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setembro 15, 2007
DESCOMPLICAÇÃO GENIAL
- Ò meu docinho, já hoje te disse o quanto me sinto feliz a teu lado?
- Ainda não, meu amor. Pelo menos nos últimos quinze minutos…
- E acho que tiveste uma ideia sensacional em aproveitarmos o fim-de-semana para arrumarmos o sótão cheio de velharias e de pó, como essa lanterna antiga que tens na mão para limpar.
- Pois é, meu querido, eu também adoro estes momentos de partilha e tudo aquilo que representam na proximidade que temos enquanto casal.
- É isso mesmo, doçura, quase como irmãos que tudo sabem um do outro, uma simbiose perfeita, uma… uma… Olha lá, é impressão minha ou a lanterna está a fumegar?
- Credo, pois está. Pensava que era uma nuvem de pó, meu amor. E agora?
- Pousa isso depressa, meu amor, tenho medo que te magoes. Mas, mas, quem é esse gajo barbudo ao teu lado?
- Ai, meu querido, que susto! Tás sempre a brincar, maroto…
- Mas está mesmo um gajo barbudo ao teu lado, com umas vestes esquisitas. Acho que me deves uma explicação.
- Hã? Desculpa? Uma explicação para o quê?
- Para o quê? Está um homem no sótão, eu não o conheço de lado algum e estive quase dois meses fora.
- Tu estás a sugerir alguma coisa? Tens a lata de me vires com insinuações depois de eu por várias vezes ter ouvido vozes de mulher no teu quarto quando te telefonava para o hotel?
- O quê? Vozes de mulher? Isso deviam ser as camareiras, tás parva?
- Às onze da noite, como na última chamada que fiz? Deves ficar em hotéis muito especiais, tu…
- Eu posso explicar, meu amor…
- Permitam-me que me apresente, eu sou…
- O senhor importa-se? Estamos a meio de uma conversa privada.
E tu podes explicar o quê? A conversa toda fresca com a gaja da florista, aquela boazona atiradiça, onde me compraste a prenda do dia dos namorados e que a minha melhor amiga ouviu?
- A conversa? Qual florista? A tua amiga enlouqueceu! E este barbudo com o coiso esquisito na cabeça, de onde é que ele veio?
- Permitam-me que esclareça, eu vim de…
- Olha pá, é melhor para ti que feches a matraca antes que eu perca a cabeça e faça das minhas. És o último a falar e quando a tua vez chegar calas-te, topas?
Mas vá, explica lá como é que eu chego a casa e dou com um caramelo no sótão?
- Preferias no roupeiro, era? Parvalhão…
- Ainda tens a lata de me insultares? Eu ando a trabalhar longe de casa para atender a todos os teus desejos e tu…
- Por falar em desejos, se me permitem eu sou um génio e…
- Ah sim? És um génio? Então descobre lá uma solução para evitares que eu te parta já essa tromba toda. Tás a gozar, ainda por cima? Palhaço! Caluda!
- Andas a trabalhar longe de casa para quê??? Então e o descapotável caríssimo que compraste antes de partires e que logo no dia da estreia já estava cheio de cabelos louros nos estofos que tu disseste ser da “vendedora”. O cartão do stand que encontrei por acaso no porta-luvas diz que a vendedora se chama António e tem um bigode que conheci de perto quando fui lá devolver-lhe a penugem. Era moreno, como sabes, e a penugem não lhe pertencia.
Mas eu percebi logo, quando vi a recepcionista, quem é que te acompanhou no test drive que me descreveste com tanta intensidade e sorrisos. Idiota arrogante…
- Já tás a ir longe demais nos insultos. E foste fazer o quê ao stand? Que história é essa do bigode?
- Olha para ele, tão incomodado… Fui ao stand experimentar a sensação de comprar um carro novo que tanto desejava. E adivinha lá quem o vai vender?
- Tu andas metida com o Tó?
- Não mais do que tu com a recepcionista, mas o Tó já me provou que também tem jeito para o trabalho da recepção à clientela. E ao contrário dela não larga pelo ao longo do caminho…
- Desgraçada, traidora, fizeste de mim um cornudo!
- E tu, aldrabão, porco sujo, fizeste de mim o quê?
- Desavergonhada, gaja fácil…
- Ordinário, só tens areia para a camioneta das outras…
- Permitam-me que interrompa, mas eu só posso conceder um desejo por pessoa e tem que ser depressa, pois tenho que regressar ao mundo da magia…
- Ah é, barbudo dum cabrão? Então só quero o divórcio, rápido e sem complicações, e uma ambulância para te levar ao hospital depois de eu te enfiar a lanterna pelo focinho, filho de uma…
Puf!!!
- Para onde é que ele foi, o cobardolas?
- Para onde ele foi não sei, mas o António vai adorar ver-me chegar ao stand com o descapotável que passou a ser meu (tal como tudo o resto, aliás), de acordo com esta papelada que a teu pedido se preencheu por magia e sem complicação alguma para atrapalhar o processo.
O meu desejo, que formulei enquanto te armavas em duro, foi ter lá a tua assinatura…

Publicado por sharkinho às setembro 15, 2007 07:33 PM