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setembro 10, 2007

HÁ GENTE ASSIM

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Há gente que rebola lá ao fundo, onde apenas se consegue distinguir um tapete de flores no chão. Sim, naquele lugar distante onde as pétalas embalam com o vento e imitam as borboletas que antes coloriram aquele céu.
E não param de caminhar, a vida inteira, na direcção daquela gente que rebola lá ao fundo e ouvem-se os sorrisos no canto dos pássaros que migram em círculos para voltarem, completa a circunferência, ao sítio de onde partiram por saberem ser esse o melhor sítio para ficar.
E não param de caminhar, os sonhadores, no sentido dos seus amores obrigatórios inscritos a ouro no código da sua estrada feliz.

Há gente que se isola num poço sem fundo, onde apenas se consegue ouvir um ruído imperceptível, vindo de cima, que podiam acreditar ser a força do mar nos rochedos, numa terra sem medos onde as pétalas embalam com o vento e espalham sobre os corpos dos amantes que rebolam lá ao fundo um manto colorido de pudor.
Mas preferem interpretar o som como um soluçar constante, realistas, o sofrimento permanente da gente desnuda que se expõe ao flagelo das intempéries humanas e ao pesadelo das relações intemporais, monotonia, e no final enfrentam sempre, que eles próprios provocam, a agonia de mais uma ilusão.

Há gente que se guia pelo coração, onde apenas se acolhem aqueles que se escolhem parceiros para a partilha do que a vida tiver para oferecer. Sim, no interior de um peito onde desaguam os rios vermelhos que circulam em cada pessoa e se revelam tão fortes como enxurradas quando arrastam pelas veias o sangue quente da emoção genuína. Que arriscam.
E não param de caminhar, a vida inteira, rumo ao berço da utopia onde reina a magia e as paixões desconhecem o conceito de fim.

Há gente assim, tão diferente da maioria.

E existem também os que racionalizam a beleza e abraçam uma forma de tristeza que transpira nas suas conclusões e na cobardia das suas deserções quando mergulham a cabeça para fugirem da ameaça de um sentir em demasia, que desviam o olhar para o lado quando sentem na retina a dor instintiva que lhes suscita o receio perante a mais ténue fonte de luz.
Lâmpadas fundidas, consciências entorpecidas pelo remorso das desistências que os priva da corrente que os ilumina e que é a mesma que anima os rios que desaguam no peito cuja pele oferecem a eito aos beijos que jamais os seus poros conseguirão absorver na essência do que representam.

Há gente que prefere os que lamentam insucessos de forma erudita ou gemem patéticos uma história maldita que os cega ao ponto de se ajoelharem em descarada subserviência. Ou ainda os que disfarçam a indiferença com fretes ocasionais.
E há gente, por outro lado, que rebola no meio do prado onde predominam os tons de um jardim onde os amores não conhecem o fim e o vento poliniza as flores e os corpos com a dádiva da esperança que transmite a confiança necessária para o desabrochar de uma história imortal.

Um romance, afinal, que fala de um lugar distante onde só vive aquela gente capaz de rebolar pelo chão quando se entrega à emoção.

Há gente capaz de ficar quando encontra um lugar onde o sol nunca se põe.

Publicado por sharkinho às setembro 10, 2007 11:49 PM