenderes a mensagem.
Publicado por: shark às setembro 24, 2007 11:59 PM