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outubro 05, 2007
O DEVER DA VERDADE
Na mesma semana, uma dupla portuguesa com alguma notoriedade rimou na defesa da verdade mais incómoda para quem prefere acreditar numa visão optimista do país que estamos a construir.
Catalina e Medina, pessoas com idade avançada e pouco ou nada a perder, imunes às consequências que silenciam a maioria dos que poderiam falar, embaraçam quem nos governa com autênticos gritos de alerta daqueles que se multiplicam e custa cada vez mais ignorar.
Medina é um homem de mérito reconhecido na área que domina, a economia, e conhece os dois lados (chamemos-lhes ideológicos) da questão. Viveu por dentro o poder e agora hostiliza-o com uma versão muito pessimista do caminho que estamos a percorrer.
E os números que esgrime preocupam, pelo quanto desmentem a crença num rumo com norte para o futuro de Portugal. Incoerências e contradições, mentiras como lhes chama. Serradura para os nossos olhos que apenas adia, de acordo com o autor de um livro que dá nome a esta posta, um colapso tão inevitável quanto pressentido por cada vez mais inquiridores.
Catalina foi a figura mais mediática do escândalo mais vergonhoso dos anos recentes deste país. Entalada por pressões de toda a ordem, de realidades que enojam qualquer um, a antiga Provedora deu cabo da saúde e da vaidade numa carreira que ninguém (e muitos tentariam) conseguiu conspurcar na sua fase terminal. Sujaram-na os salpicos de vergonha que brotaram da “sua” instituição quando, não há fumo sem fogo, o pesadelo da pedofilia saltou dos armários da Casa Pia com rostos conhecidos e a classe política em visível aflição.
Anos decorridos sobre o turbilhão, afirma que estão a repetir-se os factos que a Justiça aparenta julgar num processo que faz lembrar os das facturas falsas ou do apito dourado na inconsequência após a denúncia e respectiva exposição.
Um e outro podiam manter o silêncio e assim garantirem a paz numa fase da vida em que todos a ambicionamos de alguma forma. Preferiram falar, uma verdade que é a sua e que, no mínimo, justifica a maior atenção.
É que não estamos a falar de autores anónimos de blogues, mas sim de figuras públicas cujas circunstâncias pessoais e respectivas inclinações ideológicas em nada parecem influenciar as respectivas conclusões. E ambas convergem na crítica ao poder, este como outros, que parece esconder ou pelo menos maquilhar todos os aspectos que possam evidenciar o estado paupérrimo em que o Estado está a deixar a nação.
A verdade é um dever quando a realidade nos pode trair como uma surpresa, no dia inevitável de apresentação da factura no seu todo.
A mesma que os factos de Catalina e os números de Medina representam apenas numa ínfima fracção.
Publicado por sharkinho às outubro 5, 2007 10:37 PM
Comentários
O Dr. Medina Carreira esteve hoje no novo programa "Economia do Mês" no canal 2. Fez-me lembrar outro pensador inconformado, o filósofo José Gil, autor do livro "Portugal hoje - O medo de existir."
Seria interessante um debate entre eles e personalidades responsáveis para o actual estado das coisas.
Publicado por: Marinus Luyks às novembro 18, 2007 01:29 PM
A dificuldade em promover tal debate estaria em seleccionar as tais personalidades responsáveis de entre uma multidão de candidaturas...
Publicado por: shark às novembro 18, 2007 03:59 PM