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outubro 16, 2007

FAZ DE CONTA QUE É FICÇÃO

O dia estava bonito mas o gajo de trás insistia em buzinar o seu alheamento a essa realidade prazenteira.
Nada havia a fazer, de resto, bloqueada que estava a via com alguém que decidira trabalhar naquele local e à mesma hora a que o gajo de trás pretendia passar depressa.
Era uma pequena camioneta numa operação de descarga, mas a estrada, secundária e de sentido único, não tinha berma nem espaço suficiente para passarem dois veículos lado a lado.
Restava pois ao gajo de trás aguardar a sua vez e entretanto apreciar o dia bonito que estava.

O gajo da frente fazia de conta que nem percebia, espraiando o olhar pela paisagem campestre enquanto o de trás bufava e buzinava e perdia aos poucos a compostura, apressado para ir a algum lado que, numa tarde de sábado, dificilmente se trataria de compromisso profissional.
Ao seu lado uma jovem produzida, bonita como o dia que estava e o seu companheiro apressado não queria apreciar, desviava o olhar para o lado oposto e tentava ignorar-lhe a atitude imbecil.

Lá fora o dia estava bonito, mas o barulho que o gajo de trás produzia rasgava o relativo silêncio num ponto da paisagem onde apenas se vislumbravam as filas de oliveiras e os montes ao longe a partir dos quais existia de novo a civilização como o gajo de trás a entendia.
Naquele ponto específico havia apenas um grupo de árvores, paisagem, e aquela taberna com toldo de café que só era abastecida quando o rei fazia anos ou quando empatava cretinos apressados como o gajo de trás.

O gajo da frente, com uma calma aparente, aguardava apenas um momento crucial.
O camionista, que corria para a porta do seu veículo de trabalho e implorava com as mãos juntas, fingindo que rezava, a todos o perdão. Que o gajo de trás lhe negava, cuspindo palavrões. E buzinando outra vez, numa espécie de ponto parágrafo ao vernáculo que a jovem ao seu lado parecia ter por habitual.

E nesse preciso instante, o gajo da frente desligou o carro e fingiu tentar dar à chave de ignição.
Depois abriu o capot, dirigiu-se à parte de trás do seu automóvel, calmeirão e aspecto pouco dócil, armou o triângulo mesmo nas barbas do colérico, trancou as portas e começou a caminhar em direcção a nenhures, deixando o outro boquiaberto e bloqueado nas ideias também, mão pousada sobre a buzina inútil.

Ao seu lado a jovem sorria discretamente e saboreava interiormente os cenários possíveis para a sequência daquela situação, enquanto a figura do gajo da frente desapareceu de repente por detrás de uma oliveira mais larga no tronco onde, de resto, se encostaria e pouco tardaria a adormecer.

Publicado por sharkinho às outubro 16, 2007 02:25 PM

Comentários

Faz de conta que a cena se passou contigo e que na falta de um chaparro foste fazer uma soneca à sombra da oliveira... :))

Publicado por: Maria às outubro 16, 2007 06:23 PM

Ok, vamos nesse supônhamos... :)

Publicado por: shark às outubro 16, 2007 06:30 PM

Ora por falar em reino faz de conta, vale a pena ver o site www.reifazdeconta.com

Publicado por: José Vasconcellos às novembro 14, 2007 05:42 PM