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setembro 22, 2007
POR HERANÇA A MALDIÇÃO
Ignorava o suor que lhe caía rosto abaixo e sorria enquanto sonhava que as suas mãos calejadas talhariam na madeira a fantasia para o filho ou a filha que estava para nascer.
Cada mão era escrava de um patrão, os manos Silveira, a dupla mais temida de empregadores do concelho.
Mas agora ele olhava para a mão, a esquerda ou a direita, e só via a mais resplandecente magia que a sua arte de carpinteiro seria a varinha de condão. Para encanto da menina, um passarinho, um rouxinol. E viesse um rapagão, que ele olhava para cada mão e libertava-as as duas para um mundo onde os Silveira não conseguiam entrar.
Precisava das horas extra pela família a aumentar e só por isso aturava os brutos, antigos campinos, cuja fortuna se dizia em voz baixa ter sido legada por uma tia de quem mal haviam ouvido falar. Eram na altura gente do povo, remediados, mas o dinheiro deixou-os estragados ao ponto de tratarem os antigos amigos e vizinhos como verdadeiros animais.
E ninguém refilava, com mais medo dos pides que frequentavam os bastidores nas patuscadas que aumentavam a fome com o cheiro nas narinas suadas dos homens mais pobres de Vila do Chão.
Ele chamava-se João e tudo suportava para não perder o lugar e talvez vir a sofrer as pressões que empurravam outros, mais fortes ou mais fracos, não o sabia nem queria saber, para a longínqua França ou outro exílio qualquer.
Ouviu no alto da ladeira a voz estridente da jovem cunhada e pediu licença com toda a reverência ao Silveira mais novo que era dos manos o menos mau. E ele não a deu, apressado que estava de lucrar sem parar à custa dos que precisavam e por isso calavam os gemidos com que imploravam aquilo que a revolta abafada queria berrar.
Mesmo assim, vergado sobre a bancada, conseguiria ouvir o recado da cunhada que lhe dizia “ela está a parir”.
E o João transpirava, mas sorria fechado em si próprio no mundo à parte onde o deixavam ser feliz. Espreitava clandestino uma frincha na parede e aguardava notícias, frenético, produção acelerada para cumprir o objectivo impossível imposto pelo mais velho, terrível, a meta definida para o momento da libertação relativa daquela prisão onde as grades se embutiam nas janelas da alma de cada pessoa explorada que, de qualquer forma, estava ali porque não sabia para onde fugir.
O tempo a passar cada vez mais devagar porque as notícias não chegavam de casa, o calor que arrasa mais os nervos que se apoderavam aos poucos do pacato João. E ele contava as unidades produzidas, em silêncio com o olhar, pois aprendera a contar sem nunca ter pisado o chão de uma escola. Trabalhava ou pedia esmola, como o pai lhe dera a escolher no dia em que o ensinou a contar porque era tudo quanto precisava para sobreviver na realidade que lhe deixaria por herança no dia em que a vida o enforcou no telhado do celeiro.
O João precisava de dinheiro para oferecer uma vida que queria melhor para o herdeiro que a cunhada no cimo da ladeira gritava agora estar entalado na mãe, virado ao contrário, e a parteira improvisada não conseguia resolver.
Começou a temer o pior e virou-se para os Silveira, conscientes do que se passava pelo que conseguiam ouvir, e pediu licença para sair, pela emergência, argumentando com a voz embargada que já tinha excedido a sua quota de produção e tudo.
Acabaria troçado pelos dois, os parodiantes de circunstância tão divertidos no usufruto do direito ao abuso de poder.
O João pedia por tudo, pelos seus filhos e suas mães ou mesmo por Deus. Que o deixassem sair agora para poder juntar-se ao sacristão numa desesperada oração por quem lhe restava na vida de merda que lhe competia agradecer.
E eles insistiam no não, que diziam ser obrigação para evitar maus exemplos para o resto do pessoal.
O João, alucinado, aguardava um novo recado da miúda mais nova das sete irmãs da mãe de um filho que era o seu. Mas aguardava calado demais e os colegas perceberam algo de errado no seu olhar que parecia prever o pior e eles nada podiam fazer quando a moça na ladeira lavada em lágrimas nem precisou de gritar.
O João que decidira espreitar na pior altura, a verdade que era tão dura e os Silveira às gargalhadas por outro motivo qualquer e ele pensou que era da sua mulher que escarneciam.
Voou para um machado antes que alguém conseguisse deitar-lhe a mão e a força louca do João abriu a cabeça ao patrão, o mais novo, como já vira fazer a uma melancia de Almeirim e outro, que entretanto fugia, sentiu o aço nas costas e depois deitou-se de bruços para morrer.
E o João não parou de correr até ao celeiro, onde a vida ajustava as contas com cada devedor.
E na ponta da corda o sinistro balanço anunciava o eterno descanso de mais um desgraçado com saldo perdedor.
Publicado por sharkinho às setembro 22, 2007 01:31 AM
Comentários
É um texto muito triste, relato de vidas passadas, onde o medo pairava no ar .... o pior é que já se sente novamente....."eles andem aí".
Publicado por: rosa silvestre às setembro 22, 2007 08:35 AM
Mas vestiram outras "peles" e são por isso mais difíceis de identificar...
Publicado por: shark às setembro 22, 2007 05:44 PM